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Quem Tem Medo de Virgínia Woolf: quatro montagens profissionais no Brasil, de 1965 a 2014

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf: quatro montagens profissionais no Brasil, de 1965 a 2014
Foto: Los Angeles Times/UCLA Library Digital Collections via Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Edward Albee morreu numa sexta-feira, 16 de setembro de 2016, em casa, em Montauk, no estado de Nova York. Tinha 88 anos. A morte veio depois de uma doença curta e foi anunciada pelo assistente pessoal do dramaturgo, Jakob Holder, conforme a Playbill publicou no mesmo dia. Em 16 de setembro de 2026 a data completa dez anos.

Por aqui, o que ele escreveu nunca saiu de circulação. Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de 1962, teve quatro montagens profissionais brasileiras entre 1965 e 2014. Cada uma trocou o tradutor, o diretor, a casa e os quatro atores. Nenhuma trocou o texto.

Isso não era acaso. Enquanto viveu, Albee ficou com a última palavra sobre quem encenava a obra dele e de que jeito, inclusive sobre quem entrava em cena.

Quatro Marthas em meio século

A primeira foi Cacilda Becker. Ela e o marido, Walmor Chagas, foram contratados pelo diretor Maurice Vaneau em 1965 para os dois papéis centrais, registra o verbete de Walmor Chagas na Enciclopédia Itaú Cultural. Lilian Lemmertz e Fulvio Stefanini completavam o elenco, conforme o banco de espetáculos teatrais do PEHL, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A crítica saiu no Diário de São Paulo do mesmo ano.

"A interpretação de Walmor supera toda calculada ou generosa previsão; a melhor, talvez, até agora feita por um ator brasileiro", escreveu Alberto D'Aversa no Diário de São Paulo, em 1965, em trecho reproduzido pela Enciclopédia Itaú Cultural.

A segunda montagem é a que ficou nos prêmios. Estreou em 18 de novembro de 1978, no Teatro Sesc Anchieta, em São Paulo, com tradução de Millôr Fernandes e direção de Antunes Filho. Tônia Carrero fez Martha, Raul Cortez fez George. Roberto Lopes entrou como Nick e Maria Eugênia de Domênico como Lili. A ficha da enciclopédia anota quatro prêmios para Cortez naquele papel: Mambembe, Ziembinski, Molière e o da Associação Paulista de Críticos de Artes.

Vinte e dois anos depois o texto voltou, agora pelo Rio. Marieta Severo e Marco Nanini fizeram o casal sob direção de João Falcão, no Teatro João Caetano, de 10 de novembro de 2000 a 18 de fevereiro de 2001.

A quarta correu o país entre 2013 e 2014. Zezé Polessa e Daniel Dantas assumiram os anfitriões, ao lado de Ana Kutner e Erom Cordeiro, com direção de Victor Garcia Peralta e tradução de João Polessa Dantas. Depois de temporadas no Rio e de passar pelo Festival de Curitiba, o espetáculo ficou de 25 de abril a 27 de julho de 2014 no Teatro Raul Cortez, na sede da FecomercioSP, que noticiou a temporada e chamou aquela de quarta montagem brasileira da peça.

O tradutor mexe nos nomes, e para por aí

Ponha as duas fichas lado a lado e a diferença salta nos personagens. Em 1978 eles se chamavam Martha, George, Nick e Lili. Em 2014, Marta, Jorge, Mel e Nick. É decisão de tradutor, e é quase tudo o que muda de uma montagem para a outra.

O resto da conversa costuma ser sobre fidelidade ao original.

"A diferença do que eu vi é que eu trabalhei o realismo da peça e não fiz uma versão dela", disse o diretor Victor Garcia Peralta à FecomercioSP, em reportagem publicada em 23 de abril de 2014.

Na mesma reportagem, Daniel Dantas resumiu o gênero em uma frase: "É uma comédia baseada no fato de que a gente ri porque dói". Zezé Polessa falou da personagem que Cacilda e Tônia fizeram antes dela. Marta vive numa época que a aprisiona à condição de ser mulher, disse a atriz, e é uma indignada com isso.

O autor mandava, e mandava no elenco

A Playbill descreveu o método no obituário de 16 de setembro de 2016. Uma produção de Edward Albee era governada por Edward Albee. O nome dele ia acima do título em toda marquise e na capa de todo texto publicado, e atores e diretores sabiam que não deviam se afastar da intenção do autor. Nem ele se dava esse direito.

"Não acredito em revisar meu trabalho nem em repensá-lo", disse Albee em declaração reproduzida pela Playbill no obituário de 16 de setembro de 2016.

O controle alcançava o elenco e sobreviveu ao autor. O espólio mantém a aprovação de elenco e de criação nas montagens profissionais, informou a Playbill em 24 de agosto de 2017, ao relatar o caso de uma companhia de Portland, no Oregon, que escalou um ator negro para Nick e ficou sem os direitos. Jonathan Lomma, ex-agente do dramaturgo e responsável pelo espólio, escreveu que atores não brancos já haviam feito todos os papéis com aprovação de Albee, e que a desconfiança dele era com diretor que usasse a peça para fazer comentário próprio.

Em vida, o autor negociava caso a caso. Quando a Universidade Howard montou o texto com elenco inteiramente negro, em 2001, foi ele quem telefonou para a diretora Vera Katz e propôs a troca da criança loira de olhos azuis por outra imagem, além de substituir os nomes das universidades citadas por George. Também foi conhecer os estudantes durante os ensaios. O relato de Katz está na mesma reportagem.

O Albee que está rodando o país agora

Dez anos depois da morte, o dramaturgo continua em cartaz no Brasil por outro texto. Três Mulheres Altas, o texto que lhe rendeu o terceiro Pulitzer, está no quinto ano seguido de temporada, com direção de Fernando Philbert, tradução de Gustavo Pinheiro e produção de Bruna Dornellas e Wesley Telles. A montagem já passou por 28 cidades e por mais de 90 mil espectadores, segundo o material de divulgação da produção, e entrou em 2026 na segunda turnê nacional.

O elenco mudou no caminho, e o FOYER cobriu as duas formações: Suely Franco, Deborah Evelyn e Nathalia Dill encerraram a temporada paulistana no Teatro Bravos em maio de 2025 e, em setembro, Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre saíram em circulação pelo país. Direção e tradução seguiram as mesmas. Em 2026 a turnê parou no Teatro Madre Esperança Garrido, em Goiânia, nos dias 9 e 10 de maio, e no Teatro Universitário da Ufes, em Vitória, em 27 e 28 de junho.

A reportagem não localizou montagem brasileira de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? anunciada para este ano. A conta de sessenta e quatro anos de peça mostra por que ela volta assim, de tempos em tempos: são quatro papéis que atores de cada geração querem fazer, num texto que chega às mãos deles do mesmo tamanho em que chegou às de Cacilda Becker. Albee cuidou disso enquanto esteve vivo, e deixou quem cuidasse depois.

MemóriaRedação Foyer

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