Por que tantos teatros brasileiros se escrevem "Theatro", com TH?
Na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, as letras douradas presas à fachada dizem THEATRO MUNICIPAL. Na Praça Ramos de Azevedo, em São Paulo, a casa se apresenta pelo mesmo nome. Em Belém é o Theatro da Paz. O "h" depois do "t" saiu do português brasileiro há mais de oitenta anos e continua ali, gravado na pedra e nos sites oficiais dessas casas.
Não é enfeite nem descuido. Existe uma regra escrita que autoriza isso, no documento que organizou a ortografia brasileira.
Como se escrevia "teatro" antes das reformas?
Até o início do século 20, o português conservava na escrita a marca grega e latina das palavras que importava. Vocábulos vindos do grego mantinham os dígrafos do alfabeto de origem, e "teatro", que vem de théatron, aparecia com o th do theta. Pela mesma lógica, farmácia e fósforo circulavam com ph, química e querubim traziam ch, e retórica vinha com rh.
O tamanho da limpeza aparece no próprio documento. Ao tratar das consoantes mudas, o Formulário Ortográfico de 1943 lista lado a lado o que passava a valer e o que ficava para trás: asma e não astma, assinatura e não assignatura, ciência e não sciência, diretor e não director, ginásio e não gymnasio, ofício e não officio, ótimo e não optimo, salmo e não psalmo.
Que reforma tirou o "h" de "theatro"?
A primeira reforma ortográfica da língua portuguesa é de 1911 e foi feita só em Portugal, sem acordo com o Brasil, o que deixou a grafia diferente nos dois países. O registro é do Senado Federal. Foi essa reforma, relatada pelo filólogo Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, que serviu de base ao primeiro entendimento bilateral, segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.
O acordo entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa saiu em 1931 e, segundo o Senado, entrou em vigor em 1940 em Portugal e em 1943 no Brasil. Do lado brasileiro, ele foi aprovado pelos decretos 20.108, de 15 de junho de 1931, e 23.028, de 2 de agosto de 1933, conforme o repositório de legislação da Presidência da República.
O que organizou a grafia brasileira moderna foi o Formulário Ortográfico de 1943, o conjunto de instruções que a Academia Brasileira de Letras escreveu para montar o vocabulário oficial. O item 15 é direto: não se escreve h depois de c, p, r e t, ressalvados o ch, o lh e o nh, e o ph passa a f. A lista de exemplos do próprio documento termina em "teatro, turíbulo".
Então por que as fachadas puderam continuar como estavam?
Porque o mesmo Formulário abre uma exceção explícita. O item 39 estabelece que nomes próprios de qualquer natureza, portugueses ou aportuguesados, ficam sujeitos às mesmas regras dos nomes comuns. O item 40 é a ressalva:
"Para salvaguardar direitos individuais, quem o quiser manterá em sua assinatura a forma consuetudinária. Poderá também ser mantida a grafia original de quaisquer firmas, sociedades, títulos e marcas que se achem inscritos em registro público", diz o texto da Academia Brasileira de Letras.
Uma casa de espetáculos com nome registrado se encaixa nessa segunda frase, e o princípio atravessou as reformas seguintes. A Base XXI do Acordo Ortográfico de 1990, reproduzida pelo Manual de Comunicação do Senado, repete a ideia com outras palavras:
"Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registro legal, adote na assinatura do seu nome. Com o mesmo fim, pode manter-se a grafia original de quaisquer firmas comerciais, nomes de sociedade, marcas e títulos que estejam inscritos em registro público", diz o acordo.
O Formulário usa a mesma lógica para topônimos de tradição secular, e dá um exemplo conhecido: Bahia continua com h no nome do estado e da cidade.
Quem ficou com o TH e quem não ficou
A escolha não seguiu a idade das casas. O Theatro da Paz, o mais antigo entre os citados aqui, foi fundado em 15 de fevereiro de 1878, no auge do ciclo da borracha, e mantém a grafia antiga no nome e no endereço do próprio site. Mais velho que os dois municipais do Sudeste, o Teatro Amazonas foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896 e tombado como patrimônio histórico nacional em 1966. Hoje se escreve com a grafia moderna, segundo o portal de cultura do governo do Amazonas.
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado em 1909 pelo presidente Nilo Peçanha e pelo prefeito Souza Aguiar, e o "Theatro" não está só na fachada: é o nome atribuído no processo do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, cujo tombamento definitivo saiu em 4 de janeiro de 1972. O Theatro Municipal de São Paulo abriu em 12 de setembro de 1911, com a ópera Hamlet, e leva o th até no endereço eletrônico.
Em Fortaleza, os próprios papéis oficiais discordam sobre o nome da casa. Construído entre 1908 e 1910, obra do engenheiro militar Bernardo José de Melo, o prédio está cadastrado no Mapa Cultural do Ceará, plataforma da Secretaria da Cultura do Estado, como Theatro José de Alencar. Já o registro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, inscrito no Livro do Tombo das Belas Artes em 10 de agosto de 1964, traz o nome grafado Teatro José de Alencar. As duas formas convivem em papel oficial, e nenhuma fonte explica a diferença.
Outras casas mantiveram a forma antiga, entre elas o Theatro São Pedro, em São Paulo, que assim se grafa no próprio site. Todas essas casas nasceram antes de 1943, e o item 40 passou a autorizar que o nome registrado ficasse como estava.
Perguntas rápidas
Escrever "Theatro" está errado? Não, quando se trata do nome próprio de uma casa registrada. Para a palavra comum, a grafia correta em português é "teatro" desde o Formulário Ortográfico de 1943.
Quando o "th" saiu do português? A reforma de 1911 foi feita só em Portugal. No Brasil, a grafia sem th foi fixada pelo Formulário Ortográfico de 1943, da Academia Brasileira de Letras, depois do acordo de 1931 com a Academia das Ciências de Lisboa.
Qual regra permite manter a grafia antiga? O item 40 do Formulário de 1943 e a Base XXI do Acordo Ortográfico de 1990, que autorizam conservar a grafia original de firmas, sociedades, marcas e títulos inscritos em registro público.
Todo teatro histórico brasileiro usa "Theatro"? Não. O Teatro Amazonas, de 1896, é anterior aos municipais do Rio e de São Paulo e usa a grafia moderna.


