Jonathan Groff interpreta Rosalind em Shakespeare e montagem só com homens ganha leitura queer
Astro de “Hamilton” e “Looking” estreia na Royal Shakespeare Company em “Como Gostais”; primeiras críticas destacam fluidez de gênero e homoerotismo da encenação
Jonathan Groff chegou a Shakespeare no papel de uma mulher que passa boa parte da peça fingindo ser um homem.
O ator americano interpreta Rosalind em “Como Gostais”, nova montagem da Royal Shakespeare Company formada exclusivamente por homens. Depois da noite para a imprensa, realizada nesta terça-feira, 6 de outubro, as primeiras críticas passaram a destacar justamente o que essa escolha acrescenta a uma comédia que já brincava com gênero e desejo há mais de quatro séculos.
Rosalind é expulsa da corte de Duke Frederick e foge para a Floresta de Arden ao lado da prima Celia. Para se proteger, assume uma identidade masculina e passa a se apresentar como Ganymede.
É nesse disfarce que reencontra Orlando, por quem havia se apaixonado antes do exílio.
Orlando não reconhece Rosalind. Ganymede então propõe ajudá-lo a superar a paixão e pede que ele pratique seu cortejo como se estivesse diante da própria mulher que ama.
Na montagem dirigida por Daniel Evans, a estrutura ganha uma camada adicional: Groff, um ator homem, interpreta Rosalind, que dentro da história passa a viver como Ganymede e é cortejada por Orlando, também interpretado por um homem.
A produção não tenta esconder esse jogo. Faz dele parte central da encenação.
O Guardian deu quatro estrelas ao espetáculo e destacou o homoerotismo que aparece nos encontros entre Ganymede e Orlando, especialmente quando a relação deixa de parecer apenas uma brincadeira de Rosalind. A crítica também elogiou a maneira como Groff atravessa as mudanças de identidade sem transformar o papel numa caricatura.
O Financial Times, também com quatro estrelas, ressaltou como o elenco exclusivamente masculino amplia as questões de identidade, pertencimento e liberdade presentes no texto.
Já o Times avaliou a montagem com três estrelas e a descreveu como uma releitura queer e deliberadamente brincalhona de Shakespeare.
Um elenco inteiro de homens
A escolha conversa diretamente com a história da peça.
No teatro inglês da época de Shakespeare, mulheres não podiam atuar profissionalmente e os papéis femininos eram interpretados por homens ou garotos. Rosalind, portanto, nasceu no palco já carregando um jogo entre o gênero do ator e o da personagem.
Daniel Evans recupera essa tradição sem tentar reconstruir literalmente uma apresentação elisabetana. A encenação usa o elenco masculino para colocar em primeiro plano questões que hoje são lidas de outra maneira.
Fisayo Akinade interpreta Celia, Elliot Barnes-Worrell vive Orlando e Richard McCabe assume Jaques. Gary Wilmot faz os dois duques da história, Frederick e Senior, enquanto Greg Haiste interpreta Touchstone.
A relação entre Rosalind e Orlando concentra boa parte da ambiguidade da montagem.
Para Orlando, Groff está interpretando Ganymede. Para Rosalind, o disfarce permite testar o homem por quem está apaixonada. Para o público, dois atores homens atravessam uma sequência de identidades masculinas e femininas enquanto o desejo continua circulando entre eles.
É justamente essa instabilidade que a produção parece interessada em manter.
Da rigidez da corte para a liberdade de Arden
A mudança também aparece no cenário.
A corte de Duke Frederick é apresentada como um espaço rígido e escuro. Quando os personagens chegam à Floresta de Arden, o palco se abre para uma paisagem verde inspirada no interior do País de Gales.
A música reforça essa transformação. Theo Jamieson criou arranjos com referências à tradição coral e folk galesa, enquanto a encenação mistura Shakespeare a elementos deliberadamente contemporâneos.
Há uma luta apresentada como espetáculo de wrestling e até música pop incluída na montagem.
A noite para a imprensa também teve um imprevisto pouco comum.
Uma falha técnica durante a transformação do cenário interrompeu a apresentação por mais de uma hora. Depois que o problema foi resolvido, o espetáculo continuou e terminou normalmente.
Apesar da pausa, a recepção dos principais críticos britânicos foi majoritariamente positiva.
Para Groff, “Como Gostais” marca sua estreia na Royal Shakespeare Company.
O ator venceu o Tony por “Merrily We Roll Along” e construiu uma carreira que passa por “Spring Awakening”, “Hamilton”, “Looking”, “Mindhunter”, “Matrix Resurrections” e a franquia “Frozen”.
Agora, assume uma das personagens de Shakespeare que mais dependem justamente da possibilidade de mudar de identidade diante do público.
“Como Gostais” fica em cartaz no Royal Shakespeare Theatre, em Stratford-upon-Avon, até 7 de novembro.


