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Martin Guerre, o terceiro musical dos autores de Les Misérables, ganha nova versão no Old Vic de Londres

Martin Guerre, o terceiro musical dos autores de Les Misérables, ganha nova versão no Old Vic de Londres
Foto: Rosmarie Voegtli/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Depois de Les Misérables e Miss Saigon, os franceses Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg assinaram um terceiro grande musical que nunca alcançou o mesmo destino dos dois primeiros. Martin Guerre, obra de 1996 marcada por reescritas em série, volta a Londres numa versão remontada pelo Old Vic. O teatro anunciou em 16 de julho que a montagem, dirigida por Matthew Warchus, fica em cartaz de 1º a 31 de outubro de 2026, em formato semiencenado e com a plateia em volta do palco, com a noite destinada à crítica marcada para 20 de outubro.

Para o público que acompanha musicais, é a chance de reencontrar um título que quase não circula fora do mundo de língua inglesa, escrito pela dupla por trás de dois dos maiores sucessos do gênero. Boublil e Schönberg emplacaram Les Misérables e Miss Saigon nos anos 1980, ambos produzidos por Cameron Mackintosh e transformados em fenômenos de longa duração no West End e na Broadway. Martin Guerre era para ser o próximo passo dessa parceria. Foi outra história.

Uma trama de identidade trocada

Baseado num caso real da França do século 16 e no filme O Retorno de Martin Guerre, de 1982, o musical se passa numa aldeia rural francesa. A jovem Bertrande é casada à força com Martin Guerre, que acaba abandonando a mulher e o vilarejo. Anos depois, um homem chega dizendo ser Martin, agora um marido mais gentil e amoroso. A dúvida sobre quem ele realmente é move a história, atravessada pela intolerância religiosa entre católicos e protestantes que incendiava a Europa da época.

O enredo, com sua mistura de romance, farsa e tragédia coletiva, tinha tudo para render outro épico cantado nos moldes de Les Misérables. A recepção, porém, foi bem mais acidentada.

O musical que não parava de ser reescrito

Martin Guerre estreou em 10 de julho de 1996 no Prince Edward Theatre, em Londres, numa produção de Cameron Mackintosh dirigida por Declan Donnellan. Nas primeiras semanas, a equipe criativa seguiu remexendo no espetáculo: cortou canção, reorganizou cenas, encurtou o começo e deslocou o foco para a personagem de Bertrande. Para fazer mudanças mais radicais, a produção chegou a fechar por alguns dias, no fim de outubro daquele ano, e reabriu em novembro numa versão completamente revista.

A reforma deu resultado na crítica. O espetáculo revisado ganhou o prêmio Olivier de melhor musical em 1997, ao lado do prêmio de melhor coreografia. Ainda assim, teve vida mais curta que os dois antecessores e encerrou a temporada londrina em fevereiro de 1998, após 675 apresentações. A obra passaria por novas reescritas para uma turnê britânica em 1999, montada a partir do West Yorkshire Playhouse, em Leeds, e para uma passagem pelos Estados Unidos, no Guthrie Theater, em Minneapolis. Poucos musicais de grande porte foram tão retrabalhados pelos próprios autores.

O que muda na versão do Old Vic

A montagem de 2026 não repõe a versão antiga. O Old Vic anuncia uma releitura, com nova música, novas letras e orquestrações de sotaque folclórico. As letras inéditas são assinadas por Boublil, Annabel Mutale Reed e Paul Hodge, somadas às já existentes, de Boublil e Stephen Clark. O time criativo reúne Rob Howell no cenário e figurinos, Lizzi Gee na coreografia, Hugh Vanstone, Luca Panetta e Toby Ison na iluminação, Fergus O'Hare no som, Tom Curran nas orquestrações e Chris Poon na supervisão musical. O elenco será divulgado mais adiante.

A escolha do formato conta parte da intenção. Em vez do maquinário pesado das grandes produções, o teatro aposta numa encenação semiencenada e em círculo, com o público cercando a ação, o tipo de arranjo íntimo que costuma expor o esqueleto dramatúrgico de um musical. É também uma das peças da temporada que marca a saída de Matthew Warchus da direção do Old Vic, casa que vende a montagem como o retorno de uma premiada obra dos autores de Les Misérables, agora reimaginada.

Por que isso interessa daqui

Les Misérables e Miss Saigon são referências para qualquer plateia de musical, mas Martin Guerre ficou de fora desse repertório, mais preso ao circuito de língua inglesa. Acompanhar a remontagem londrina é observar, quase em tempo real, uma tentativa de acertar as contas com um musical que sempre pareceu a um passo de dar certo. Se a nova leitura convencer, pode reabrir caminho para o título em outros países. Enquanto isso, quem segue lançamentos internacionais tem outras estreias para ficar de olho, do West End aos revivals que Londres vem anunciando para as próximas temporadas.

Os ingressos entraram à venda em julho, primeiro para membros do Old Vic e depois ao público geral. As demais informações de elenco e horários devem sair nas próximas semanas.

NotíciaRedação Foyer

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