Marisa Orth conduz o desejo aos 62 anos em curta que fica entre o fashion film e o erotismo
Filme de estreia da plataforma Amasso, com direção de Gringo Cardia e codireção de Bárbara Paz, coloca a atriz no comando da cena. A fotografia é firme e a proposta é mais interessante do que o gênero costuma oferecer.
O primeiro filme da Amasso, plataforma brasileira de conteúdo sensual lançada em 30 de setembro, está mais perto de um videoclipe do que de qualquer coisa que se espera de um site adulto. Marisa Orth, 62 anos, protagoniza o curta ao lado do ator e modelo Vitor Gadelha, 38. O filme tem 7 minutos e 29 segundos, é rodado em preto e branco e não mostra sexo explícito. O que ele mostra, e bem, é uma mulher madura no centro do desejo, conduzindo a cena em vez de servir a ela.
A escolha não é pequena. Boa parte do audiovisual adulto ainda vende a mulher submissa como regra e ajuda a construir uma visão de mundo bastante equivocada sobre sexo e desejo. No curta, Marisa continua sendo um símbolo sexual, mas agora com vontade própria e tomando a iniciativa.
Não há propriamente uma dramaturgia, mas seria injusto cobrá-la: a proposta é a de um vídeo artístico, e nela o filme se resolve bem. Visualmente, é forte. Fica a impressão, porém, de que a Amasso está num caminho interessante e que um próximo passo poderia dar outro fôlego ao conteúdo: um pouco de narrativa, um fio que conduza as imagens. Dá até vontade de propor algo com a voz grave e aveludada de Marisa, uma narração poética por cima das cenas. Seria um belo degrau a subir.
A direção é de Gringo Cardia, com codireção de Bárbara Paz. O filme custa R$ 33 em compra avulsa, sem assinatura mensal.
Entre o fashion film e a novela das nove
Os takes misturam linguagens. Em alguns momentos o curta tem cara de fashion film. Em outros, lembra a cena de amor de novela logo antes do blackout. Passaria fácil, também, por um vídeo de bastidores de um ensaio fotográfico levemente erótico.
Faz sentido, então, que a produção aponte como referência o clipe de "Justify My Love", de Madonna, de 1990. O parentesco está em tudo: o preto e branco, que domina o curta do início ao fim, e o clima voyeurístico, de quem espia um encontro pela fresta. É nas cenas finais, no banho, que a câmera revela mais do corpo de Marisa. E há um detalhe que a coloca de novo no comando: vemos o corpo dele com bem menos roupa do que o dela, uma inversão rara nesse tipo de conteúdo, em que costuma ser a mulher a ser desnudada para o olhar.
O desejo depois dos 60
Aos 62 anos, Marisa já é considerada idosa pela lei. Na tela, a palavra simplesmente não cabe. A câmera trata o corpo da atriz sem pudor e sem condescendência, sem esconder a idade e sem fazer dela o assunto. O desejo aparece como algo que continua, e não como exceção a ser justificada.
Em entrevista à revista Quem, Marisa ligou o trabalho diretamente ao combate ao etarismo e questionou a ideia de que a sexualidade da mulher madura precise ser tratada como algo excepcional ou moralmente suspeito. Contou que se preparou fisicamente para as gravações e que sentiu insegurança antes de ver o resultado. Depois, a reação mudou. "Me achei extremamente bonita", afirmou. Está, de fato, belíssima. A atriz diz esperar que a experiência ajude outras mulheres a se sentirem mais livres em relação ao próprio corpo.
É aí que mora a maior beleza do projeto. Numa cultura em que homens maduros seguem como objetos de desejo com naturalidade, enquanto as mulheres perdem esse espaço conforme envelhecem, a Amasso escolheu inaugurar seu catálogo com uma atriz de 62 anos no centro da cena, e não como coadjuvante da fantasia de alguém mais jovem. A diferença de idade em relação a Vitor Gadelha não é escondida. Marisa até brincou publicamente com a experiência de contracenar com um parceiro 24 anos mais novo. Faz parte da graça.
O que a Amasso quer ser
A plataforma não esconde a aposta. Define o próprio conteúdo como sexy art e diz resgatar o glamour da Playboy dos anos 80 e 90, uma sensualidade de atmosfera e fantasia, sem sexo explícito. O modelo também difere do OnlyFans e do Privacy: em vez de criadores gravando e vendendo o próprio material, cada título é um curta com diretor e elenco convidados pela casa, vendido por compra avulsa. Marisa foi direta na divulgação: "A ideia não é ser um simples OnlyFans ou um pornô. Estamos vendendo estímulo."
Depois de assistir, a definição se confirma. O curta é limpo, performático e assumidamente artístico. "Eu vendo atitude, ilusão", resumiu a atriz, e a frase se sustenta na tela. Fica, de fato, no meio do caminho: não é o OnlyFans, não é o site adulto tradicional, mas também não finge ser cinema. É um produto de nicho, que mira um público disposto a pagar por desejo bem embalado.
Em 1997, no auge da Magda de "Sai de Baixo", Marisa foi capa da Playboy, numa indústria que transformava atrizes jovens em capas de revista masculina. Quase 30 anos depois, a sensualidade continua.
Serviço
Amasso
Com Marisa Orth e Vitor Gadelha. Direção: Gringo Cardia. Codireção: Bárbara Paz
O curta não tem título próprio: é vendido como "Marisa Orth"
Duração: 7min29. Preto e branco. Para maiores de 18 anos
Valor: R$ 33, compra avulsa, sem assinatura mensal
Lançamento: 30 de setembro de 2026.
A plataforma prevê novos títulos a cada 40 dias, aproximadamente



