Como García Lorca morreu: fuzilado em 1936, e o corpo nunca apareceu
Federico García Lorca pisou o Brasil duas vezes, e as duas foram no Rio de Janeiro. Em 9 de outubro de 1933, a caminho de Buenos Aires, o transatlântico Conte Grande parou algumas horas no porto carioca. Em 30 de março de 1934, já de volta para a Espanha, foi a vez do Conte Biancamano. Quem foi recebê-lo, nas duas escalas, era estrangeiro.
Alfonso Reyes, embaixador do México no Brasil, levou o poeta e o cenógrafo Manuel Fontanals para andar pelas ruas cariocas e ver a Baía de Guanabara. Nenhum escritor brasileiro apareceu. O registro está em Lorca y Brasil, estudo de Antonio Maura publicado em 2019 pela Revista de Estudios Brasileños, da Universidad de Salamanca. A revista apresenta o autor como diretor do Instituto Cervantes do Rio de Janeiro.
Oito anos depois de morto, ele voltaria ao Rio pelo palco: Bodas de Sangue, traduzido por Cecília Meireles e dirigido por Dulcina de Moraes. Em 18 de agosto de 2026 completam-se 90 anos da madrugada em que foi fuzilado perto de Granada. É uma data que documento nenhum assinou, e o corpo continua sem aparecer.
Doze horas de cidade, e ninguém no cais
Não faltavam escritores no país. Entre 1933 e 1934 estavam em plena atividade Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, José Lins do Rego, Jorge Amado, Cândido Portinari e Gilberto Freyre. Maura é seco: nenhum dos que viviam ou estavam no Rio foi receber Lorca nem conversou com ele. Simplesmente não o conheciam. O único brasileiro com quem teve contato na viagem, Austregésilo de Athayde, foi apresentado a ele em Buenos Aires.
Da segunda passagem sobrou uma nota de jornal. Reyes levou os dois espanhóis à redação de A Noite, e o vespertino publicou no dia seguinte um texto sem assinatura, reproduzido na íntegra pelo estudo. A nota erra o nome do cenógrafo, que virou Manuel Fontanales, e trata o visitante com a cortesia de quem não o leu.
"García Lorca tem lugar destacado entre os poetas festejados da nova geração de sua pátria", dizia a nota sem assinatura do vespertino carioca A Noite, em 1934, reproduzida no estudo de Antonio Maura.
Era isso. Nenhuma entrevista, nenhuma leitura, nenhum encontro literário. Dois anos depois ele estava morto.
A morte fez a apresentação
O nome dele chegou ao leitor brasileiro pela notícia do assassinato. Em 1937, Drummond escreveu sobre o espanhol no Boletim de Ariel e não escondeu o atraso.
"García Lorca, desconhecido do nosso público, só chegou até nós por essa informação rápida do assassinato do poeta pelos fascistas de Granada", escreveu Carlos Drummond de Andrade no Boletim de Ariel, em 1937, em trecho reproduzido pelo estudo de Antonio Maura.
A virada veio em 1944, e veio pelo palco. A companhia Dulcina e Odilon, que a atriz mantinha desde 1934 com o marido, o ator Odilon Azevedo, estreou no Rio Bodas de Sangue, com direção e atuação de Dulcina de Moraes. A tradução era de Cecília Meireles. No mesmo ano a revista Leitura dedicou um número ao poeta assassinado, com textos de Mário de Andrade, Rachel de Queiroz, da tradutora e da própria Dulcina.
Aquele grupo reivindicava Lorca contra Franco e contra Getúlio Vargas, em pleno Estado Novo. A escolha tinha lastro: o poeta havia se filiado à recém-criada Asociación de Amigos de América del Sur, dedicada a combater as ditaduras de Cuba e do próprio Vargas.
"Nos falta sentimento de classe, nos falta solidariedade coletiva, nos falta confiança na idéia. [...] Por isso não percebemos que com o assassinato de Lorca sofríamos também uma espécie de morte", escreveu Mário de Andrade na revista Leitura, em 1944.
Cecília Meireles usou o mesmo número para avisar contra o atalho. Pediu que a homenagem não servisse para "amesquinhar a memoria do poeta, e suas virtudes literárias", reduzindo o morto a "uma espécie de mera vítima política".
O repertório que ficou
Cecília traduziu também Yerma. A Casa de Bernarda Alba passou ao português do Brasil em 1968, por Clarice Lispector em parceria com Tati de Moraes, numa versão que nunca foi publicada. O datiloscrito está na Fundação Casa de Rui Barbosa. Maura, que o cotejou, diz que a tradução chegou a ser encenada.
Oitenta e dois anos depois da estreia carioca, o texto segue rendendo palco. Em junho de 2026 a Compañía Antonio Gades apresentou Bodas de Sangre no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 19 a 21. Em São Paulo foram os dias 23 e 24, no Teatro Bradesco. No circuito paulistano, Yerma virou releitura performática com elenco marcado por vivências evangélicas.
A data que os papéis não fixam
Maura, seguindo o biógrafo Ian Gibson, situa a morte numa madrugada de 18 de agosto de 1936, junto a um olival além do barranco de Víznar, no caminho de Alfacar. Com o poeta foram fuzilados dois bandarilheiros e um professor. Essa é a data que o mundo marca, e ela não é unânime. Em texto publicado em 18 de agosto de 2023, a revista literária espanhola Zenda registrou que a maioria das fontes situa a morte no dia 18, embora haja teorias que apontem o dia 19.
O papel oficial não desempata. A certidão de óbito que a família obteve em 1940, para resolver herança e direitos autorais, não fixa dia nenhum. Registra que ele morreu em agosto de 1936 em consequência de "feridas produzidas por fato de guerra", e que o cadáver foi encontrado no dia 20 na estrada de Víznar a Alfacar. O texto está reproduzido pelo Centro Virtual Cervantes, do Instituto Cervantes. No cartório, o fuzilamento virou baixa de guerra.
Faltaria o corpo para resolver a conta, e ele não aparece. Duas buscas pela vala terminaram em nada: a de 2009, junto ao monólito do Parque García Lorca, em Alfacar, e a de 2016, ao lado do campo de futebol. Uma terceira campanha estava prevista para 2023 entre Víznar e Alfacar, com os trâmites abertos, escreveu Gabriel Pozo Felguera no El Independiente de Granada em agosto de 2022. No barranco, as exumações somavam 93 vítimas em setembro de 2023, em três fases, 44 na última. Dirige o trabalho o professor Francisco Carrión, da Universidade de Granada, com 100 mil euros do Ministério da Presidência espanhol e 70 mil da Junta de Andalucía. A Junta publica os informes arqueológicos de 2021 a 2024.
Nenhuma dessas campanhas devolveu o poeta. Onde os restos foram jogados segue sendo um mistério, escreve Zenda, que atribui parte disso à recusa dos familiares a uma exumação. O Brasil demorou a ir ao cais e nunca mais largou o repertório. Do outro lado do Atlântico a conta continua aberta: a data que se marca em 18 de agosto é a que os pesquisadores fixaram, e o barranco ainda não devolveu Lorca.



