Por que as séries são canceladas depois de uma ou duas temporadas?

A segunda temporada custa mais que a primeira, e a plataforma decide com números que não publica: taxa de conclusão, horas vistas por custo e assinante novo. De 1899 a Cangaço Novo, os casos com data.

Cena da segunda temporada de “Cangaço Novo”, série do Prime Video encerrada em setembro de 2026, cinco meses depois do lançamento.
Cena da segunda temporada de “Cangaço Novo”, série do Prime Video encerrada em setembro de 2026, cinco meses depois do lançamento. — Foto: Reprodução / Prime Video

A série termina num gancho, o elenco agradece nas redes e a plataforma publica uma linha, quando publica. Quem assistiu fica com a pergunta. A resposta das plataformas, quando existe, é uma variação da mesma frase: a série não entregou audiência compatível com o custo. Essa frase esconde uma conta com três partes. A segunda temporada custa mais que a primeira. A plataforma mede coisas que o público não vê. E o contrato foi desenhado para que parar doa pouco em quem decide e muito em quem fez.

O que “cancelada” quer dizer

Há três fins escondidos na mesma palavra. O primeiro é o fim combinado: a história foi escrita para acabar ali, e a plataforma avisa. Em 17 de dezembro de 2024, a Netflix anunciou em comunicado oficial a “quinta e última temporada” de Sintonia, com estreia em 5 de fevereiro de 2025 e episódios que, nas palavras da empresa, “concluem as histórias dos amigos”.

O segundo é a não renovação, o caso mais comum. A série termina, às vezes num gancho, e a plataforma não encomenda a seguinte. Quase nunca há comunicado: quem avisa é o criador, nas redes, ou um site que confirma com a assessoria. 1899 estreou em novembro de 2022 e, em 2 de janeiro de 2023, Baran bo Odar e Jantje Friese escreveram no Instagram, em post reproduzido pelo TVLine: “Com o coração pesado, temos de dizer a vocês que 1899 não será renovada”. A Netflix não comentou. Com Warrior Nun, o criador Simon Barry avisou no Twitter, em 13 de dezembro de 2022, semanas depois da estreia da segunda temporada.

O terceiro é o cancelamento depois da encomenda, quando o dinheiro já foi gasto. GLOW tinha sido renovada pela Netflix para a quarta e última temporada em 2019 e filmou três semanas em março de 2020, até a pandemia. Em 5 de outubro de 2020, a plataforma desistiu de terminar, e um porta-voz disse à Deadline que filmar “esta série fisicamente íntima, com seu grande elenco” era “especialmente desafiador” com a covid. No Brasil, a Globo cancelou Ilha de Ferro em junho de 2019 com a segunda temporada pronta e inédita, e com roteiristas já escrevendo a terceira. Em nota citada por Patrícia Kogut, de O Globo, a emissora disse que “preferiu encomendar novos originais”; a IstoÉ registrou a réplica de plataforma de petróleo da série, de cerca de R$ 2 milhões, sendo desmontada.

Por que a segunda temporada custa mais

A primeira temporada de uma série de streaming é a mais barata que ela vai ter. Em março de 2019, a Deadline descreveu, em análise repercutida pelo SlashFilm, o modelo da Netflix, o “cost-plus”: a plataforma paga o custo de produção adiantado, acrescido de um prêmio de 30% ou mais, e fica dona da série. O estúdio não tem prejuízo e, em troca, abre mão do que uma série longa rende depois em outros canais e países. No lugar disso, recebe bônus a cada renovação, e esses bônus crescem. Nas produções próprias da Netflix, eles passam das centenas de milhares de dólares aos milhões a partir da terceira temporada.

A segunda parte da conta é o elenco. Contrato de primeira temporada paga pouco, porque ninguém sabe se a série vai existir; quando ela vira sucesso, a renegociação chega com a renovação. Para a terceira temporada de Stranger Things, a Hollywood Reporter noticiou em março de 2018 que os quatro meninos do elenco passaram a receber US$ 250 mil por episódio, e Winona Ryder e David Harbour, até US$ 350 mil; levantamento da Fox Business de julho de 2019 situava o cachê dos jovens nas duas primeiras temporadas na faixa dos US$ 20 mil. Esse salto é a exceção visível. A regra é que toda equipe custa mais na segunda temporada, e o custo por episódio sobe junto.

O que a plataforma mede

A renovação se decide com números que o assinante não vê. Em julho de 2018, na Television Critics Association, Cindy Holland, então vice-presidente de conteúdo original da Netflix, explicou por que Everything Sucks! não voltou, segundo o TVLine: “havia muito menos gente do que a média completando a temporada”. Taxa de conclusão é o primeiro número. A Digital I, empresa de medição citada pelo site What’s on Netflix em agosto de 2022, calculou que menos de 45% de quem começou First Kill chegou ao último episódio, contra cerca de 75% em Heartstopper, e um representante resumiu ao site: “historicamente, abaixo de 50% quase sempre leva ao cancelamento”.

O segundo número é a relação entre o que se viu e o que se gastou. Quando a Netflix cancelou The OA, em 5 de agosto de 2019, uma fonte da empresa explicou ao TheWrap que a renovação pesa audiência contra custo. A Bloomberg deu nome a essa régua em outubro de 2021, em reportagem resumida pelo What’s on Netflix: cada título recebe uma “parcela ajustada de audiência”, um “índice de eficiência” e um “valor de impacto”. Round 6 marcou eficiência de 41,7 vezes e valor de impacto perto de US$ 900 milhões, para um custo de US$ 21,4 milhões. A fórmula é secreta. Se quem assistiu é assinante novo, isso entra na conta.

Ted Sarandos juntou os dois números numa frase. Em janeiro de 2023, à newsletter Screentime, da Bloomberg, o co-CEO da Netflix disse que a empresa “nunca cancelou uma série de sucesso” e que “muitas dessas séries eram bem-intencionadas, mas falam com uma audiência muito pequena com um orçamento muito grande”. Em novembro de 2020, Bela Bajaria, então chefe global de séries da Netflix, disse no Paley International Council Summit, segundo o TheWrap, que a plataforma renova 67% das séries que chegam à segunda temporada, “o padrão da indústria”, e atribuiu os cancelamentos de primeira temporada ao hábito de encomendar “direto para série em vez de fazer pilotos”.

O que sobra para quem faz

O modelo paga bem na entrada e nada na saída. Jeff Sagansky, ex-presidente da CBS Entertainment e da Sony Pictures, disse num discurso na NATPE, em junho de 2022, publicado na íntegra pelo site M&E, que “estamos numa era de ouro da produção de conteúdo e na era das trevas da divisão criativa dos lucros”. A Netflix não pretende mudar. Em 10 de outubro de 2024, Bela Bajaria, já diretora de conteúdo, disse em conferência, segundo a Hollywood Reporter: “Nosso modelo funciona muito bem para o talento. Funciona muito bem para os cineastas. Funcionou bem para nós”.

Para a equipe brasileira, série cancelada é trabalho a menos no ano seguinte, sem nenhum rendimento futuro da obra que ajudou a criar. Ninguém Tá Olhando estreou na Netflix em novembro de 2019 e, em março de 2020, a plataforma confirmou ao Notícias da TV que não haveria segunda temporada. Em novembro de 2020, já cancelada, a série ganhou o Emmy Internacional de melhor comédia. O diretor Daniel Rezende disse ao AdoroCinema, em dezembro daquele ano, que ela foi lançada “no pior momento possível, onde a nota de corte da Netflix estava bem alta”.

Maldivas teve uma só temporada: lançada em junho de 2022, foi encerrada em outubro, e O Globo informou que elenco e produção já tinham sido avisados. Cangaço Novo repetiu o padrão em setembro de 2026, quando o Prime Video confirmou ao Omelete que não haveria terceira temporada: duas temporadas, quase três anos de intervalo entre elas, a segunda lançada em bloco em 24 de abril daquele ano e a notícia confirmada a um site cinco meses depois. A atriz Alice Carvalho escreveu no X, em post reproduzido pelo Estadão Conteúdo: “Triste e inacreditável, mas foge ao nosso controle”. A plataforma não explicou o motivo. Raramente explica. A segunda temporada, produzida pela O2 Filmes, trouxe atores cearenses como Marta Aurélia, Yuri Yamamoto, Nataly Rocha e Robério Diógenes, segundo O Povo. Esse grupo volta ao mercado sem a série e sem participação no que ela render no catálogo.

O que o espectador pode olhar

Alguns sinais são públicos. O primeiro é a etiqueta: quando a plataforma escreve “temporada final”, como fez com Sintonia, o fim está combinado. O segundo é o tamanho da encomenda. Em 6 de março de 2024, a Netflix renovou Avatar: O Último Mestre do Ar para a segunda e a terceira temporadas de uma vez, depois de 41,1 milhões de visualizações em 11 dias e do primeiro lugar em 76 países, segundo o site Film Stories. Encomenda dupla é rara. O terceiro é o Top 10 semanal e o relatório de engajamento que a Netflix publica duas vezes por ano desde dezembro de 2023, com as horas vistas de cada título. A série que some da lista na terceira semana está sendo medida por aquele número.

O que fica fora da vista é a conta inteira: o custo da segunda temporada, a taxa de conclusão e o peso do assinante novo. A plataforma já pagou pela série, e por isso não deve explicação a quem a fez. E não publica o dado que explicaria a decisão a quem a viu. O número que encerra cada uma delas fica com quem encomendou.

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