A história do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o palco inspirado na Ópera de Paris
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro completou 117 anos em 14 de julho de 2026 com um dia inteiro de programação gratuita e um presente de peso: a volta de Salvator Rosa, ópera de Carlos Gomes, ao seu palco depois de cerca de oito décadas, em produção montada em parceria com o Teatro Amazonas. A data diz muito sobre a casa da Cinelândia, apresentada pela Secretaria estadual de Cultura como a principal sala de espetáculos do país e, segundo a Riotur, única instituição cultural brasileira a manter em atividade permanente coro, orquestra sinfônica e companhia de balé.
Antes de virar cartão-postal, porém, o Municipal foi uma briga comprida: uma campanha de imprensa que levou 15 anos para sair do papel, um concurso de arquitetura terminado em escândalo e uma obra que fincou mais de mil estacas de madeira no centro do Rio.
Como uma campanha de jornal fez nascer o Municipal?
A ideia de um grande teatro nacional circulava desde meados do século 19, quando o ator e empresário João Caetano defendia a criação de uma companhia estatal. Quem transformou o desejo em causa pública foi o dramaturgo Arthur Azevedo: a partir de 1894, ele fez das páginas dos jornais uma tribuna pela construção de uma casa digna da capital da República, sede de uma companhia brasileira nos moldes da Comédie-Française. A cidade tinha então dois teatros, o São Pedro e o Lírico, criticados por público e companhias.
A campanha rendeu uma lei municipal em 1895, que chegou a criar uma taxa para financiar a obra. O dinheiro arrecadado nunca foi usado para esse fim. Azevedo morreu nove meses antes da inauguração, sem ver o teatro pronto.
Por que o concurso do projeto terminou em polêmica?
O projeto só andou quando o prefeito Pereira Passos iniciou, a partir de 1902, a reforma que abriu a Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) à imagem dos bulevares parisienses. Em 15 de outubro de 1903, a prefeitura abriu concorrência pública para o novo teatro. Sete propostas chegaram até março de 1904, e duas empataram em primeiro lugar: o projeto Aquilla, de autor supostamente secreto, e o projeto Isadora, do francês Albert Guilbert, vice-presidente da associação dos arquitetos da França.
O segredo durou pouco. O autor de Aquilla era o engenheiro Francisco de Oliveira Passos, filho do prefeito, e o resultado provocou forte debate na Câmara Municipal e nos jornais, entre suspeitas de favorecimento e de que o desenho teria saído da própria seção de arquitetura da prefeitura. A saída foi política: como os dois projetos seguiam a mesma matriz, a Ópera de Paris de Charles Garnier, eles foram fundidos num só.
Como foram a obra e a noite de inauguração?
A construção começou em 2 de janeiro de 1905, com a cravação da primeira das 1.180 estacas de madeira de lei sobre as quais o edifício está assentado; a pedra fundamental veio em 20 de maio. No canteiro, 280 operários se revezaram em dois turnos. Para decorar a casa foram chamados os principais artistas do país: Eliseu Visconti pintou o pano de boca A Influência das Artes sobre a Civilização, apontado como a maior tela já pintada no Brasil até então, além do teto da plateia e das pinturas do foyer; Rodolfo Amoedo e os irmãos Bernardelli assinaram painéis e esculturas, e artesãos europeus executaram vitrais e mosaicos. No topo, uma águia de 350 quilos abre as asas sobre a Cinelândia; no subsolo, o restaurante Assirius adotou uma insólita decoração assíria.
Em 14 de julho de 1909, quatro anos e meio depois do início das obras, o presidente Nilo Peçanha e o prefeito Souza Aguiar inauguraram o teatro, então com 1.739 lugares. O discurso de abertura coube ao poeta Olavo Bilac, e a noite teve a encenação de Bonança, de Coelho Neto, pela Companhia Dramática criada por Arthur Azevedo.
Quem já passou pelo palco do Municipal?
Nas primeiras décadas, o palco pertenceu às companhias estrangeiras de ópera e dança, sobretudo italianas e francesas. A lista de nomes que se apresentaram na casa reúne Sarah Bernhardt, Arturo Toscanini, Igor Stravinsky, Maria Callas, Renata Tebaldi, a soprano brasileira Bidu Sayão, Heitor Villa-Lobos e a atriz Ruth de Souza. A dependência do repertório importado começou a cair nos anos 1930, quando o teatro criou seus corpos artísticos próprios: a Orquestra Sinfônica, o Coro e o Ballet do Theatro Municipal, aos quais se liga a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Em março de 2011, até o presidente americano Barack Obama discursou de seu palco.
O que as quatro grandes reformas mudaram?
A primeira intervenção, em 1934, respondeu ao crescimento da cidade: a sala subiu para 2.205 lugares numa obra concluída em três meses. Em outubro de 1975 o teatro fechou para restauração e modernização, reabrindo em março de 1978; desse período data também a criação da Central Técnica de Produção. Em 1996 começou a construção do edifício Anexo, que deu salas de ensaio a orquestra, coro e balé.
A reforma mais profunda veio entre 2008 e 2010, para o centenário: mais de 900 dias de obras e um investimento de R$ 70 milhões devolveram ao prédio o aspecto original, com folhas de ouro de 23 quilates nos ornamentos e um novo revestimento dourado na águia do telhado. As obras ainda revelaram surpresas: o friso original pintado por Visconti em 1907, escondido num vão sobre a boca de cena, e uma passagem secreta. A reinauguração, em 27 de maio de 2010, contou com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, segundo a Secretaria estadual de Cultura, a sala tem 2.252 lugares, e o teatro segue na Praça Floriano, na Cinelândia, com temporadas de ópera, dança e concertos de seus corpos estáveis.
Perguntas rápidas
Quando o Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado? Em 14 de julho de 1909, pelo presidente Nilo Peçanha e pelo prefeito Souza Aguiar, com discurso de Olavo Bilac e a peça Bonança, de Coelho Neto, em cena.
Quem projetou o Theatro Municipal do Rio? O prédio nasceu da fusão de dois projetos empatados em concurso: o do engenheiro Francisco de Oliveira Passos, filho do prefeito Pereira Passos, e o do arquiteto francês Albert Guilbert. Ambos se inspiravam na Ópera de Paris.
Por que se escreve Theatro com th? É a grafia da época da inauguração, gravada na fachada do prédio, que a instituição mantém até hoje.
Quantos lugares tem o Theatro Municipal do Rio? A sala tem atualmente 2.252 lugares, segundo a Secretaria estadual de Cultura. Na inauguração eram 1.739, ampliados para 2.205 na reforma de 1934.


