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Louis Jouvet levou ao Municipal do Rio, em 1941, uma turnê paga pelo governo de Vichy

Louis Jouvet levou ao Municipal do Rio, em 1941, uma turnê paga pelo governo de Vichy
Foto: Studio Harcourt/Wikimedia Commons (domínio público)

Louis Jouvet morreu em Paris em 16 de agosto de 1951, aos 63 anos. A data completa 75 anos em 2026. O que liga o nome dele ao teatro brasileiro são sete apresentações no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em julho de 1941.

Aquela temporada aparece nos estudos de teatro como o momento em que o palco brasileiro entendeu para que serve um encenador. A função entrara nos palcos europeus no fim do século 19 e chegou ao Brasil com quase cinquenta anos de atraso, escreve a antropóloga Heloisa Pontes, da Unicamp, em artigo publicado na revista Pro-Posições em 2006. Em dezembro de 1943, o Rio veria Vestido de Noiva.

A viagem foi paga pelo governo de Vichy, que administrava a França sob a ocupação alemã. A turnê saiu da Europa como propaganda cultural francesa. Só mais tarde passou a ser sustentada pelas forças da Resistência.

Sete noites de julho de 1941

Jouvet deixou a Europa em 6 de junho de 1941. Embarcou em Lisboa com outras 25 pessoas, entre atores e técnicos, e 34 toneladas de material. Vinte dias depois chegava ao Rio.

A estreia foi em 7 de julho, com L'École des femmes, de Molière. O silêncio da plateia foi lido pelos atores como indiferença e desfeito por uma avalanche de aplausos, conta Pontes. Knock, de Jules Romains, veio no dia 9. No dia 14 entraram três peças curtas na mesma noite: La jalousie du Barbouillé, de Molière, La folle journée, de Emile Mazaud, e La coupe enchantée, de La Fontaine. Depois vieram Ondine, de Jean Giraudoux, no dia 16; Monsieur Le Trouhadec saisi par la débauche, de Romains, no dia 19; Electre, de Giraudoux, no dia 22; e La guerre de Troie n'aura pas lieu, do mesmo autor, no dia 25.

Sete apresentações no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, praticamente dia sim, dia não. Todas em francês.

O que a plateia carioca não tinha visto antes

A diferença estava no modo como aquelas peças chegavam ao palco.

Na descrição do crítico Décio de Almeida Prado, citada por Pontes, o espetáculo brasileiro se organizava "das partes para o todo". Cada ator resolvia o próprio papel, e o conjunto saía do encontro das soluções. Cacilda Becker, que estreava naquele mesmo 1941, contou depois que os atores não recebiam o texto da peça, apenas folhas soltas com as próprias falas, e que se montava peça de 15 em 15 dias.

"Jamais tínhamos visto uma conjunção tão perfeita entre texto, interpretação e montagem", escreveu Gustavo Dória, integrante do grupo amador Os Comediantes, em texto publicado na revista Dionysos em 1975 e reproduzido no artigo de Heloisa Pontes.

Quem assinava o cheque

Jouvet explicava a saída da França pelo lado profissional.

"Eu a deixei porque me proibiram de encenar dois dos meus autores: Jules Romains e Jean Giraudoux", escreveu ele em Prestiges et perspectives du théâtre français, conferência publicada em Paris em 1945, em trecho traduzido por Heloisa Pontes.

A explicação deixava de fora quem bancava a viagem. As temporadas de 1941 e 1942 foram patrocinadas pelo governo de Vichy, com algo em torno de um milhão de francos, estimativa do historiador Denis Rolland em livro de 2000, resumida por Pontes. O dinheiro passou pela AFAA, a Association Française d'Action Artistique, ligada aos ministérios das Relações Exteriores e da Educação Nacional. Foi a AFAA que deu início às tratativas para a saída dos homens da companhia. Sob a ocupação, homens entre 17 e 40 anos estavam proibidos de deixar o país.

O apagamento começou cedo. Em fevereiro de 1943, o organizador da turnê, Marcel Karsenty, deu entrevista ao jornal colombiano El Bogotá inscrevendo a viagem no registro da resistência, sem mencionar o patrocínio. Em 1945, de volta a Paris, Jouvet fez a conferência que consolidou essa versão. O trabalho de arquivo de Rolland refez a conta.

Nem tudo correu bem no continente. Em artigo de 1995, Rolland registra o boicote dos comitês da França Livre, já perceptível em São Paulo e declarado em Buenos Aires e Montevidéu. Quando o dinheiro oficial secou, depois de 1942, foram membros dos comitês da Resistência que passaram a oferecer ajuda material e logística, escreve Pontes. Em janeiro de 1944, Jouvet recebeu dez mil dólares do general De Gaulle. Chegou a Paris em 18 de fevereiro de 1945 e foi recebido como herói. Para Pontes, não cabe a Jouvet a pecha de colaboracionista, e ainda assim ele serviu a Vichy.

O que ficou quando a companhia seguiu viagem

Em 6 de julho de 1941, véspera da estreia francesa, desembarcou no Rio outro homem em fuga da guerra: o polonês Ziembinski. Não falava português e não conhecia ninguém na cidade. Passou aqui o resto da vida.

Na segunda temporada, em 1942, Jouvet morou sete meses no Rio e recebia os amadores de Os Comediantes no próprio apartamento. O conselho que deu virou ideia fixa do grupo. Sem autor brasileiro, não haveria renovação nenhuma.

O autor apareceu. Em dezembro de 1943, Os Comediantes estrearam Vestido de Noiva, texto de Nelson Rodrigues, com direção de Ziembinski e cenário de Santa Rosa. Pontes registra que os estudiosos do assunto tratam a montagem como uma espécie de marco zero do teatro moderno brasileiro.

Uma integrante da companhia francesa não seguiu adiante. Henriette Morineau vivia no Rio desde 1931, proibida de atuar pelo marido, e foi apresentada a Jouvet depois de uma conferência dele na sede da Associação Brasileira de Imprensa. Entrou para a segunda temporada, estreou no Municipal em Léopold le bien aimé, de Jean Sarment, e partiu com a filha de nove anos.

Em Lima, o marido ameaçou por carta tomar a guarda da menina. Morineau voltou ao Rio. Representou em português pela primeira vez em 1944, na companhia de Bibi Ferreira, e esteve à frente de Os Artistas Unidos de 1946 a 1959. Foi ali, em 1953, que Fernanda Montenegro deu a guinada para a profissionalização.

"Ela me fez ver que eu tinha encontrado uma profissão qualificada, disciplinada, consequente", disse Fernanda Montenegro em depoimento transcrito no livro de Lúcia Rito, na edição de 1995 citada por Pontes.

A companhia seguiu viagem pelo continente e Morineau ficou. Formou atores, dirigiu, montou grupo próprio e morreu em 1990, no país onde desembarcara em 1931 para se casar. A temporada de Jouvet no Rio durou sete noites de julho, pagas por um governo que não sobreviveu à guerra. O que elas ensinaram continuou em cena depois que o dinheiro sumiu.

MemóriaRedação Foyer

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