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Homem-Aranha entra em 2.500 das 3.554 salas do Brasil: o que essa conta diz sobre o cinema nacional

Homem-Aranha entra em 2.500 das 3.554 salas do Brasil: o que essa conta diz sobre o cinema nacional
Foto: Ajmcbarreto/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O fim de semana de 31 de julho a 2 de agosto bateu recorde de bilheteria nos Estados Unidos e no Canadá, empurrado por Homem-Aranha: Um Novo Dia: cerca de US$ 430 milhões somando tudo o que estava em cartaz, o maior da história daquele mercado. No Brasil, o mesmo filme tinha estreado antes, na quarta-feira, 29 de julho, entrando na programação de 770 cinemas e mais de 2.500 salas, segundo o Filme B. O FOYER já contou o recorde americano e a estreia brasileira. Falta a outra ponta: com um lançamento desse tamanho, o que resta para o filme nacional.

O parque tem 3.554 salas, e uma estreia entrou em mais de dois terços

O Brasil fechou 2025 com 3.554 salas de cinema em operação, recorde histórico registrado pela Ancine, com expansão do parque para 14 novos municípios. É o número oficial mais recente: não há contagem fechada de 2026. Dividir as mais de 2.500 salas do Homem-Aranha, número do Filme B, por essas 3.554 da Ancine é conta desta redação, e ela dá 70%: mais de dois terços das salas do país com o mesmo título na grade.

Só que a divisão engana. Ocupar uma sala não é trancá-la: a mesma sala exibe várias sessões por dia, e elas podem ser de filmes diferentes. O filme entrou na programação de 2.500 salas sem ficar com todas as sessões delas. Tanto que não pegou as salas IMAX, que seguiram dedicadas a A Odisseia, informou o Filme B. É por isso que a lei mede a obrigação em sessão, e não em sala.

A concentração também é geográfica. Pelos dados do Filme B, o Brasil terminou 2025 com cinema em 472 dos 5.571 municípios, ou 8,47% do país. Nove em cada dez cidades brasileiras não têm uma única sala.

O que a cota de tela obriga

A cota de tela é a obrigação legal de exibir filme brasileiro. Nasceu em 2001, foi retomada pela Lei nº 14.814/2024 e vale até 2033. O Decreto nº 12.323, de dezembro de 2025, fixou as regras de 2026: a exigência vai de 7,5% das sessões anuais, no exibidor de uma sala só, a 16%, em quem tem 201 salas ou mais. Há ainda um mínimo de títulos brasileiros distintos por ano, de quatro num cinema de sala única a 32 nos complexos com 16 salas ou mais.

Mesmo os maiores grupos exibidores do país cumprem a lei destinando 16 sessões em cada 100 ao cinema nacional. As outras 84 são livres. Quais filmes brasileiros entram é escolha dos cinemas, sem envolvimento direto do governo.

Em 2026 a Ancine foi atrás do horário em que a sessão brasileira cai na grade. Em 6 de maio, a agência publicou a Instrução Normativa nº 175. Sessão de filme brasileiro a partir das 17h passou a valer 0,10 a mais na aferição da cota, e soma outros 0,025 se estiver entre a segunda e a quinta semana em cartaz. Obra premiada em festival reconhecido, agora também nas categorias de ator, atriz, direção e roteiro, ganha 0,15 a mais no mesmo horário. Os acréscimos são cumulativos: uma sessão bem posicionada vale mais de uma na conta, e o percentual é atingido com menos sessões de verdade.

O motivo está escrito na própria norma. Em 2023, antes da vigência da cota, filmes brasileiros ficavam com 7,5% das sessões e 3,3% do público. Com a regra em vigor, 2024 e 2025 chegaram a 15,7% das sessões, com 10,1% e 9,9% de público. Em 2026, até a publicação da norma, em maio, a participação do cinema brasileiro no público estava em 6,5%. A sessão existia e o público não aparecia.

Um dia de bilheteria contra um ano inteiro de cinema nacional

A distância aparece melhor em renda. Em 2025, 367 filmes brasileiros levaram 11,12 milhões de espectadores às salas e somaram R$ 214,99 milhões de bilheteria, pelos números da Ancine.

O Homem-Aranha fez R$ 23,6 milhões no primeiro dia no Brasil, com mais de 1 milhão de ingressos vendidos. No ritmo do primeiro dia, que nenhum filme sustenta, bastariam nove ou dez dias para um filme sozinho passar o que a produção nacional inteira arrecadou em doze meses. A conta é da reportagem, com os dois números acima.

Nenhuma entidade do setor pediu que o Homem-Aranha saísse de cartaz. Quem opera as salas lê esses números de outro jeito. Tiago Mafra, diretor executivo da Abraplex, que reúne as redes de multiplex, disse ao Portal Exibidor que "o problema do cinema brasileiro não é apenas espaço de tela": mesmo com 15% a 16% das sessões, o público nacional segue "próximo de 6,5% em 2026, e extremamente concentrado em poucos títulos".

Pela conta dele, os dois maiores filmes brasileiros do ano responderam por cerca de 77% de todo o público do cinema nacional; sem eles, o restante da produção fica perto de 1,5% do mercado total. A cota, conclui Mafra, é importante e insuficiente sozinha. Por isso ela anda junto com dinheiro público na produção, na distribuição e na sala, como no Fundo Setorial do Audiovisual.

Quem fica fora da conta

Em julho, o filme brasileiro passou dois fins de semana seguidos fora do Top 10. Na mesma semana em que o Homem-Aranha entrou em 2.500 salas, as estreias nacionais couberam num parágrafo: A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, em 17 cinemas e 18 salas; o documentário Não Sei Viver Sem Palavras, de André Brandão, em seis cinemas; Margeado, de Diego Zon, em seis cidades. Havia ainda Lista de Desejos para Superagüi e Aquele que Viu o Abismo, no mesmo circuito de arte.

Dezoito salas contra mais de 2.500. Aqui a comparação é entre iguais: os dois números contam em quantas salas o filme entrou. A cota de tela existe para garantir que o filme brasileiro chegue à sala. E os 6,5% de 2026 sugerem que ela sozinha não dá conta.

Vale ficar de olho no balanço da Ancine quando o ano cinematográfico fechar. O diagnóstico da agência está escrito no comunicado da IN 175: sessão em horário de menor procura e por período curto demais cumpre a obrigação e não constrói audiência.

CinemaPedro Amaral

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