
Foto: Foto: Jamille Queiroz / Divulgação “Feito Pipa”Feito Pipa, rumo ao Oscar
Nesta edição
- 3O que ficou por escreverEditorial
- 4Um menino, uma avó, um açudeA semana · Cinema
- 7Quatro páginas de LorcaA semana · Cinema
- 11Na tela: os programas da semanaYouTube do FOYER
- 12O autor que não revisavaA semana · Memória
- 17Dois maridos, um segredo em cenaA semana · Teatro
- 20O amanhã de AnnieA semana · Teatro Musical
- 23O Emmy pode trocar de casaA semana · Televisão
- 26A semana em cartaz: São PauloAgenda
- 27A semana em cartaz: Rio de JaneiroAgenda
- 28A frase da semanaEntre aspas
- 29Entre mestres: a arte pela palavraExclusivo
- 30ExpedienteQuem faz o FOYER
- 31A cortina desceContracapa
O que ficou por escrever
Federico García Lorca deixou quatro páginas de uma peça chamada La bola negra quando foi assassinado, em 1936. Nesta semana, a Espanha escolheu o filme que nasceu delas para disputar o Oscar. No mesmo dia, o Brasil apontou Feito Pipa, a história de um menino queer criado pela avó no interior do Ceará, para a mesma corrida. Dois países, duas histórias sobre quem precisa de licença para ser quem é.
Edward Albee, morto há dez anos, não acreditava em revisar o que escrevia. Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? passou por quatro elencos brasileiros, de Cacilda Becker a Zezé Polessa, e chegou a todos do mesmo tamanho em que saiu das mãos dele. Já Gilvan Azevedo pegou o próprio romance e o levou ao palco do Teatro Commune ao lado do marido, Mauricio Constantino, porque o teatro torna visível o que no livro acontece por dentro.
Há também o que ainda não foi escrito. O revival de Annie, que Sam Pinkleton dirige na Broadway em 2027, não tem teatro nem elenco. O Emmy pode deixar a TV aberta depois de 31 anos, mas o acordo com a Amazon ainda não foi fechado. A shortlist do Oscar só sai em 15 de dezembro. E há uma mulher, em Copacabana, que não consegue dormir a dois dias de fazer 50 anos e faz as contas do que ainda quer viver.
Esta edição é sobre páginas em aberto. Boa leitura.
A direção do FOYER
CinemaFoto — Jamille QueirozUm menino, uma avó, um açude
Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, o filme de Allan Deberton tenta levar o país aos finalistas do Oscar pelo terceiro ano seguido.
Gugu tem quase 12 anos, gosta de futebol e vive com a avó Dilma perto do açude Araújo Lima, no Ceará. Dentro daquela casa ele pode ser quem é; fora dela, encontra a desaprovação do pai, vivido por Lázaro Ramos. Antes de chegar ao circuito nacional, em 5 de novembro, o longa já saiu premiado de Berlim, Guadalajara e Gramado.
“Feito Pipa”, de Allan Deberton, foi escolhido nesta quarta-feira, 16 de setembro, para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2027.
A decisão foi tomada pela comissão da Academia Brasileira de Cinema. O longa superou outros cinco finalistas: “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.
Um menino, uma avó, um açude
A escolha ainda não significa uma indicação ao Oscar. “Feito Pipa” passa agora a ser o representante oficial brasileiro e será submetido à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ao lado dos títulos enviados por outros países.
O Brasil chega a essa etapa depois de duas temporadas consecutivas entre os indicados da categoria. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, venceu Melhor Filme Internacional em 2025. No ano seguinte, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, também chegou à disputa.
“Feito Pipa” tentará levar o país aos cinco finalistas pelo terceiro ano seguido, algo que o cinema brasileiro nunca conseguiu.
Um menino queer no interior do Ceará
O filme acompanha Gugu, interpretado por Yuri Gomes, um menino de quase 12 anos apaixonado por futebol que vive com a avó Dilma, papel de Teca Pereira, em uma comunidade próxima ao açude Araújo Lima, no Ceará.
Criado pela avó de forma livre e afetuosa, Gugu encontra dentro de casa espaço para ser quem é. A situação começa a mudar quando Dilma se torna mais frágil e ele passa a enfrentar a possibilidade de ter de morar com Batista, seu pai, interpretado por Lázaro Ramos.
A identidade queer do protagonista faz parte diretamente desse conflito. Fora da casa da avó, Gugu encontra a desaprovação do pai e de pessoas ao seu redor. O filme foi inclusive selecionado para o Teddy Award de 2026, prêmio da Berlinale dedicado ao cinema queer.
A temática também acompanhou o longa no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México. “Feito Pipa” venceu Melhor Filme no Premio Maguey, seção dedicada a produções LGBTQIA+, e Yuri Gomes e Teca Pereira dividiram o prêmio de Melhor Interpretação.
Um menino, uma avó, um açude
Dois prêmios em Berlim e quatro Kikitos em Gramado
A estreia mundial aconteceu na mostra Generation Kplus da Berlinale, em fevereiro. O longa saiu do festival com os dois principais prêmios da seção: o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo júri infantil, e o Grande Prêmio do Júri Internacional.
Meses depois, “Feito Pipa” voltou a acumular prêmios no Brasil.
Na 54ª edição do Festival de Gramado, Allan Deberton venceu Melhor Direção, Teca Pereira recebeu o Kikito de Melhor Atriz, Lázaro Ramos foi escolhido Melhor Ator Coadjuvante e o longa ganhou Melhor Filme pelo Júri Popular. Yuri Gomes ainda recebeu uma Menção Honrosa.
A trajetória transformou o filme em um dos títulos brasileiros de maior circulação internacional em 2026 antes mesmo de sua estreia comercial em circuito nacional.
“Feito Pipa” chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro, com distribuição da Paris Filmes.
Até lá, a campanha pelo Oscar já estará em andamento.
A Academia de Hollywood divulgará em 15 de dezembro a shortlist de Melhor Filme Internacional. Os cinco indicados serão conhecidos em 21 de janeiro de 2027.
A cerimônia da 99ª edição do Oscar acontece em 14 de março, em Los Angeles.
CinemaFoto — Crédito: DivulgaçãoQuatro páginas de Lorca
A Espanha envia ao Oscar La bola negra, filme de Javier Calvo e Javier Ambrossi nascido de uma peça que o poeta não chegou a terminar.
Lorca trabalhava numa peça sobre um jovem homossexual rejeitado por um clube de Granada quando foi assassinado, em 1936. Restaram quatro páginas e o relato de um amigo. Noventa anos depois, os criadores de Veneno partem desse material para contar histórias próprias, sem tentar completar o que faltou.
“La bola negra”, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, acompanha homens gays em diferentes momentos da história espanhola e tem participações de Penélope Cruz e Glenn Close
A Espanha escolheu nesta quarta-feira, 16 de setembro, um filme diretamente ligado à memória queer de Federico García Lorca para representá-la na disputa pelo Oscar 2027. “La bola negra”, dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, será inscrito na categoria de Melhor Filme Internacional.
Quatro páginas de Lorca
O longa acompanha homens gays separados por diferentes períodos da história espanhola, atravessando experiências de desejo, repressão e identidade. Guitarricadelafuente, Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes e Lola Dueñas estão entre os principais nomes do elenco, que ainda tem participações especiais de Penélope Cruz e Glenn Close.
“La bola negra” venceu a seleção nacional contra “El ser querido”, de Rodrigo Sorogoyen, e “Los domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa. O resultado foi anunciado em Madri pelo diretor Alejandro Amenábar, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005 por “Mar adentro”.
A escolha amplia um ano importante para o filme. Em maio, “La bola negra” disputou a competição oficial do Festival de Cannes, onde Calvo e Ambrossi dividiram o prêmio de Melhor Direção.
Mas a origem do projeto está muito antes disso.
Quatro páginas deixadas por Lorca
Federico García Lorca trabalhava em uma peça chamada “La bola negra” nos meses que antecederam seu assassinato, em 1936. O texto nunca foi concluído.
Do projeto restaram apenas quatro páginas conhecidas, com personagens e o início de um diálogo entre Carlos e sua irmã. Parte do que se sabe sobre os planos do dramaturgo chegou por meio de relatos de pessoas próximas a ele.
Um dos mais importantes veio de Cipriano Rivas Cherif, diretor teatral e amigo de Lorca. Segundo seu testemunho, o poeta pretendia escrever sobre um jovem homossexual rejeitado por um tradicional clube de Granada.
Quatro páginas de Lorca
A admissão dos novos integrantes era decidida com bolas brancas e negras. Uma bola negra bastava para impedir a entrada do candidato. No relato de Rivas Cherif, o protagonista voltaria para casa e contaria ao pai que havia sido rejeitado por causa de sua homossexualidade.
Essa história nunca chegou a ser escrita integralmente por Lorca.
Calvo e Ambrossi não tentaram reconstruir a peça que poderia ter existido. O filme usa o material preservado, os relatos em torno do projeto e outra obra que nasceu décadas depois da mesma memória.
O encontro com “La piedra oscura”
Uma das referências centrais de “La bola negra” é “La piedra oscura”, peça escrita por Alberto Conejero.
O texto de Conejero recupera a figura de Rafael Rodríguez Rapún, secretário da companhia La Barraca e apontado por pesquisadores e biógrafos como um dos grandes amores de Lorca. A peça acompanha seus últimos momentos durante a Guerra Civil Espanhola.
Calvo e Ambrossi conheceram o trabalho anos antes de começarem o filme. Quando decidiram desenvolver “La bola negra”, convidaram Conejero para escrever o roteiro com eles.
O resultado não é uma cinebiografia de Lorca nem uma adaptação direta das quatro páginas que sobreviveram.
Quatro páginas de Lorca
O longa constrói histórias próprias e coloca personagens gays de diferentes gerações em diálogo com uma memória que durante décadas permaneceu fragmentada, escondida ou contada por terceiros.
Essa perspectiva acompanha boa parte da trajetória de Calvo e Ambrossi.
A dupla criou “Paquita Salas” e “La Mesías” e esteve à frente de “Veneno”, série inspirada na vida de Cristina Ortiz Rodríguez, uma das figuras trans mais conhecidas da televisão espanhola.
Agora, esse percurso chega à corrida pelo Oscar.
“La bola negra” ainda não está indicado à premiação. Como representante oficial da Espanha, o filme será submetido à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood junto às produções escolhidas por outros países.
A primeira seleção será conhecida em 15 de dezembro, quando a Academia divulgará a lista de pré indicados a Melhor Filme Internacional. Os cinco concorrentes ao Oscar serão anunciados em 21 de janeiro de 2027.
A cerimônia da 99ª edição acontece em 14 de março, em Los Angeles.
Noventa anos depois da morte de Lorca, um projeto que o dramaturgo não conseguiu concluir volta a circular por outro caminho. Desta vez, não como tentativa de completar suas páginas, mas como ponto de partida para contar histórias que durante muito tempo também tiveram dificuldade de encontrar espaço no cinema espanhol.
Na tela
Coxixo de CoxiaDo Ré Mi Fu: O Mundo Fora da Escala
Coxixo de CoxiaLady Macbeth
Coxixo de CoxiaA Primeira Cirurgia da Historia
Programa do FoyerDaniel Salve - Programa do Foyer
Coxixo de CoxiaPietá, Um Fractal de Memórias
Coxixo de CoxiaJoão, Joãozinho, Joãozito
MemóriaFoto — Los Angeles TimesO autor que não revisava
Dez anos após a morte de Edward Albee, o FOYER repassa as quatro montagens brasileiras de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Cacilda Becker a Zezé Polessa.
Em 1965, 1978, 2000 e 2014 mudaram tradutor, diretor, casa e elenco. O texto, nunca. Enquanto viveu, Albee ficou com a última palavra sobre quem encenava sua obra e de que jeito, e deixou um espólio que continua aprovando elenco e criação.
Edward Albee morreu numa sexta-feira, 16 de setembro de 2016, em casa, em Montauk, no estado de Nova York. Tinha 88 anos. A morte veio depois de uma doença curta e foi anunciada pelo assistente pessoal do dramaturgo, Jakob Holder, conforme a Playbill publicou no mesmo dia. Em 16 de setembro de 2026 a data completa dez anos.
Por aqui, o que ele escreveu nunca saiu de circulação. Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de 1962, teve quatro montagens profissionais brasileiras entre 1965 e 2014. Cada uma trocou o tradutor, o diretor, a casa e os quatro atores. Nenhuma trocou o texto.
O autor que não revisava
Isso não era acaso. Enquanto viveu, Albee ficou com a última palavra sobre quem encenava a obra dele e de que jeito, inclusive sobre quem entrava em cena.
Quatro Marthas em meio século
A primeira foi Cacilda Becker. Ela e o marido, Walmor Chagas, foram contratados pelo diretor Maurice Vaneau em 1965 para os dois papéis centrais, registra o verbete de Walmor Chagas na Enciclopédia Itaú Cultural. Lilian Lemmertz e Fulvio Stefanini completavam o elenco, conforme o banco de espetáculos teatrais do PEHL, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A crítica saiu no Diário de São Paulo do mesmo ano.
"A interpretação de Walmor supera toda calculada ou generosa previsão; a melhor, talvez, até agora feita por um ator brasileiro", escreveu Alberto D'Aversa no Diário de São Paulo, em 1965, em trecho reproduzido pela Enciclopédia Itaú Cultural.
A segunda montagem é a que ficou nos prêmios. Estreou em 18 de novembro de 1978, no Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo, com tradução de Millôr Fernandes e direção de Antunes Filho. Tônia Carrero fez Martha, Raul Cortez fez George. Roberto Lopes entrou como Nick e Maria Eugênia de Domênico como Lili. A ficha da enciclopédia anota quatro prêmios para Cortez naquele papel: Mambembe, Ziembinski, Molière e o da Associação Paulista de Críticos de Artes.
Vinte e dois anos depois o texto voltou, agora pelo Rio. Marieta Severo e Marco Nanini fizeram o casal sob direção de João Falcão, no Teatro João Caetano, de 10 de novembro de 2000 a 18 de fevereiro de 2001.
O autor que não revisava
A quarta correu o país entre 2013 e 2014. Zezé Polessa e Daniel Dantas assumiram os anfitriões, ao lado de Ana Kutner e Erom Cordeiro, com direção de Victor Garcia Peralta e tradução de João Polessa Dantas. Depois de temporadas no Rio e de passar pelo Festival de Curitiba, o espetáculo ficou de 25 de abril a 27 de julho de 2014 no Teatro Raul Cortez, na sede da FecomercioSP, que noticiou a temporada e chamou aquela de quarta montagem brasileira da peça.
O tradutor mexe nos nomes, e para por aí
Ponha as duas fichas lado a lado e a diferença salta nos personagens. Em 1978 eles se chamavam Martha, George, Nick e Lili. Em 2014, Marta, Jorge, Mel e Nick. É decisão de tradutor, e é quase tudo o que muda de uma montagem para a outra.
O resto da conversa costuma ser sobre fidelidade ao original.
"A diferença do que eu vi é que eu trabalhei o realismo da peça e não fiz uma versão dela", disse o diretor Victor Garcia Peralta à FecomercioSP, em reportagem publicada em 23 de abril de 2014.
Na mesma reportagem, Daniel Dantas resumiu o gênero em uma frase: "É uma comédia baseada no fato de que a gente ri porque dói". Zezé Polessa falou da personagem que Cacilda e Tônia fizeram antes dela. Marta vive numa época que a aprisiona à condição de ser mulher, disse a atriz, e é uma indignada com isso.
O autor que não revisava
O autor mandava, e mandava no elenco
A Playbill descreveu o método no obituário de 16 de setembro de 2016. Uma produção de Edward Albee era governada por Edward Albee. O nome dele ia acima do título em toda marquise e na capa de todo texto publicado, e atores e diretores sabiam que não deviam se afastar da intenção do autor. Nem ele se dava esse direito.
"Não acredito em revisar meu trabalho nem em repensá-lo", disse Albee em declaração reproduzida pela Playbill no obituário de 16 de setembro de 2016.
O controle alcançava o elenco e sobreviveu ao autor. O espólio mantém a aprovação de elenco e de criação nas montagens profissionais, informou a Playbill em 24 de agosto de 2017, ao relatar o caso de uma companhia de Portland, no Oregon, que escalou um ator negro para Nick e ficou sem os direitos. Jonathan Lomma, ex-agente do dramaturgo e responsável pelo espólio, escreveu que atores não brancos já haviam feito todos os papéis com aprovação de Albee, e que a desconfiança dele era com diretor que usasse a peça para fazer comentário próprio.
Em vida, o autor negociava caso a caso. Quando a Universidade Howard montou o texto com elenco inteiramente negro, em 2001, foi ele quem telefonou para a diretora Vera Katz e propôs a troca da criança loira de olhos azuis por outra imagem, além de substituir os nomes das universidades citadas por George. Também foi conhecer os estudantes durante os ensaios. O relato de Katz está na mesma reportagem.
O autor que não revisava
O Albee que está rodando o país agora
Dez anos depois da morte, o dramaturgo continua em cartaz no Brasil por outro texto. Três Mulheres Altas, o texto que lhe rendeu o terceiro Pulitzer, está no quinto ano seguido de temporada, com direção de Fernando Philbert, tradução de Gustavo Pinheiro e produção de Bruna Dornellas e Wesley Telles. A montagem já passou por 28 cidades e por mais de 90 mil espectadores, segundo o material de divulgação da produção, e entrou em 2026 na segunda turnê nacional.
O elenco mudou no caminho, e o FOYER cobriu as duas formações: Suely Franco, Deborah Evelyn e Nathalia Dill encerraram a temporada paulistana no Teatro Bravos em maio de 2025 e, em setembro, Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre saíram em circulação pelo país. Direção e tradução seguiram as mesmas. Em 2026 a turnê parou no Teatro Madre Esperança Garrido, em Goiânia, nos dias 9 e 10 de maio, e no Teatro Universitário da Ufes, em Vitória, em 27 e 28 de junho.
A reportagem não localizou montagem brasileira de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? anunciada para este ano. A conta de sessenta e quatro anos de peça mostra por que ela volta assim, de tempos em tempos: são quatro papéis que atores de cada geração querem fazer, num texto que chega às mãos deles do mesmo tamanho em que chegou às de Cacilda Becker. Albee cuidou disso enquanto esteve vivo, e deixou quem cuidasse depois.
TeatroFoto — Daniela FerreiraDois maridos, um segredo em cena
Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino, casados fora do palco, vivem Saulo e Rodney no Teatro Commune até 27 de setembro.
Saulo e Rodney são pais de família e profissionais estabelecidos quando se conhecem, tarde, com uma vida de escolhas e silêncios nas costas. A adaptação do romance Éramos Ursos e Não Sabíamos, dirigida por André Corrêa, fala de paternidade, envelhecimento e desejo num recorte que a dramaturgia brasileira ainda pouco frequenta.
Adaptação do romance "Éramos Ursos e Não Sabíamos", o espetáculo acompanha dois homens que se apaixonam depois de décadas cumprindo o roteiro esperado. Fica em cartaz no Teatro Commune até 27 de setembro.
Saulo e Rodney são pais de família, profissionais estabelecidos e acostumados a corresponder às expectativas alheias. Quando se conhecem, já carregam uma trajetória feita de escolhas, responsabilidades e silêncios. É esse encontro tardio que move "Nós, Ursos", em cartaz no Teatro Commune, em São Paulo, aos sábados e domingos às 20h, até 27 de setembro. Os ingressos custam R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), pela Sympla.
Dois maridos, um segredo em cena
Dirigido por André Corrêa, o espetáculo adapta o romance "Éramos Ursos e Não Sabíamos", de Gilvan Azevedo, que assina o texto e ainda divide o palco com Mauricio Constantino, seu marido e sócio na Cia. Salor. O livro foi publicado no Brasil e depois lançado em inglês, sob o título "We Were Bears and Didn't Know".
Entre mensagens, viagens e encontros escondidos
A peça acompanha a relação que os dois constroem apesar de tudo ao redor parecer dizer o contrário, com afastamentos, pressões familiares e conflitos internos, até o momento em que o segredo deixa de caber nos bastidores. Misturando humor, drama e poesia, a montagem trata de paternidade, masculinidades, envelhecimento, desejo e reinvenção na vida adulta, com foco em relações LGBTQIA+ maduras, recorte ainda pouco frequente na dramaturgia brasileira.
"O teatro tem a capacidade de tornar visíveis conflitos que, no romance, acontecem dentro dos personagens", afirma Gilvan Azevedo. "A adaptação não surgiu do desejo de ilustrar o livro, mas de explorar aquilo que o palco pode revelar de maneira única."
O diretor optou por uma encenação enxuta. "Buscamos uma encenação simples, focada nos atores e nos vínculos que eles constroem, combinando interpretação, projeções e desenho de som para ampliar a experiência emocional do público", diz André Corrêa, que descreve a peça como uma história sobre pessoas que precisam lidar com caminhos abandonados e possibilidades ainda abertas.
Por que "ursos"
Dois maridos, um segredo em cena
O título remete à cultura bear, surgida nos Estados Unidos nos anos 1980 e difundida no Brasil a partir da década de 1990. Dentro da comunidade LGBTQIA+, o termo identifica homens gays ou bissexuais que valorizam corpos robustos, pelos e barbas, mas também carrega sentidos de acolhimento, autenticidade e pertencimento. A montagem usa a referência para ampliar a conversa sobre diversidade de corpos e afetos, longe da caricatura.
"A peça apresenta dois homens gays, mas não pretende transformar a sexualidade no único eixo de leitura desses personagens. Eles também são filhos, pais, profissionais, amigos", afirma o autor. "Embora a história parta de uma experiência específica, acredito que ela dialoga com qualquer pessoa que já tenha se perguntado se a vida que construiu corresponde à vida que deseja viver."
Serviço
Nós, Ursos Teatro Commune, São Paulo
Até 27 de setembro de 2026
Sábados e domingos, às 20h
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), pela Sympla
Duração: 70 minutos.
Classificação: 16 anos
Direção: André Corrêa.
Texto e adaptação: Gilvan Azevedo
Elenco: Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino.
Realização: Cia Salor
Teatro MusicalFoto — Andy HendersonO amanhã de Annie
Sam Pinkleton, diretor de Oh, Mary!, assume o revival do musical que completa 50 anos na Broadway em 2027.
Quem transformou Mary Todd Lincoln em alcoólatra obcecada por cabaré diz que Annie é seu musical favorito. A órfã da Grande Depressão canta Tomorrow justamente porque o presente da trama não funciona. Teatro, datas e elenco ainda não foram anunciados.
O musical que completa 50 anos ganha novo revival no outono americano de 2027. Teatro, datas e elenco ainda não foram anunciados.
O diretor que transformou Mary Todd Lincoln em uma alcoólatra obcecada por cabaré vai assumir a órfã mais otimista do teatro musical. Sam Pinkleton, vencedor do Tony de melhor direção de peça em 2025 por "Oh, Mary!", comandará o novo revival de "Annie" na Broadway, previsto para o outono americano de 2027, ano em que o espetáculo completa cinco décadas. A produção ainda não anunciou teatro, datas específicas nem elenco.
O amanhã de Annie
A combinação sugere reinvenção radical, mas o próprio diretor aponta outro caminho. Pinkleton já declarou que "Annie" é seu musical favorito e descreve a obra como uma comédia musical perfeitamente construída. A proposta anunciada é partir desse afeto para encontrar uma nova perspectiva teatral, sem abandonar o otimismo que sustentou o espetáculo por gerações.
De tira de jornal a sete prêmios Tony
Com música de Charles Strouse, letras de Martin Charnin e libreto de Thomas Meehan, "Annie" nasceu da tira "Little Orphan Annie", criada por Harold Gray em 1924. Meehan levou a personagem para a Nova York de 1933, em plena Grande Depressão: Annie vive em um orfanato comandado pela abusiva Miss Hannigan até ser escolhida para passar o Natal na mansão do bilionário Oliver Warbucks.
Depois de uma montagem no Goodspeed Opera House e de uma temporada em Washington, o musical chegou ao Alvin Theatre em 21 de abril de 1977, com Andrea McArdle no papel-título e Dorothy Loudon como Miss Hannigan. Foram 11 indicações ao Tony e sete prêmios, incluindo melhor musical, trilha original, libreto e atriz para Loudon. A temporada durou quase seis anos e 2.377 apresentações, até janeiro de 1983. Vieram depois filmes, montagens internacionais e dois revivals na Broadway, em 1997 e 2012.
Menos açucarado do que a fama sugere
O amanhã de Annie
Cinco décadas de vestidos vermelhos e crianças cantando "Tomorrow" consolidaram a peça como símbolo de otimismo. A história, porém, se passa em circunstâncias nada otimistas: uma criança abandonada sob os cuidados de uma mulher abusiva, em um país marcado por pobreza, desemprego e pelos assentamentos conhecidos como Hoovervilles. O presidente Franklin D. Roosevelt aparece como personagem e o New Deal integra a narrativa. "Tomorrow" funciona justamente porque o presente da trama não funciona.
Um coreógrafo por trás do fenômeno "Oh, Mary!"
A escolha de Pinkleton parece excêntrica se olhada apenas pelos trabalhos recentes. Além de "Oh, Mary!", texto de Cole Escola que virou fenômeno da Broadway, ele dirigiu o revival de "The Rocky Horror Show". Mas boa parte de sua carreira foi construída como coreógrafo e diretor de movimento, em produções como "Natasha, Pierre & The Great Comet of 1812", "Amélie", "Soft Power" e "Here We Are", último musical de Stephen Sondheim. O traço comum é o interesse por espetáculos em que o movimento e a própria condição de estar fazendo teatro ficam visíveis.
Ele herda uma obra carregada de imagens anteriores: McArdle e Loudon na Broadway, Aileen Quinn, Albert Finney e Carol Burnett no filme de 1982, além dos revivals seguintes. A pergunta que o novo revival parece levantar não é como consertar "Annie", e sim como demonstrar por que ela ainda funciona.
TelevisãoFoto — Imagem gerada por inteligência…O Emmy pode trocar de casa
Depois de 31 anos em rodízio entre ABC, CBS, Fox e NBC, a premiação negocia migrar para o Prime Video a partir de 2027.
A última cerimônia do pacote foi ao ar na segunda-feira, 14, pela NBC. A Television Academy conversa com a Amazon, mas o acordo ainda não foi fechado. O Oscar já definiu seu destino fora da TV aberta: a partir de 2029, será transmitido pelo YouTube.
Television Academy mantém conversas avançadas com a Amazon após o fim do contrato que dividia a premiação entre ABC, CBS, Fox e NBC; acordo ainda não foi fechado
Uma das premiações mais tradicionais da televisão americana pode deixar justamente a televisão aberta. A Television Academy negocia com a Amazon a transferência do Emmy para o Prime Video a partir de 2027, encerrando um sistema de rodízio entre ABC, CBS, Fox e NBC que começou em 1995.
O Emmy pode trocar de casa
As conversas estão avançadas, mas o acordo ainda não foi fechado. Até esta terça-feira, 15, nem a Television Academy nem a Amazon haviam anunciado oficialmente o Prime Video como a nova casa da cerimônia.
A negociação acontece logo após o fim do contrato vigente. Renovado em 2018 por mais oito anos, o acordo previa que as quatro grandes redes americanas se alternassem na transmissão do Emmy. A última edição desse pacote foi exibida na segunda-feira, 14 de setembro, pela NBC, com transmissão simultânea pelo Peacock.
O modelo já fazia parte da identidade da premiação. Desde 1995, cada emissora recebia o Emmy uma vez a cada quatro anos, uma solução criada depois de disputas entre as próprias redes pelos direitos do evento.
Agora, pela primeira vez desde a adoção desse sistema, a Television Academy considera concentrar a cerimônia em uma única plataforma.
Nos últimos meses, outras possibilidades chegaram a ser discutidas. Entre elas estavam a manutenção do rodízio com novos participantes e até uma transmissão simultânea por diferentes emissoras e serviços de streaming. A complexidade comercial desse formato, especialmente na divisão da publicidade, dificultou a alternativa.
O Prime Video acabou avançando nas negociações.
A Amazon vem aumentando sua aposta em transmissões ao vivo, principalmente no esporte, e já tem experiência com premiações. Desde 2022, o serviço transmite o Academy of Country Music Awards, que deixou a CBS depois de décadas na televisão tradicional.
O Emmy pode trocar de casa
A possível mudança do Emmy acompanha uma transformação maior entre as grandes cerimônias americanas. O Oscar também já definiu seu futuro fora da televisão aberta: a partir de 2029, a premiação será transmitida globalmente pelo YouTube. O contrato atual com a ABC termina depois da edição de 2028.
No caso do Emmy, ainda não foram divulgados valores, duração do possível contrato com a Amazon nem os detalhes de distribuição internacional. Também não há confirmação de que a cerimônia desaparecerá completamente da televisão tradicional ou se algum tipo de parceria poderá fazer parte do acordo final.
A mudança, se confirmada, terá um peso simbólico difícil de ignorar. Durante 31 anos, ABC, CBS, Fox e NBC dividiram a responsabilidade de transmitir a principal premiação da televisão americana. Em 2027, essa tradição pode dar lugar a uma plataforma que nasceu justamente como concorrente desse modelo.
A semana em cartazSão Paulo
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