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A história do Teatro Amazonas, a ópera que a borracha ergueu no meio da floresta

A história do Teatro Amazonas, a ópera que a borracha ergueu no meio da floresta
Foto: Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Um teatro de ópera com cúpula revestida por 36 mil peças de cerâmica europeia, erguido no coração da floresta, a mais de mil quilômetros do litoral. O Teatro Amazonas, inaugurado em 31 de dezembro de 1896 no Largo de São Sebastião, em Manaus, é o monumento mais reconhecível do Norte do Brasil. Sua trajetória reúne a fortuna repentina do ciclo da borracha, uma lenda teimosa envolvendo o tenor Enrico Caruso e um renascimento pela ópera iniciado cem anos depois da estreia.

Por que Manaus construiu um teatro de ópera no meio da floresta?

Até a década de 1870, Manaus era uma capital provincial pobre e isolada, de ruas forradas de capim. O quadro mudou quando as indústrias da Europa e dos Estados Unidos passaram a disputar o látex das seringueiras: os chamados barões da borracha acumularam fortunas que financiaram uma transformação urbana sem paralelo no país.

A ideia de um grande teatro, porém, é anterior ao auge da riqueza. O projeto foi apresentado à Assembleia Provincial pelo deputado Antônio José Fernandes Júnior em 21 de maio de 1881, e a concepção arquitetônica coube a um gabinete de engenharia e arquitetura de Lisboa. A pedra fundamental foi lançada em 1884, mas a obra andou devagar, travada por falta de verbas, e chegou a ficar paralisada por anos.

O canteiro só ganhou ritmo na década de 1890, quando o governador Eduardo Gonçalves Ribeiro fez do teatro a peça central de seu plano de embelezamento de Manaus, que abriu avenidas, bondes e luz elétrica e rendeu à cidade o apelido de Paris dos Trópicos. Ao deixar o governo, em 1896, Ribeiro resumiu a ambição do período:

"Encontrei uma pequena aldeia e transformei-a em uma cidade moderna", teria afirmado o governador, segundo reportagem da CartaCapital assinada pelo historiador Otoni Moreira de Mesquita, professor da Universidade Federal do Amazonas.

Aço da Escócia, mármore de Carrara e 36 mil escamas na cúpula

Quase tudo no Teatro Amazonas atravessou o oceano. Segundo a Secretaria de Cultura do Amazonas, as paredes levaram aço de Glasgow, na Escócia; os 198 lustres e o mármore das escadas, colunas e estátuas vieram de Carrara, na Itália; e a decoração interior seguiu o estilo Luís XV francês. A cúpula é formada por 36 mil escamas de cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas fabricadas na Alsácia, dispostas nas cores da bandeira brasileira.

Na sala de espetáculos, de 684 lugares, o teto côncavo exibe quatro telas pintadas em Paris pela Casa Carpezot: alegorias da música, da dança e da tragédia, além de uma homenagem ao compositor Carlos Gomes, tudo sob uma representação da Torre Eiffel vista de baixo. O pano de boca, pintado em 1894 pelo pernambucano Crispim do Amaral, retrata o encontro das águas dos rios Negro e Solimões.

O cômodo mais luxuoso é o Salão Nobre, decorado pelo italiano Domenico de Angelis, autor da pintura de teto A Glorificação das Belas Artes na Amazônia, de 1899. O piso do salão é um mosaico de 12 mil peças de nogueira, carvalho, bordo e mogno encaixadas.

Caruso cantou na inauguração? A lenda e os fatos

O teatro foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896 ainda com reparos por concluir, em cerimônia que contou com uma companhia lírica italiana. A primeira temporada de ópera abriu dias depois, em 7 de janeiro de 1897, com La Gioconda, de Amilcare Ponchielli.

Dessa estreia nasceu a lenda mais repetida sobre a casa: a de que o tenor Enrico Caruso teria cantado na inauguração. Não há registro oficial da passagem de Caruso por Manaus, como explicou o historiador do Teatro Amazonas Tiago Barreto ao jornal argentino Página/12: quem recebeu o cantor, e mantém placa que o comprova, foi o Theatro da Paz, em Belém. O mito ganhou força com o filme Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog, sobre um aventureiro obcecado por levar a ópera à Amazônia. O Salão Nobre aparece nas cenas com Klaus Kinski, Grande Otelo e José Lewgoy, mas boa parte dos interiores do longa foi rodada justamente no Theatro da Paz.

Da decadência da borracha ao Festival Amazonas de Ópera

A prosperidade durou pouco. A partir de 1912, os seringais plantados na Ásia derrubaram o preço do látex e a economia de Manaus ruiu; o teatro passou décadas entre longos silêncios e usos esporádicos. O prédio foi tombado pelo Iphan como Patrimônio Histórico Nacional em 1966 e atravessou reformas, caso das intervenções de 1929 e 1974. A fachada já exibiu outras cores: nos anos 1970 chegou a ser pintada de azul e branco, escolha que dividiu a cidade, e a restauração de 1989 devolveu o tom rosado que se tornou sua marca.

A virada veio em 1997, com a criação do Festival Amazonas de Ópera e da Orquestra Amazonas Filarmônica, que deram à casa uma vocação artística permanente. Desde então, o palco recebeu nomes como o tenor José Carreras, Roger Waters e a banda The White Stripes, além de brasileiros como Bibi Ferreira e Ana Botafogo. O museu do teatro guarda as sapatilhas de Margot Fonteyn, que dançou ali com o Royal Ballet em 1975, e de Mikhail Baryshnikov, que se apresentou em 2010. Hoje o Teatro Amazonas divide com casas como o Theatro Municipal de São Paulo e o Theatro São Pedro o posto de endereço essencial da ópera no Brasil, e, a exemplo da cúpula do Theatro Municipal paulistano, abre espaços históricos a projetos contemporâneos, dos festivais de dança e teatro a shows populares.

Como visitar o Teatro Amazonas

A visita guiada funciona de terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos e feriados, das 9h às 13h. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); amazonenses, pessoas com deficiência e crianças de até 10 anos não pagam. O teatro fica na Avenida Eduardo Ribeiro, 659, no Centro de Manaus.

Perguntas rápidas

Quando o Teatro Amazonas foi inaugurado? Em 31 de dezembro de 1896, no auge do ciclo da borracha. A primeira temporada lírica começou em 7 de janeiro de 1897, com a ópera La Gioconda, de Amilcare Ponchielli.

Enrico Caruso cantou no Teatro Amazonas? Não há registro oficial disso; segundo o historiador Tiago Barreto, a história é uma lenda. Quem de fato recebeu Caruso foi o Theatro da Paz, em Belém, que mantém placa comemorativa.

Quantos lugares tem o Teatro Amazonas? São 684 lugares, segundo a Secretaria de Cultura do Amazonas, entre plateia, frisas e três pavimentos de camarotes.

O Teatro Amazonas pode ser visitado? Sim. As visitas guiadas ocorrem de terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos e feriados, das 9h às 13h. A inteira custa R$ 20, com gratuidade para amazonenses.

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