Netflix é processada em US$ 105 milhões por perder a cópia de um filme inédito com Nicolas Cage
Fortitude custou US$ 45 milhões, levou sete anos para ficar pronto e nunca estreou. Em junho, a cópia master do filme, gravada num HD sem criptografia, foi entregue em mãos no estúdio da Netflix em Hollywood para uma sessão privada. Dez dias depois, o HD tinha sumido de cima de uma mesa de escritório.
Na quarta-feira, 29 de julho, o produtor suíço Simon Afram e a empresa dele, a Op-Fortitude, processaram a Netflix na Justiça Federal da Califórnia. Pedem pelo menos US$ 105 milhões. O que está em discussão no processo é uma coisa só: quem responde pela guarda de um arquivo que carregava um filme inteiro.
Dez dias entre a entrega e o e-mail
A cronologia descrita na ação é curta e desconfortável. No dia 15 de junho, um produtor levou o pacote digital em mãos ao escritório da Netflix em Hollywood. A sessão para os executivos aconteceu no dia seguinte. O produtor avisou, de viva voz e por escrito, que a cópia estava sem criptografia, e pediu que os arquivos fossem apagados depois da exibição.
Entre 17 e 25 de junho, ainda segundo a ação, os pedidos para combinar a retirada do HD foram adiados ou ignorados. No dia 25 chegou o e-mail que virou a peça central do processo.
"Essa é uma primeira vez para nós. Infelizmente, alguém roubou um bom número de HDs das mesas do nosso escritório na semana passada", escreveu Sean Berney, executivo da Netflix, em mensagem citada na ação e reproduzida pelo The Hollywood Reporter.
O mesmo executivo, conforme a Variety, avaliou no e-mail que os ladrões provavelmente venderiam os HDs como sucata. Até a publicação das reportagens americanas, não havia sinal de que o filme tivesse vazado.
Quanto vale um filme que ninguém viu
O número que interessa a qualquer produtor está na petição. Segundo o processo, citado pela Fox Business, sessões de teste registraram 82% de aprovação na chamada nota das duas caixas do topo. A projeção conservadora de receita, ainda na petição, era de pelo menos US$ 112,5 milhões, cerca de duas vezes e meia o custo de produção. Nada disso estava garantido. Era com esse cálculo que o filme vinha sendo oferecido ao mercado.
Fortitude conta a história da Operação Fortitude, o plano de engano montado pelos Aliados para convencer o comando nazista de que o desembarque do Dia D aconteceria em outro lugar. Nicolas Cage vive o espião Dusko Popov, ao lado de Ben Kingsley e Ron Perlman, pela descrição da CBS News. A direção é de Simon West, segundo o The Hollywood Reporter, que lista ainda Matthew Goode, Ed Skrein, Jordi Mollà e Alice Eve no elenco.
"O valor do filme dependia em parte significativa da exclusividade dele como obra inédita, a primeira a chegar ao mercado", diz a ação em trecho publicado pela CBS News. "Ao perder o controle do filme, a Netflix destruiu essa exclusividade e prejudicou materialmente, se não completamente, a comercialização da obra."
O argumento dos produtores é comercial, e simples de entender: nenhum distribuidor grande assina cheque de dezenas de milhões por um filme que pode aparecer de graça num site de pirataria antes da estreia. Os autores dizem que pausaram a venda do longa, que tinha interesse de distribuidores no mercado interno e no exterior, e que a campanha de premiações ficou no ar.
A resposta da plataforma
A Netflix rejeita a responsabilidade e leva a discussão para o protocolo de segurança.
"A Netflix contesta qualquer alegação de que assume o risco pela perda de um filme entregue sem as salvaguardas padrão do setor", afirmou a empresa em nota enviada à Fox Business e ao The Hollywood Reporter.
Na mesma nota, a companhia diz que não detém os direitos de Fortitude, que leva a segurança de conteúdo a sério e que ofereceu monitorar sites de pirataria em busca de distribuição ou venda não autorizada. Segundo fontes da empresa ouvidas pela Variety, o padrão interno é receber filmes inéditos por link protegido por senha ou em pacote criptografado, que só abre com chave.
A plataforma também acusa o outro lado. Em nota citada pela Fox Business e pela Variety, a Netflix afirmou que deixou de compartilhar detalhes da investigação interna com o escritório de advocacia de Afram por causa de "tentativas hostis de extorquir dinheiro da Netflix". Entre elas, diz a empresa, uma exigência imediata de US$ 165 milhões pelo filme. Os autores, por sua vez, acusam a Netflix de não informar se registrou boletim de ocorrência e de não colaborar com a polícia de Los Angeles depois que eles próprios registraram o caso.
Afram já tinha ido à Justiça por causa do mesmo filme. Em 2023 processou Martin Scorsese, alegando que o diretor recebeu US$ 500 mil para constar como produtor executivo e depois não ajudou a viabilizar o projeto. As partes fecharam acordo fora dos tribunais no ano seguinte, conforme a Variety.
O que isso tem a ver com o cinema brasileiro
O caso escancara um ponto cego do mercado atual. O produtor independente que quer vender o filme precisa mostrá-lo antes, e quem assiste primeiro costuma ser a mesma meia dúzia de plataformas que decide o destino comercial da obra. A cópia sai da mão de quem pagou a conta e passa a depender do cuidado de quem talvez nem compre.
Para o produtor brasileiro, a lição é de rotina, e é barata. Cópia inédita só circula criptografada, com chave de prazo curto e registro de quem abriu o arquivo. Custa pouco perto de um orçamento de produção, e é a barreira mais concreta entre um filme pronto e um torrent.
O pano de fundo é o mesmo que a casa vem acompanhando: a concentração do poder de compra nas plataformas, que ainda discutem no Congresso quanto vão pagar por ano ao audiovisual brasileiro, no projeto da lei do streaming parado no Senado. Do outro lado da mesma conta está a fragilidade de quem depende da janela de estreia para recuperar dinheiro, seja no épico de bilheteria de Christopher Nolan, seja no filme nacional que não emplaca nas salas.
Um HD sumiu de uma mesa e levou junto, pela conta dos autores, pelo menos US$ 105 milhões em prejuízo. A Justiça da Califórnia vai dizer quanto disso é real. Vale ficar de olho: a resposta vira régua para todo mundo que entrega um filme pronto na porta de uma plataforma.


