Raul Barretto estreia “Despalhaço” no Sesc Vila Mariana
Em seu primeiro solo adulto, artista revisita mais de quatro décadas de teatro e palhaçaria para pensar tempo, envelhecimento e permanência em cena
Raul Barretto parte da própria trajetória para falar sobre tempo, envelhecimento e permanência em cena em “Despalhaço”, espetáculo que estreia no dia 27 de agosto, no Auditório do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. A temporada segue até 5 de setembro, com apresentações de quinta a sábado, às 20h30.
Com mais de quatro décadas dedicadas ao teatro e à palhaçaria, Barretto assina o texto, a atuação, a criação e a direção da montagem. O solo também marca dois pontos importantes em sua carreira: é o primeiro texto de sua autoria e seu primeiro espetáculo solo adulto.
A peça reúne teatro, circo, improvisação, malabares e recursos audiovisuais para construir um acerto de contas com o tempo. Próximo dos 70 anos e com 44 anos de carreira, Barretto revisita experiências pessoais, transformações coletivas e perguntas que atravessam não apenas a vida de um artista, mas a vida em sociedade.
O título pode sugerir despedida, mas o caminho é outro. “Despalhaço” não representa um abandono da palhaçaria. Ao contrário: o espetáculo investiga o que permanece do palhaço quando o tempo passa, o corpo muda e o mundo acelera. A pergunta não é como deixar de ser palhaço, mas como continuar sendo palhaço depois de tanta vida acumulada.
“O palhaço é uma criança eterna. Manter esse olhar, ao mesmo tempo inocente e crítico, é algo que o ser humano não deveria perder. A permanência no palco também nasce dessa busca pelo diálogo e pelo olho no olho”, afirma Barretto.
A dramaturgia se organiza em três planos temporais. O passado recupera momentos da carreira do ator e sua relação com o teatro, o circo e a palhaçaria. O presente abre espaço para temas como desenvolvimento, sustentabilidade, inteligência artificial e a função social do artista. O futuro aparece como território de dúvida, possibilidade e preocupação, especialmente diante das relações entre humanidade, tecnologia e planeta.
“O mais urgente é reafirmar a importância de vivermos em comunidade e em harmonia, conseguindo divergir sem transformar o outro em inimigo. O palhaço mostra o ridículo que vivemos e pode nos levar a alguma consciência”, diz o artista.
Essa relação entre comicidade e pensamento atravessa a trajetória de Barretto. Integrante do Grupo Parlapatões, ao lado de Hugo Possolo, ele faz parte de uma linhagem que ajudou a aproximar teatro de rua, circo, humor físico, crítica social e dramaturgia autoral. “Despalhaço” também integra as comemorações dos 35 anos dos Parlapatões, grupo fundamental para a palhaçaria e a cena paulistana.
A montagem chega ainda em um momento de celebração de outros espaços ligados à formação e difusão teatral em São Paulo. Raul Barretto é sócio cofundador do Espaço Parlapatões, que completa 20 anos, e um dos idealizadores da SP Escola de Teatro, onde coordena a Linha de Estudo em Humor há 16 anos.
Em cena, o ator combina texto e improvisação com técnicas circenses como malabares, monociclo, chicote e facas. O cenário de Diego Dac tem como elemento central um tecido que assume diferentes funções e sentidos ao longo da apresentação. As projeções acompanham toda a encenação, integrando imagens, vídeos e depoimentos à passagem do artista pelo tempo.
A pesquisa do espetáculo reúne referências de diferentes áreas do conhecimento. Entre elas estão o filósofo Diógenes, os cientistas Marcelo Gleiser e Carl Sagan, estudos sobre a formação das sociedades humanas, povos indígenas, consciência e inteligência. A criação também dialoga com o trabalho do artista Jaider Esbell, da arqueóloga Niède Guidon e dos pesquisadores Eduardo Neves e Miguel Nicolelis.
Mais do que transformar a carreira em retrospectiva, “Despalhaço” parece interessado em olhar para o presente a partir de alguém que viveu muitas mudanças no palco e fora dele. O tempo, aqui, não é apenas memória. É matéria cênica, pergunta política e desafio físico.
Depois de “O Bricabraque”, seu solo infantil de 15 anos atrás, Barretto retorna sozinho ao palco em uma criação voltada ao público adulto. A diferença não está apenas na idade do espectador, mas no tipo de pergunta que o espetáculo propõe: o que resta de um artista depois de décadas de insistência? E o que ainda pode começar quando a cena continua sendo lugar de encontro?
Em uma sociedade que tenta esconder a velhice, acelerar o pensamento e substituir a presença por mediações cada vez mais rápidas, “Despalhaço” aposta no contrário. Coloca um artista diante do público para sustentar o tempo real do teatro. Um corpo ali, ao vivo, ainda tentando rir, pensar, errar, lembrar e permanecer.
Serviço
Despalhaço
Texto, atuação e criação: Raul Barretto
Preparação de ator e direção de cena: Antônio Januzelli
Assistência de direção: Helena Cerello
Direção de produção: Jessica Rodrigues e Carolina Henriques
Realização: Sesc
Produção geral: Companhia Vadabordo e Rodri Produções
Estreia: 27 de agosto de 2026
Temporada: de 27 de agosto a 5 de setembro de 2026
Sessões: quinta a sábado, às 20h30
Local: Sesc Vila Mariana — Auditório, Torre A, 1º andar
Endereço: Rua Pelotas, 141 — Vila Mariana, São Paulo — SP
Ingressos: R$ 50 inteira | R$ 25 meia-entrada | R$ 15 credencial plena
Vendas: online pelo site do Sesc SP, a partir de 18 de agosto, às 17h
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Capacidade: 130 lugares
Ficha técnica
Texto, atuação e criação: Raul Barretto
Preparação de ator e direção de cena: Antônio Januzelli
Assistência de direção: Helena Cerello
Direção de produção: Jessica Rodrigues e Carolina Henriques
Cenário e adereços: Diego Dac, Luana Miyamoto e Xapiri Ateliê Artístico
Figurino: Claudia Schapira
Projeto de som e trilha sonora: Deivison Nunes e Raul Barretto
Iluminação e técnica de luz: Reynaldo Thomaz
Projeto multimídia e audiovisual: Deivison Nunes e Raul Barretto
Colaboração no projeto multimídia e audiovisual: Marcelo Machado
Técnica de audiovisual: Deivison Nunes
Provocação artística: Suzana Aragão
Arte gráfica: Werner Schulz
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli
Realização: Sesc
Produção geral: Companhia Vadabordo e Rodri Produções



