Cinemas vendem 2,14 milhões de ingressos no fim de semana e o filme brasileiro fica fora do Top 10 de novo
Os cinemas brasileiros venderam 2,14 milhões de ingressos entre a quinta-feira, 23 de julho, e o domingo, 26. É o segundo fim de semana seguido nesse patamar, e a semana fechou como uma das melhores de 2026 nas salas do país, pelo balanço do Filme B. Junto com o resultado veio o dado que ninguém do setor gosta de repetir: pelo segundo fim de semana consecutivo, nenhum filme brasileiro apareceu no Top 10.
A liderança ficou com A Odisseia, de Christopher Nolan, distribuído no Brasil pela Universal. Foram 892,7 mil ingressos no fim de semana e 2,3 milhões de espectadores desde a estreia, segundo o Portal Exibidor. Em dinheiro, R$ 23,9 milhões no período, pelos números da Rentrak publicados pelo Omelete. Na abertura, o filme tinha vendido 850,29 mil ingressos: cresceu no segundo fim de semana, em vez de cair.
Quatro filmes, nove em cada dez ingressos
Atrás de Nolan, Toy Story 5 levou 500,5 mil pessoas às salas e chegou a 7,2 milhões de espectadores acumulados. A animação da Pixar já é a segunda maior do ano no Brasil, atrás apenas de Michael, com 7,3 milhões de ingressos vendidos. Moana fez 282,4 mil espectadores no fim de semana e Minions & Monstros, 270,4 mil. Somados, os quatro primeiros colocados responderam por cerca de 91% de todo o público do período.
Em renda, o pelotão da frente ficou assim: Toy Story 5 arrecadou R$ 11,71 milhões, Moana R$ 6,46 milhões e Minions & Monstros R$ 5,90 milhões. Depois disso, o degrau é grande. O Convite vendeu 58,8 mil ingressos, ou R$ 1,80 milhão, e chegou a 269 mil espectadores no acumulado. A principal estreia da semana, Águas Mortais, da Diamond Films, fez 47,1 mil. E Backrooms: Um Não-Lugar continuou no Top 10 na nona semana em cartaz, com 19,4 mil ingressos no fim de semana e mais de 1,2 milhão desde a estreia.
O mês inteiro vem nesse ritmo. Entre 16 e 22 de julho, a 29ª semana cinematográfica do ano fechou com 3,9 milhões de ingressos e R$ 86 milhões, a terceira maior renda de 2026 e a quarta maior em público, segundo o Filme B. A média semanal do ano está em 2,5 milhões de ingressos e R$ 54,3 milhões, o que colocou aquela semana cerca de 57% acima do padrão. Em renda, só duas semanas do ano fizeram mais: a do feriado de 1º de maio, com 5,3 milhões de espectadores e R$ 121,2 milhões, e a da estreia de Todo Mundo em Pânico, no início de junho, com 4,1 milhões de ingressos e R$ 93,9 milhões.
No acumulado, 2026 soma 72,4 milhões de ingressos e R$ 1,57 bilhão de renda, também pelos dados do Filme B. São 8,6% a mais de faturamento que 2025 e 1,2% a mais de público.
O nome que não está na lista
Com o mercado nesse ritmo, a ausência do filme nacional pesa mais.
"Esse é mais um fim de semana em que não temos produções nacionais entre o Top 10", escreveu Yuri Cavichioli no Portal Exibidor, ao fechar o balanço brasileiro do período.
Não é acidente de uma semana. Dados da ANCINE mostram que, até 8 de abril, os filmes brasileiros somavam 7,1% da bilheteria do ano: 1,97 milhão de ingressos num total de 27,8 milhões nas primeiras 14 semanas. No mesmo intervalo de 2025, o cinema nacional tinha 26% do público, com 7,9 milhões de espectadores em 30,5 milhões. A diferença entre um ano e outro tem dois nomes. Ainda Estou Aqui e O Auto da Compadecida 2 carregaram 2025 nas costas.
Em 2026 o segmento nacional depende de um título só. O Agente Secreto respondia por 67% da bilheteria brasileira até abril, com cerca de 1,3 milhão de ingressos, e é o único filme do país entre as dez maiores arrecadações do ano até maio, com R$ 26,3 milhões, num levantamento da CNN Brasil a partir de números da agência.
A regra que mudou em maio
A ANCINE já tinha reagido. Em 6 de maio, a agência publicou a Instrução Normativa nº 175, que altera a Cota de Tela de 2026 com efeitos a partir de 1º de janeiro. A lógica mudou. Antes bastava contar sessões; agora a norma premia onde e quando cada sessão entra na grade.
Sessões de longas brasileiros programadas a partir das 17h passam a valer 0,10 a mais na aferição da cota. Se o filme seguir naquele horário entre a segunda e a quinta semana cinematográfica de exibição no complexo, ganha mais 0,025, em todos os dias da semana, incluindo sábados, domingos e feriados. Obras premiadas em festivais reconhecidos pela agência, nas categorias de melhor filme, ator, atriz, diretor e roteiro, valem 0,15 a mais quando exibidas a partir das 17h. E grupos exibidores com 30 a 79 salas ganham redução de 1 ponto percentual na obrigação, exclusivamente neste ano.
O diagnóstico está no próprio comunicado da agência. Em 2023, antes da nova Cota de Tela, filmes brasileiros ocupavam 7,5% das sessões e 3,3% do público. Em 2024 e 2025, a fatia de sessões subiu para 15,7% nos dois anos, mas o público ficou em 10,1% e 9,9%. Havia sessão, faltava horário.
"Em 2026, a participação do cinema brasileiro no público recuou para 6,5%, sinalizando que o cumprimento formal da obrigação de programação não tem sido suficiente para converter presença em cartaz em resultado efetivo de público e bilheteria", diz a ANCINE no texto que apresentou a norma.
O que a conta mostra
O mercado exibidor brasileiro está vendendo mais e faturando mais do que no ano passado. As salas estão cheias. A questão é quem ocupa a tela. Enquanto quatro títulos estrangeiros levam 91% de um fim de semana, o cinema nacional roda com 6,5% do público do ano, contra 10,1% em 2024 e 9,9% em 2025.
A cota nova só saiu em maio, com efeito retroativo. E a aferição passou a usar o chamado ano cinematográfico, que começa na primeira quinta-feira do ano civil e termina na quarta-feira anterior à primeira quinta-feira do ano seguinte. Se o desenho funcionar, o efeito aparece nos números do segundo semestre.
Se não funcionar, 2026 entra para a série histórica como o ano em que o brasileiro voltou às salas no melhor ritmo desde a pandemia e quase não viu filme brasileiro. As férias escolares estão no fim, e a fila de estreias nacionais vai ter de disputar tela com o que já está em cartaz. Vale ficar de olho no ranking das próximas semanas.


