Homem-Aranha faz a segunda maior estreia da história do Brasil e ocupa mais de 2.500 salas
Homem-Aranha: Um Novo Dia estreou nos cinemas brasileiros na quarta-feira, 29 de julho, vendeu mais de 1 milhão de ingressos e arrecadou R$ 23,6 milhões em um só dia, pelos dados do Filme B. É a maior estreia do ano no país e a segunda maior de toda a história do mercado brasileiro, atrás apenas de Vingadores: Ultimato, que em 2019 levou 1,5 milhão de espectadores na abertura, conforme publicaram o jornal O Tempo e a CNN Brasil. O filme da Sony entrou ocupando 770 cinemas e mais de 2.500 salas.
No dia seguinte, o mesmo circuito recebeu outra leva de lançamentos. A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, abriu em 17 cinemas. Margeado, de Diego Zon, em seis cidades. Não Sei Viver Sem Palavras, de André Brandão, sobre o escritor Ignácio de Loyola Brandão, em seis cinemas. Mesma semana, mesmo parque de salas, duas escalas que não se encontram.
Um dia de bilheteria que valeu um fim de semana
A abertura supera em 32,8% a de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, de 2021, que vendeu 761.732 ingressos também numa quarta-feira, em pré-estreia com força de estreia, quando o circuito beirava 3 mil salas. Aquele filme encerrou a carreira com 17,8 milhões de espectadores e quase R$ 324 milhões de renda, o terceiro maior público já registrado no país.
Para dimensionar: um dia do novo capítulo praticamente igualou toda a arrecadação de fim de semana de A Odisseia, de Christopher Nolan, líder da semana com R$ 24,2 milhões de quinta a domingo. E o Homem-Aranha abriu na quarta, último dia da cine-semana, então o impacto cheio só aparece no balanço seguinte.
No agregado, a cine-semana movimentou cerca de R$ 100 milhões e 4,24 milhões de espectadores, segundo o Filme B Box Office Brasil: a segunda maior do ano em renda e em público. No acumulado de 2026, o mercado brasileiro soma R$ 1,67 bilhão e 76,7 milhões de espectadores, alta de 10% em renda e de 3% em público sobre o mesmo período de 2025.
2.500 salas de um parque de 3.554
A conta de telas é a que interessa a quem produz aqui. O Brasil registrou em 2025 o recorde histórico de 3.554 salas em operação, na contagem da Ancine, com expansão para 14 novos municípios. Mais de 2.500 dessas telas, espalhadas por 770 complexos, ficaram com o Homem-Aranha. O filme ficou de fora apenas das salas IMAX, reservadas a A Odisseia, que também tem Tom Holland no elenco. A procura já vinha antes: o filme registrou a maior pré-venda da Ingresso.com em cinco anos, segundo a própria bilheteria on-line.
Do outro lado dessa mesma semana, o filme brasileiro passou dois fins de semana seguidos fora do Top 10 em julho.
Por que a cota de tela mudou em maio
A Ancine publicou em 6 de maio a Instrução Normativa nº 175, que atualizou as regras da Cota de Tela para 2026. A lógica passou a premiar horário e permanência, e não apenas a existência da sessão. Toda sessão de longa brasileiro exibida a partir das 17h vale 0,10 a mais na aferição da cota. Entre a segunda e a quinta semana do filme naquele complexo, a sessão soma outros 0,025. Se a obra tiver prêmio de melhor filme, ator, atriz, diretor ou roteiro em festival reconhecido pela agência, ganha 0,15.
Os números que motivaram a revisão estão na nota da própria agência. Em 2023, antes da retomada da cota, filmes brasileiros respondiam por 7,5% das sessões e 3,3% do público. Em 2024 e 2025, a participação em sessões subiu para 15,7% nos dois anos, com público de 10,1% e 9,9%. Em 2026, o público do cinema brasileiro recuou para 6,5%. A Ancine descreveu o descompasso com todas as letras: a participação dos filmes brasileiros no público total ficou "sistematicamente abaixo de sua participação nas sessões", sinal de que parte delas acontece em horários de menor procura ou por tempo curto demais para formar plateia.
Quem exibe reclama, e não pelo mesmo motivo
A norma dividiu o setor. Ouvidas pelo Portal Exibidor no dia em que ela saiu, 6 de maio, as duas maiores associações de exibidores reagiram em sentidos opostos. Para a AEXIB, que representa cinemas de pequeno e médio porte, o alívio previsto na regra (redução de 1 ponto percentual na obrigação, só para grupos de 30 a 79 salas) deixou os menores de fora.
"Vivemos uma retração real na ordem de 47% em relação a 2019, e os resultados do setor em 2025 conseguiram ser piores que os de 2023. O Estado exige que o exibidor assuma o risco integral da política pública, mas não oferece contrapartidas de fomento", afirmou Jack Silva, presidente da AEXIB, ao Portal Exibidor.
A Abraplex, que reúne as redes de multiplex, aprovou a troca de punição por bonificação e apontou outro gargalo.
"O problema do cinema brasileiro não é apenas espaço de tela. Mesmo com presença relevante na programação, em torno de 15% a 16% do total de sessões em alguns recortes, o share de público do filme nacional segue baixo, próximo de 6,5% em 2026, e extremamente concentrado em poucos títulos", avaliou Tiago Mafra, diretor executivo da Abraplex, ao Portal Exibidor.
Mafra lembrou que os dois principais filmes brasileiros de 2026 responderam por cerca de 77% de todo o público do cinema nacional no período. Ou seja: o desempenho nacional depende de dois títulos por ano, e quem não é um deles disputa a sobra.
Para onde vai o seu ingresso
Divida R$ 23,6 milhões por mais de 1 milhão de entradas e o preço médio pago na estreia fica na casa dos R$ 23. O levantamento público mais completo sobre para onde vai esse dinheiro já tem seis anos. Em agosto de 2020, o G1 apurou, em reportagem reproduzida pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que cerca de 52,5% do ingresso ficava com o exibidor. É média de mercado, e a própria reportagem adverte que varia de contrato para contrato. Da fatia do cinema saía o aluguel do ponto, de 5% a 15%. Do preço do ingresso saíam ainda 5% de ISS e 2,5% para o Ecad, pelas músicas do filme.
"Também há uma negociação entre exibidores e distribuidores do percentual, mudando às vezes ao longo das semanas que o filme fica em cartaz", explicou Felipe Lopes, diretor da distribuidora Vitrine Filmes, ao G1.
Naquele mesmo levantamento, em parte dos contratos a parcela do exibidor subia para 60% a partir da segunda semana. O cinema ganha mais com o filme que fica muito tempo em cartaz, e é essa mesma permanência que a nova cota tenta comprar para o filme brasileiro.
O dinheiro que tenta equilibrar a conta
A cota briga por horário. O financiamento vem de outro lugar: editais de patrocínio como o Petrobras Cultural, ações de preço como a Semana do Cinema e, se um dia sair do papel, a lei do streaming parada no Senado, que prevê cota de conteúdo nacional nos catálogos, Condecine sobre a receita das plataformas e uma janela de nove semanas protegendo as salas.
Um filme de 2.500 salas sustenta o parque exibidor por semanas: enche a bilheteria e mantém a porta aberta na terça-feira em que ninguém vai ao cinema. A pergunta que fica de pé é outra, e vence rápido. Em quantas dessas 2.500 salas um filme brasileiro vai entrar depois das 17h quando o Homem-Aranha esfriar, e por quantas semanas vai ficar. A resposta aparece no próximo balanço do Filme B. Vale acompanhar.


