Theatro São Pedro, de Porto Alegre: a história da casa que já passou onze anos fechada
O Theatro São Pedro está fechado desde março de 2025. Desta vez, por obra. O governo do Rio Grande do Sul banca um restauro de mais de R$ 20 milhões no prédio da Praça Marechal Deodoro, e a reabertura está prevista para novembro de 2026.
A ressalva do "desta vez" tem motivo. Entre 1973 e 1984, o prédio passou onze anos interditado. A própria instituição atribui o fechamento às precárias condições de segurança e ao mau estado de conservação. Voltou por uma campanha de restauro que virou fundação pública, responsável pela casa até hoje.
O São Pedro é o teatro mais antigo de Porto Alegre, como registra o memorial da própria fundação. A sala histórica tem 616 lugares, segundo a tabela de valores que a casa publicou para 2026. Inaugurado em 27 de junho de 1858, o prédio custou à cidade um quarto de século de obra.
Vinte e cinco anos entre a doação do terreno e a primeira récita
Em 1833, o presidente da província, Manoel Antônio Galvão, doou um terreno no centro da capital para construir um teatro. O projeto neoclássico é do arquiteto alemão Filipe Normann. A obra parou em 1835, ainda nos alicerces, com a Revolução Farroupilha.
O canteiro só recomeçou em 1850, com novo projeto do mesmo arquiteto, segundo a ficha de tombamento do patrimônio estadual. Foi preciso recolher dinheiro outra vez e reorganizar a sociedade de acionistas. A inauguração de 1858 aconteceu sob a presidência de Ângelo Moniz da Silveira Ferraz, o Barão de Uruguaiana. Em 1862, o teatro passou a patrimônio público em caráter permanente.
A grafia com th da fachada é a da inauguração e continua lá, hábito que outras casas brasileiras mantêm. O São Pedro é um dos teatros do século 19 ainda em atividade no país, ao lado do Theatro da Paz, de 1878, em Belém, e do Teatro Amazonas, de 1896, em Manaus.
Cento e quinze anos de portas abertas e a interdição de 1973
Por mais de um século o teatro concentrou a vida artística de Porto Alegre. O memorial lista, entre quem passou pelo palco, o maestro Heitor Villa-Lobos, a recitadora Berta Singerman, o poeta Olavo Bilac e o dramaturgo Eugène Ionesco. O interior foi alterado por reformas ao longo do século 20. A manutenção da estrutura ficou para depois.
A conta chegou em 1973. Depois de 115 anos de funcionamento, o São Pedro foi fechado.
A mulher que assumiu as obras e ficou no cargo até morrer
Em 1975, Eva Sopher assumiu a coordenação da recuperação do prédio. Em 18 de março de 1982 o Estado transformou o teatro em fundação, o que permitiu arrecadar dinheiro de empresas privadas para terminar a obra. Dona Eva, como era conhecida, foi nomeada presidente pelo governador.
O teatro reabriu em junho de 1984. No mesmo ano veio o tombamento estadual. O prédio entrou no Livro Tombo Histórico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado em 1º de agosto de 1984, pela portaria 10/84, publicada no diário oficial em 16 de agosto. A fundação registra ainda proteção municipal e federal.
Eva Sopher morreu em 7 de fevereiro de 2018, aos 94 anos. Presidia a fundação desde a criação, 36 anos antes.
Do prédio único ao complexo Multipalco
A fundação que ela presidiu não parou no prédio de 1858. Nos terrenos vizinhos cresceu o Multipalco Eva Sopher, que a instituição descreve como um complexo de mais de 25 mil metros quadrados, com salas de dança, circo, música e oficinas. O Memorial abriu no subsolo em 2008, ano dos 150 anos do teatro, com a exposição dividida em quatro atos. A Praça Multipalco veio em 2009 e a Sala da Música em 2014.
O caminho não é exclusivo do São Pedro. Em 1996, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro começou a erguer o próprio anexo, com salas de ensaio para orquestra, coro e balé. No caso gaúcho, o anexo virou casa de espetáculo por conta própria. Com 120 lugares e três configurações de plateia, o Teatro Oficina Olga Reverbel entrou em operação em 2023. O Teatro Simões Lopes Neto abriu em março de 2025, no mesmo mês em que o prédio histórico fechou para a reforma.
O que a obra em curso vai mudar
A reforma é menos glamourosa do que a fachada sugere. Uma frente é o Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio: alarmes, detecção de fumaça, iluminação de emergência, portas corta-fogo, hidrantes, extintores, materiais antichama e proteção ignifugante nas estruturas de madeira. Outra é a acessibilidade, com rampas, elevador, assentos reservados, banheiros adaptados e sinalização tátil.
O restauro cuida dos forros, das instalações elétricas, dos assoalhos, das esquadrias e das cadeiras Thonet da plateia. São seis frentes simultâneas, com conclusão prevista para o fim de outubro de 2026.
"O Theatro São Pedro faz parte da identidade cultural do Rio Grande do Sul. É um espaço que atravessa gerações, preserva a nossa memória e projeta a produção artística gaúcha para o Brasil e para o mundo", disse o governador Eduardo Leite ao visitar o canteiro em 27 de maio de 2026, segundo a Rádio Pampa.
Com o prédio fechado, a fundação manteve o público por perto. A exposição Theatro São Pedro para Sempre ficou no foyer do Multipalco até 2 de agosto de 2026, com entrada franca. O teatro passou a publicar um diário de obra nas redes sociais.
Em 1973 as portas se fecharam sem data para reabrir, e a cidade esperou onze anos. Agora existe um cronograma. Cumpri-lo é a parte que ainda falta.



