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Gene Wilder, o Willy Wonka de 1971, chegou ao cinema por um Brecht de 52 noites

Gene Wilder, o Willy Wonka de 1971, chegou ao cinema por um Brecht de 52 noites
Foto: Towpilot/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0), outubro de 1984

Gene Wilder morreu em 29 de agosto de 2016, aos 83 anos. Em 29 de agosto de 2026 a data completa dez anos. No Brasil, o rosto dele é o de Willy Wonka, dono da fábrica de chocolate do filme de 1971, e quase só isso.

A porta de entrada dele no cinema foi um palco. Em 28 de março de 1963, Wilder estreou como capelão numa montagem de Mother Courage and Her Children, no Martin Beck Theatre, na rua 45, em Nova York. Papel coadjuvante, temporada de 52 apresentações. A protagonista era Anne Bancroft, e o namorado dela era um roteirista chamado Mel Brooks.

Segundo o obituário assinado por Ronald Bergan no The Guardian, foi nessa temporada que Brooks prometeu a Wilder um papel num filme que ainda pretendia escrever. Brooks nunca tinha dirigido um longa. Quatro anos depois, a promessa virou Leo Bloom.

Um papel de 52 noites, e a promessa que veio junto

A ficha da produção está no Playbill Vault. A primeira prévia foi em 25 de março de 1963, e a estreia, três dias depois, no Martin Beck Theatre, no número 302 da rua 45 oeste. A temporada fechou em 11 de maio, com 52 apresentações e quatro prévias.

Era gente grande em volta. O texto é de Bertolt Brecht, na tradução de Eric Bentley, com música de Paul Dessau. A encenação leva a assinatura de Jerome Robbins, que também produziu ao lado de Cheryl Crawford. O cenário é de Ming Cho Lee e a luz, de Tharon Musser. Wilder aparece na ficha numa linha só: Gene Wilder, Chaplain, elenco original.

A montagem concorreu a quatro Tony em 1963, entre eles o de melhor peça, e não levou nenhum. Wilder não estava entre os indicados.

De Bristol ao Actors Studio, com um prêmio de novato no meio

Ele nasceu Jerome Silberman, em Milwaukee, no dia 11 de junho de 1933, e começou a atuar aos 13 anos.

"Eu achava que a única atuação que existia era a do teatro. Eu queria ser ator desde que vi Lee J Cobb em Death of a Salesman", disse Wilder ao The Guardian, em tradução da redação.

Formou-se em comunicação e artes cênicas na Universidade de Iowa e atravessou o Atlântico para estudar na Bristol Old Vic Theatre School. O método inglês não o convenceu. Voltou a Nova York e foi aceito, entre milhares de candidatos, na classe de Lee Strasberg no Actors Studio, conta o mesmo obituário.

A estreia off-Broadway veio em 1960, em Roots, de Arnold Wesker. A da Broadway, no ano seguinte. The Complaisant Lover, de Graham Greene, estreou em 1º de novembro de 1961 no Ethel Barrymore Theatre e fez 101 apresentações até 27 de janeiro de 1962. Wilder fazia o valete do hotel, ao lado de Michael Redgrave e Googie Withers, e o papel lhe rendeu o prêmio Clarence Derwent de revelação em função coadjuvante.

Quando Brooks apareceu, portanto, Wilder era um ator de teatro premiado e sem um único filme no currículo.

O cinema pagou a promessa e ficou com ele por trinta anos

O catálogo do American Film Institute dá The Producers como lançado em 22 de novembro de 1967, na estreia de Pittsburgh, depois da première mundial na Filadélfia. Nova York só viu o filme em 18 de março de 1968. Daí os dois anos que circulam na ficha. No Brasil ele se chama Primavera para Hitler.

Zero Mostel faz Max Bialystock, produtor falido da Broadway. Wilder faz Leo Bloom, o contador que percebe que um fracasso bem financiado rende mais que um sucesso. Era o primeiro papel principal de Wilder e a estreia de Brooks na direção de longa, registra o AFI, com base numa reportagem do New York Times de 3 de setembro de 1967. Antes só aparecera em Bonnie e Clyde, do mesmo ano. Brooks levou o Oscar de roteiro original. Wilder foi indicado como ator coadjuvante.

O teatro continuou dentro do set. Os números musicais foram rodados no Playhouse Theatre, na rua 48, casa vendida durante a produção e já marcada para demolição. Springtime for Hitler, o espetáculo inventado por Brooks, virou a última produção montada naquele palco, segundo o mesmo catálogo. No roteiro, o plano dos dois protagonistas é fugir com o dinheiro dos investidores para o Rio de Janeiro.

Depois do filme, o palco parou. A ficha de Wilder no Playbill Vault lista seis produções da Broadway. Três são de 1963 e 1964: Mother Courage, o Billy Bibbit da estreia de One Flew Over the Cuckoo's Nest, em novembro de 1963, e seis personagens em The White House, em maio de 1964. O último trabalho dele como ator na Broadway foi Luv, em que entrou de substituto no papel de Harry Berlin, em 13 de junho de 1966. O nome só volta ao Vault em 2007, e como autor: o musical Young Frankenstein credita a ele a história e o roteiro de origem.

Trinta anos se passaram até o reencontro. Em 1996, Wilder estava em Londres para estrelar Laughter on the 23rd Floor, de Neil Simon, e foi nessa passagem que deu a entrevista aproveitada no obituário. O jornal descreve o momento como uma volta ao palco, "seu primeiro amor", depois de muitos anos de cinema.

"Provavelmente sou saudável demais do ponto de vista emocional. Naquela época eu tinha medo da minha própria sombra, tinha medo da vida. Quando minha vida se ajeitou, os papéis mudaram", disse ele ao The Guardian, em tradução da redação, sobre não conseguir mais fazer personagens do tipo de Leo Bloom.

O papel de Leo Bloom fala português desde 2007

Brooks transformou o próprio filme em musical de teatro. The Producers estreou na Broadway em 19 de abril de 2001, no St. James Theatre, com música e letra dele e livro escrito com Thomas Meehan, e ficou naquela casa até 22 de abril de 2007, informa o AFI.

Foi em 2007 também que o musical chegou ao Brasil, pelas mãos de Miguel Falabella. A montagem passou por São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro. Teve Juliana Paes e Vladimir Brichta no elenco e levou mais de 200 mil pessoas ao teatro.

A remontagem veio dez anos depois. Em abril de 2018, Os Produtores reabriu no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, com Falabella na direção e no papel de Max Bialystock. O papel de Wilder ficou com o humorista Marco Luque, que estreava no gênero. Danielle Winits fez Ulla, e Sandro Christopher, Roger De Bris. Em seguida a produção foi para o Vivo Rio, onde ficou de 13 a 29 de julho de 2018.

De lá para cá, a redação não localizou nova montagem brasileira do título.

O contador que Wilder inventou continua em cartaz sem ele, e já falou português em quatro cidades. O capelão de 52 noites ninguém remontou. Foi ele que abriu a porta.

MemóriaRedação Foyer

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