Netflix aumenta preços no Brasil e segue sem dizer se o corte global chega a São Paulo

Na quinta-feira (15), o Premium foi a R$ 71,90 e o plano com anúncios subiu 23,9%; a nota da empresa fala em investir em entretenimento e nada diz sobre o escritório de Pinheiros

Bancadas vazias no plenário do Senado, em foto de 2018: a lei do streaming, o PL 2.331/2022, segue sem data de votação desde novembro de 2025
Bancadas vazias no plenário do Senado, em foto de 2018: a lei do streaming, o PL 2.331/2022, segue sem data de votação desde novembro de 2025 — Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na quinta-feira (15), um dia depois do memorando que anunciou o corte de cerca de 1.000 empregos no mundo, a Netflix subiu o preço dos três planos de assinatura no Brasil. O Premium, o mais caro, passou a R$ 71,90 por mês. A empresa justificou o aumento em nota à imprensa e, até a noite de quinta (15), seguia sem dizer se o corte atinge o escritório de São Paulo.

A sala de imprensa brasileira da Netflix não publicou comunicado. Às 23h40 de quinta, a última nota da página ainda era a de 8 de outubro. Os valores novos apareceram na página de planos da central de ajuda e foram confirmados pela empresa a veículos de imprensa.

Em resposta ao g1, que publicou às 14h39, a empresa disse que busca entregar “mais valor” aos assinantes e que atualizou os preços “para continuar investindo em entretenimento de qualidade e melhorar a experiência de todos”. A nota, que também saiu no Meio & Mensagem, acrescenta que a plataforma continua oferecendo “filmes, séries, reality shows e muito mais”, com “opções para diferentes orçamentos”. Nos trechos publicados, ela não fala de emprego.

Quanto a mais, plano por plano

Para quem paga o Premium, o plano de quatro telas simultâneas e imagem em 4K, a alta foi de 20%, ou R$ 12 por mês. Em 12 mensalidades, a diferença soma R$ 144. O ano de assinatura passa a custar R$ 862,80.

O maior aumento proporcional ficou com o plano mais barato. O Padrão com anúncios foi de R$ 20,90 para R$ 25,90, alta de 23,9%, ou R$ 60 a mais num ano. É a modalidade que a Netflix vende aos anunciantes: em 2 de setembro, num evento para o mercado publicitário, a empresa disse ter 35 milhões de pessoas ativas por mês nesse plano no Brasil, segundo o Times Brasil. O dado mede quem usa o plano, e uma assinatura pode ter mais de um usuário.

O Padrão sem anúncios passou de R$ 44,90 para R$ 51,90. É a menor alta das três, 15,6%, ou R$ 84 num ano.

O assinante extra, cobrado de quem divide a conta com alguém de fora de casa, também ficou mais caro. Na cópia mais recente da página de planos guardada pelo Internet Archive, de 16 de fevereiro de 2026, ele custava R$ 9,90 com anúncios e R$ 12,90 sem. Na quinta (15), a página mostrava R$ 11,90 e R$ 14,90, sem dizer em que dia o valor mudou.

Quem assina agora já paga a tabela nova, e quem já é cliente continua a ser cobrado no dia do mês em que a assinatura começou. Para esse caso, a central de ajuda diz que a Netflix “enviará um email sobre a alteração um mês antes da primeira data de cobrança com o novo preço”. À pergunta sobre manter o valor antigo, a mesma página responde que, anunciado o reajuste, “os novos preços serão aplicados a todos”. Entre os motivos possíveis de aumento, ela lista reajustes “em resposta a mudanças no mercado local, como alterações de impostos ou inflação”, dois itens que a nota enviada à imprensa não menciona.

O reajuste anterior, de 23 de maio de 2024, foi de até 12% e pôs R$ 4 no Premium, segundo o Canaltech. De junho daquele ano a setembro de 2026, último mês publicado, o IPCA acumulou 11,1%, em cálculo feito por esta redação com os números-índice do IBGE. Os três aumentos de agora passam disso, e o do plano com anúncios fica acima do dobro. Em 26 de março de 2026, numa matéria sobre o aumento nos Estados Unidos, o Olhar Digital registrou que a empresa não previa reajuste no Brasil naquele momento.

O escritório de Pinheiros e a semana da empresa

O escritório de São Paulo tem menos de nove meses. Em 27 de janeiro de 2026, a empresa inaugurou em Pinheiros um prédio projetado para cerca de 300 funcionários, conforme o Ovício; a Señal News o descreveu como o único da América Latina ocupado só pela Netflix, com gente de todas as áreas do negócio. A nota oficial do dia diz que a equipe brasileira cresceu 20% em 2025, e Greg Peters, que foi à cerimônia, disse: “Temos muito orgulho de caminhar lado a lado com os criadores do Brasil”.

Na terça-feira (13), véspera do memorando, a empresa anunciou que a partir de 2027 passará a cuidar diretamente do licenciamento de produtos no Brasil e que o time local vai crescer, segundo o Meio & Mensagem e a Tela Viva. À Forbes Brasil, Paola Ogaz, diretora de licenciamento de produtos da Netflix para a América Latina, falou em “uma equipe local maior e dedicada a tomar decisões mais rápidas”.

O memorando que Peters e Ted Sarandos assinaram na quarta-feira (14) tira cerca de 1.000 pessoas, a maior parte das áreas de produto, tecnologia, jurídico e recursos humanos, e avisa que “o processo vai variar um pouco de país para país”, segundo a íntegra publicada pelo TheWrap. Se o escritório tem gente de todas as áreas, como descreveu a Señal News, tem também jurídico e RH; a empresa não disse se alguém de lá sai. Na quarta, a Netflix recusou comentar além do memorando, segundo a Associated Press. Em maio de 2022, quando demitiu 150 pessoas, “a Netflix não informou se algum colaborador no Brasil foi desligado”, registrou a Mercado&Consumo, com informações do Estadão Conteúdo. A leva de junho daquele ano veio dividida por região, segundo o Postal.pt e a EFE, com 17 desligamentos na América Latina inteira e nenhum número para o Brasil.

Sindicatos e entidades do setor

Entre 23h20 e 23h45 de quinta (15), a página do Sindpd-SP tinha notícias do dia sobre o fim da escala 6x1 e sobre acordos de participação nos lucros em três empresas, e nenhuma sobre a Netflix. O sindicato representa os trabalhadores de processamento de dados de São Paulo, categoria provável de quem trabalha com produto e tecnologia no escritório de Pinheiros. O Sindcine publicou na quinta um aviso de curso de trabalho em altura, e o SATED-SP, em processo eleitoral, mantinha no alto os editais de assembleia. Nas páginas iniciais do Sindicato dos Radialistas de São Paulo, do Siaesp, o sindicato patronal do audiovisual, e das associações de produtoras BRAVI, Apro e Apaci, a palavra Netflix não aparecia. A busca por relatos de brasileiros demitidos também voltou vazia.

A lei no Senado e o balanço de 20 de outubro

A mensalidade mais cara também aumenta o que a Netflix pagará se a lei do streaming for aprovada. O PL 2.331/2022 estende a Condecine ao vídeo sob demanda como um percentual da receita bruta anual no Brasil, base que cresce com cada real a mais pago pelo assinante e que não leva em conta o número de funcionários. O texto que a Câmara aprovou em 5 de novembro de 2025 fixa de 0,5% a 4% e deixa a plataforma deduzir até 60% do que deve se aplicar o dinheiro na produção de conteúdo nacional, segundo a Agência Brasil.

Em 3 de agosto de 2026, o Conselho de Comunicação Social do Congresso recomendou ao Senado voltar às faixas da versão que a Casa aprovou em 2024, com a alíquota cheia de 3% para quem fatura a partir de R$ 96 milhões por ano, segundo a Agência Senado. A empresa não divulga receita por país. Com os 25 milhões de assinantes que um pacote comercial distribuído ao mercado publicitário lhe atribuía no Brasil no terceiro trimestre de 2024, segundo a Pipoca Moderna, um único mês de mensalidades no plano mais barato já renderia mais que esse piso anual.

O relator designado, segundo a Agência Senado, é o senador Eduardo Gomes (PL-TO). Ele se reelegeu em 4 de outubro, conforme o SBT News. Depois de receber as plataformas, a Netflix entre elas, Gomes sinalizou votação até 15 de dezembro de 2025, noticiou a Teletime; em janeiro, a previsão passou para março, segundo a Itatiaia, e nenhuma das duas datas se cumpriu. Na noite de quinta (15), a busca por declaração dele sobre o corte ou o reajuste não encontrou nenhuma.

A Netflix integra a Strima, que atribuiu a demora ao governo. Em 5 de maio de 2026, no evento Brasil Streaming, o diretor executivo da entidade, Luizio Rocha, disse que “não é o senador que está enrolando” e responsabilizou o Ministério da Cultura, segundo a Teletime.

O balanço do terceiro trimestre de 2026 está marcado para terça-feira, 20 de outubro, por volta das 13h01 no horário do Pacífico, 17h01 em Brasília, segundo o comunicado da Netflix de 14 de setembro. A partir das 17h45, os dois co-CEOs e o diretor financeiro, Spence Neumann, respondem em vídeo a perguntas enviadas por analistas de bancos e corretoras. A distribuição do corte por país pode estar entre elas.

A votação do PL 2.331/2022 no plenário segue sem dia marcado. Na ficha do projeto no site do Senado, conferida às 23h40 de quinta-feira (15), o último estado registrado ainda era o de 17 de novembro de 2025: “aguardando despacho”.

Quem aparece nesta matériaEduardo GomesGreg PetersTed Sarandos
StreamingPedro Amaral
Adicionar o FOYER como fonte preferida no Google

Quem marca passa a ver as nossas matérias em destaque nas Principais Notícias do Google.

Gostou desta leitura? A revista do FOYER sai toda quinta, às 7h, para assinantes. Aberta a todos só na sexta. De graça.

Leia também

Com nomes em comum

Mais lidas

na última semana
  1. Marisa Orth conduz o desejo aos 62 anos em curta que fica entre o fashion film e o erotismo
  2. Em cartaz há 25 anos no mundo, "Naked Boys Singing!" volta a São Paulo em novembro
  3. Netflix transforma caso de Lizzie Borden em romance lésbico na nova temporada de “Monstro”
  4. “Meu Filho é um Musical” estreia em maio no Rio e anuncia elenco que viverá Paulo Gustavo
  5. Ela lançou o primeiro disco aos 72 anos: documentário sobre Dona Onete estreia em 26 de novembro