Netflix corta previsão de anúncios e ação cai após o balanço do terceiro trimestre
Na América Latina, sem o câmbio, a receita cresceu 12%, a menor alta dos cinco trimestres listados na carta; o aumento de preço no Brasil só entra na conta do quarto trimestre
A Netflix fechou o terceiro trimestre de 2026 com receita de US$ 12,9 bilhões, em linha com a própria previsão, segundo a carta aos acionistas de 20 de outubro. A mesma carta baixou para cerca de US$ 2,7 bilhões a receita esperada com publicidade no ano. E avisou que as demissões anunciadas em 14 de outubro vão custar cerca de 1,2 ponto percentual da margem do quarto trimestre.
Na Nasdaq, a ação chegou a cair 7%, segundo o InfoMoney. O site registra que a previsão de receita para o quarto trimestre ficou abaixo da estimativa dos analistas. Parte da perda foi devolvida em seguida, anotou o Deadline. Às 17h58 de Brasília de 20 de outubro, a ação valia US$ 64,75, 5,7% abaixo do fechamento, segundo o Yahoo Finance.
Bela Bajaria, Peter Rice e Dan Lin não aparecem na carta. É a primeira desde a semana em que a Netflix trocou o comando do conteúdo. Em 15 de outubro, a empresa anunciou a saída de Bajaria e a chegada de Rice, ex-Disney, que assume como diretor de conteúdo em 26 de outubro; quatro dias depois, Lin deixou o comando do cinema. Em outro trecho, a carta reconhece: “Sabemos que há alguma preocupação dos investidores com o crescimento das horas assistidas”. Em 30 de setembro, na conferência Screentime, da Bloomberg, o copresidente-executivo Ted Sarandos tinha dito que, “no geral, não estamos crescendo tão rápido quanto eu gostaria”, segundo o Hollywood Reporter.
A margem prevista para o quarto trimestre, de 26%, já inclui o custo das demissões. Sobre a receita esperada para o período, de US$ 13,4 bilhões, esse 1,2 ponto equivale a cerca de US$ 160 milhões. Para defender os cortes, a carta repete a linguagem do memorando interno, segundo a Variety: “Essas mudanças na organização nos permitem continuar investindo com força em áreas de alto impacto, para melhorar nosso serviço e impulsionar o crescimento e a inovação”.
Na publicidade, a meta de julho era dobrar a receita em 2026, para cerca de US$ 3 bilhões. A carta culpa um “lançamento um pouco mais lento do que o esperado de alguns recursos dos produtos de anúncio”. As assinaturas, diz, cresceram acima do previsto. A receita do ano deve ficar em US$ 51,1 bilhões, um pouco abaixo do meio da faixa anunciada em julho.
A margem e a conta do Fisco brasileiro
A margem operacional, a parte da receita que sobra depois de pagar conteúdo, tecnologia, marketing e administração, foi de 34,6% no terceiro trimestre, contra 28,2% um ano antes. Boa parte desse salto vem de uma conta brasileira. No terceiro trimestre de 2025, a Netflix lançou como custo cerca de US$ 619 milhões por uma disputa com o Fisco sobre tributos que não incidem sobre a renda, relativos a períodos desde 2022. Pela carta da época, a despesa tirou mais de cinco pontos da margem.
Tirando essa despesa, a margem de um ano antes teria sido de 33,6%. O avanço fica perto de um ponto. A empresa também superou a própria previsão, de 33,2%, o que a carta atribui sobretudo ao calendário das despesas.
O que muda para quem assina no Brasil
A América Latina rendeu US$ 1,6 bilhão no trimestre, 17% a mais que um ano antes. Sem o efeito do câmbio, a alta cai para 12%, a menor dos cinco trimestres que a carta lista para a região. Os cinco pontos de diferença vêm da conversão: o que se paga em moeda local rendeu mais dólares.
Quantos brasileiros assinam, a carta não diz. A empresa deixou de publicar o número de assinantes a cada trimestre, e o último dado da região, de dezembro de 2024, era de 53,3 milhões. O Brasil também não aparece entre os reajustes do ano. A carta diz apenas que a resposta dos assinantes aos aumentos de 2026 é “consistente com os reajustes anteriores e com as nossas expectativas”. O aumento brasileiro, que levou o Premium a R$ 71,90 em 15 de outubro, veio depois do fim do trimestre e só aparece nos números do quarto.
O preço está, com assinaturas e anúncios, entre o que deve puxar a receita do quarto trimestre. No Brasil, a alta mais forte de 15 de outubro foi a do plano com anúncios, o mais barato: 23,9%. Em tecnologia de publicidade, a carta cita uma parceria nova com o Mercado Livre na América Latina.
No catálogo, o único título brasileiro citado é Nando Entre Dois Mundos, derivado da série Sintonia, com 18 milhões de visualizações desde a estreia, em agosto. Entre os acordos de licenciamento, a carta menciona a francesa TF1 e a Disney. O acordo com a Globo ficou de fora. Anunciado em 19 de outubro, véspera do balanço, é o maior já fechado entre as duas empresas: 18 títulos a partir de dezembro, entre eles Ainda Estou Aqui, só para o Brasil. “Desejamos que este acordo seja apenas o primeiro passo de uma longa parceria”, disse no comunicado Elisabetta Zenatti, vice-presidente de conteúdo da Netflix no Brasil.
Pelo comunicado de 15 de outubro, Rice vai supervisionar séries, filmes e eventos ao vivo; até a escolha de um novo chefe de cinema, responde também pela área, segundo o Business Insider e o Deadline. Até 20 de outubro, a Netflix não tinha anunciado o substituto de Lin.
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