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Voguing: 20 anos sem Willi Ninja, e a cultura ballroom virou curso no Sesc Consolação

Voguing: 20 anos sem Willi Ninja, e a cultura ballroom virou curso no Sesc Consolação
Foto: Isabelle B83/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Willi Ninja fotografado em Nova York em 9 de julho de 1994

O padrinho do voguing morreu com um projeto de teatro em cima da mesa. Jennie Livingston, que dirigiu Paris Is Burning, contou à Associated Press que Willi Ninja tinha acabado de se encontrar com um diretor de teatro. O assunto era coreografar uma versão de palco do documentário, na Broadway ou fora dela. Não deu tempo. Ninja morreu em 2 de setembro de 2006, um sábado, aos 45 anos, de doenças relacionadas à aids, no New York Hospital Medical Center of Queens, segundo o obituário publicado pelo jornal Windy City Times.

Ele nasceu William Leake, em 12 de abril de 1961, e cresceu no Queens. O espetáculo nunca saiu. A casa saiu. Na cultura ballroom, entrar para uma família dessas significa somar o nome dela ao próprio, e a House of Ninja, fundada por ele em meados dos anos 1980, segundo Livingston, continua batizando gente. Inclusive em São Paulo.

O que ele levou para fora do baile

Ninja aprendeu sozinho. A Associated Press descreve um artista autodidata, inspirado em Fred Astaire, no programa Great Performances da PBS, na cultura asiática e em ginastas olímpicos, que emendou uma carreira de retalhos entre dança, moda e música. Ensinou modelos e socialites a posar para os fotógrafos. Dançou para plateias em Paris e em Tóquio.

O passo saiu na frente dele. Madonna usou o estilo em 1990 no disco e no clipe de Vogue, número um nas paradas. Quando Ninja morreu, ela mandou uma nota chamando-o de "uma grande influência cultural para mim e para centenas de milhares de outras pessoas", registrou o Windy City Times.

Dentro da cena, a conta é outra.

"Willi era uma pessoa extraordinária, que mostrou à comunidade ballroom que o talento dela podia ser exibido fora do ambiente em que ela vive, que o trabalho dela podia ser validado no 'mundo real' tanto quanto na própria ballroom", disse Tommy Avant Garde, pai da House of Avant Garde, de Chicago, ao Windy City Times, em tradução da redação.

O que é uma casa, e por que o sobrenome pega

A Associated Press resolveu a estrutura em uma linha, dentro do próprio obituário. Quem participa dos bailes é conhecido como filho de casas, famílias improvisadas que muitas vezes servem de abrigo diante da homofobia, da pobreza e do racismo.

Quem faz a cena no Brasil define com mais precisão. Num ensaio publicado em 2022 na Revista Observatório do Itaú Cultural, a Casa de Candaces registra que as casas são estruturas simbólicas, e não casas físicas. São coletivos de pessoas com laços de afeto e parentesco platônico, tendo mães, pais, filhas, filhos e filhes como base. Ball é o evento em que essas casas competem em categorias de performatividade de gênero e identidade sexual, moda, atributos físicos e vogue. A ballroom se divide em duas cenas. A mainstream é a mais antiga, feita de casas internacionais; a kiki é a menor e mais fluida, e foi a primeira forma de organização das casas no Brasil.

A hierarquia tem função prática. Mãe e pai acolhem, orientam e compartilham técnica, e o ensaio anota que esse poder se adquire com anos de trabalho pela cena. O vocabulário já chegou ao palco paulistano por outras portas. Está na direção de movimento que soma hip hop, waacking e ballroom em Mural da Memória e nas coreografias de Priscilla, que passam pelos ballrooms da clandestinidade.

O Ninja que dá aula no Sesc Consolação

O sobrenome aparece por extenso na lista de autores daquele ensaio do Itaú Cultural: Prince Yaguarete Candace Ninja, Puri Santos. A biografia publicada ali diz que ele nasceu em Barra Mansa, no interior do Rio de Janeiro, e começou pela arte de rua. Construiu o próprio palhaço, depois se especializou em teatro físico, circo e performance. Chegou à ballroom em 2016, no BH Vogue Fever. Hoje mora em São Paulo.

Em 31 de maio de 2026, o Sesc São Paulo publicou uma reportagem sobre o curso Corporeidades Ballroom. Ele foi realizado no Centro de Pesquisa Teatral do Sesc Consolação e ministrado por Eva Bessa e Puri Yaguarete.

"Uma coisa muito semelhante entre o teatro e a Ballroom é esse corpo presente. Quando eu entro no espaço, ele ganha outra dimensão", diz Puri Yaguarete ao Sesc São Paulo.
"Dentro da Ballroom a gente aciona uma persona. Quando estou batalhando, preciso sustentar uma presença, uma postura, uma confiança. Tem uma teatralidade ali", afirma Eva Bessa na mesma reportagem.

A trilha institucional é mais longa que o curso. Em setembro de 2025, Puri Yaguarete esteve entre os artistas da instalação Cosmologias Ballroom, na 14ª Bienal Sesc de Dança, no Sesc Campinas. A mostra tinha nascido em 2024 no Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro, com curadoria de Diego Pereira e Flip Couto. A programação daquela reabertura incluiu uma mainstream ball realizada pela Legendary House of Lauren em colaboração com a Iconic House of Ninja. A casa que Willi Ninja fundou em Nova York entrou na conta de uma instituição de arte carioca. O teatro brasileiro já vinha sendo ocupado por corpos que a cena empurrava para fora, como fez Renata Carvalho em Antígona Travesti.

O que a cena junta, e o que ela não promete

O dinheiro do baile é curto e sai da própria mesa. No ensaio do Itaú Cultural, juntar o dinheiro dos prêmios aparece como tarefa das casas, ao lado de organizar as balls e de bancar as batalhas contra outras casas. Quando uma instituição entra, o valor ganha nome. A programação anunciada para o lançamento da mostra no Solar dos Abacaxis previa doze categorias, sete jurados e, para quem vencesse cada uma, um troféu e R$ 500, segundo a agenda da revista Dasartes.

A própria comunidade avisa. No mesmo ensaio do Itaú Cultural, a Legendary Mother Zaila Candace pede que ninguém trate a cena como salvação.

"O que eu trago aqui é realmente não romantizar e esperar que a ballroom vai salvar todo mundo, que vai acolher todo mundo a todo momento", escreve a Legendary Mother Zaila Candace.

Willi Ninja morreu com um projeto de teatro em aberto, em Nova York. Vinte anos depois, quem foi atrás da cultura dele foi uma sala de pesquisa teatral em São Paulo.

MemóriaRedação Foyer

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