Netflix transforma caso de Lizzie Borden em romance lésbico na nova temporada de “Monstro”
Série estreia nesta quinta-feira com Ella Beatty e Vicky Krieps como Lizzie Borden e a empregada Bridget Sullivan; relação amorosa é parte da ficção e não tem comprovação histórica
Um dos crimes mais famosos dos Estados Unidos volta à televisão nesta quinta-feira, 17 de setembro, com uma diferença importante: na versão da Netflix, Lizzie Borden e a empregada da família são amantes.
“Monstro: A História de Lizzie Borden”, quarto capítulo da antologia criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, coloca no centro da trama a relação entre Lizzie, interpretada por Ella Beatty, e Bridget “Maggie” Sullivan, vivida por Vicky Krieps.
A temporada parte dos assassinatos de Andrew e Abby Borden, mortos a golpes de machado dentro de casa, em Fall River, Massachusetts, em 4 de agosto de 1892. Lizzie, filha de Andrew, foi acusada pelos dois crimes, julgada no ano seguinte e absolvida. Ninguém mais foi condenado e o caso permanece oficialmente sem solução.
Na série, porém, os acontecimentos ganham uma resposta própria.
A Netflix apresenta Lizzie como uma jovem sufocada pelas regras da família e Maggie como uma empregada rebelde que abre para ela uma possibilidade de vida fora daquele ambiente. As duas se envolvem sexual e afetivamente, e a relação passa a integrar a construção que a temporada faz sobre poder, liberdade e violência.
O próprio material oficial da Netflix não tenta esconder o grau de invenção. Ella Beatty conta que pesquisou extensamente a mulher real, mas define a personagem construída por Murphy e Brennan como uma versão “muito ficcionalizada” de Lizzie.
É uma distinção importante.
Lizzie e a empregada realmente tiveram um caso?
Não existe evidência histórica suficiente para afirmar que Lizzie Borden e Bridget Sullivan mantiveram uma relação amorosa.
Sullivan era uma imigrante irlandesa que trabalhava e morava na casa dos Borden. Também estava na residência na manhã dos assassinatos e seu depoimento seria importante para reconstruir as horas anteriores e posteriores às mortes.
Nada conhecido de seu testemunho no julgamento estabelece um relacionamento sexual ou romântico com Lizzie.
Isso não impediu que a ideia ganhasse espaço na cultura popular. A sexualidade de Borden virou objeto de especulação ao longo do século seguinte, alimentada também por sua proximidade, anos depois do julgamento, com a atriz Nance O'Neil. Mesmo essa relação nunca foi comprovada como amorosa.
No cinema, “Lizzie”, lançado em 2018, já havia transformado a hipótese em romance, com Chloë Sevigny como Borden e Kristen Stewart como Bridget Sullivan.
“Monstro” agora leva uma interpretação semelhante para uma produção de alcance global da Netflix.
Na versão de Murphy e Brennan, Maggie não aparece apenas como interesse amoroso. O trailer sugere que ela influencia diretamente a transformação de Lizzie e chega a incentivar sua revolta contra os pais.
Ou seja, a série não está apresentando uma nova descoberta histórica sobre o caso Borden. Está escolhendo uma das possibilidades criadas posteriormente em torno de uma história que nunca foi totalmente esclarecida e usando-a como elemento dramático.
Ryan Murphy volta ao true crime
A temporada sucede histórias sobre Jeffrey Dahmer, os irmãos Menendez e Ed Gein, mas muda uma característica importante da antologia: Lizzie Borden nunca foi condenada pelos crimes que a tornaram famosa.
Ella Beatty lidera o elenco ao lado de Vicky Krieps. Charlie Hunnam interpreta Andrew Borden e Rebecca Hall vive Abby Borden. Billie Lourd aparece como Emma, irmã mais velha de Lizzie, enquanto Jessica Barden interpreta a atriz Nance O'Neil.
Sarah Paulson também participa da temporada como Aileen Wuornos, serial killer executada em 2002. A presença da personagem é usada pela série para ampliar a discussão sobre mulheres, violência e a maneira como assassinas se tornam figuras de fascínio público.
Para Beatty, esse é justamente um dos interesses da nova temporada: investigar o que poderia levar uma mulher à violência.
A Lizzie Borden real morreu em 1927, mais de três décadas depois de deixar o tribunal como uma mulher absolvida. A ausência de uma solução definitiva para os assassinatos ajudou a transformar sua história em livros, filmes, peças, musicais e teorias que continuam sendo revisitadas mais de 130 anos depois.
A partir desta quinta-feira, a Netflix acrescenta mais uma versão a essa lista. Nela, o romance entre Lizzie e Maggie é real. Fora da tela, continua sendo uma hipótese sem comprovação.



