“Les Misérables”: qual é a história e por que não se passa na Revolução Francesa?
A trajetória de Jean Valjean atravessa a França do século XIX; as barricadas remetem à insurreição parisiense de junho de 1832
As barricadas de “Les Misérables” não pertencem à Revolução Francesa de 1789. A revolta retratada no musical remete à insurreição republicana de junho de 1832, em Paris. Entre os dois acontecimentos há mais de quatro décadas e mudanças de regime que ajudam a entender o mundo das personagens.
A história acompanha Jean Valjean, um homem marcado pela prisão e pela dificuldade de reconstruir a vida depois dela. Ao seu redor, Victor Hugo reuniu pobreza, exploração, cuidado e conflitos sobre o que significa fazer justiça. O romance foi publicado em 1862; o musical de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg condensou aquele universo para o palco.
O ponto de partida da narrativa musical é 1815. Valjean sai da prisão depois de uma longa pena iniciada pelo furto de pão e ampliada por tentativas de fuga. A liberdade não o livra da condição social de ex-presidiário.
Um encontro com um bispo abre a possibilidade de mudança. O gesto de confiança que recebe passa a confrontá-lo com a escolha de como agir. Javert, o policial que acompanha seu percurso, sustenta outra relação com a lei: para ele, a identidade do condenado não se desfaz tão facilmente.
Quem são as personagens centrais?
Fantine tenta garantir a sobrevivência da filha, Cosette, num mundo em que perder trabalho e proteção pode produzir consequências devastadoras. Sua trajetória conecta a experiência individual à estrutura social que o título da obra anuncia.
Cosette cresce sob os cuidados de Valjean. Marius pertence a uma geração que encontra nas ideias republicanas e nos vínculos de amizade motivos para agir. Éponine, por sua vez, atravessa a história a partir de outro lugar social e afetivo. Os Thénardier exploram situações e pessoas em benefício próprio.
Esses caminhos se aproximam das barricadas, mas o musical não começa como uma história exclusivamente sobre a revolta. A insurreição passa a atravessar relações que já vinham sendo construídas.
O que aconteceu em 1832?
Depois da Revolução de Julho de 1830, Luís Filipe assumiu o trono francês. Republicanos continuaram insatisfeitos com a monarquia, num ambiente de desigualdade e tensão política.
Em junho de 1832, o funeral do general Jean Maximilien Lamarque, associado à oposição, tornou-se um ponto de concentração. A insurreição dos dias 5 e 6 foi reprimida. É esse episódio que serve de referência para a revolta representada em “Les Misérables”.
Convém separar acontecimento e personagens. Valjean, Javert e os jovens acompanhados pela narrativa pertencem à ficção de Hugo. A obra os coloca num contexto histórico sem transformar cada cena numa reconstituição documental.
Nas barricadas, o ideal coletivo encontra as escolhas individuais de Valjean, Marius e Javert. Saber que a revolta foi reprimida em 1832 ajuda a compreender o risco daquelas decisões: os personagens agem sem a garantia de que a cidade irá acompanhá-los.
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