Depois de Edimburgo, solo sobre a morte volta à capela de cemitério onde nasceu, com 20 lugares por sessão
Indicado ao Prêmio APCA 2025 de melhor atriz, "Queda de Baleia ou Canto para Dançar com Minha Morte" fica em cartaz na Capela do Cemitério do Redentor de 26 de setembro a 25 de outubro.
O espetáculo acontece dentro de um cemitério, cabem 20 pessoas por sessão e o assunto é aquele que quase ninguém quer tratar. "Queda de Baleia ou Canto para Dançar com Minha Morte", solo de Bruna Longo com codireção de Vitor Julian, volta a São Paulo depois de passar pelo Edinburgh Festival Fringe, na Escócia. A temporada será na Capela do Cemitério do Redentor, no Sumaré, e vai até 25 de outubro, aos sábados e domingos, às 19h. Os ingressos custam R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), pela Sympla.
O trabalho foi indicado ao Prêmio APCA 2025 na categoria de melhor atriz, cumpriu três temporadas no mesmo endereço entre 2025 e 2026 e integrou a Virada Cultural de São Paulo em maio. Em outubro, segue para o Festival de Artes Vivas, em Cali, na Colômbia.
A burocracia no lugar do rito
A obra nasceu da morte do pai da atriz, em julho de 2022, e do vazio que veio depois. "O que se seguiu foram dias de burocracias em bancos, cartórios, seguros. Dias que viraram semanas, meses", escreve Bruna Longo na apresentação do espetáculo. "Nenhum convite a qualquer rito de passagem de uma realidade a outra. De filha a órfã."
Sem uma tradição religiosa familiar a que recorrer, ela encontrou outro caminho. "Meu templo é o teatro, minha liturgia é a pesquisa artística, minha reza é a dramaturgia. E esse é o germe deste espetáculo." A estreia aconteceu em 26 de julho de 2025, três anos exatos após a morte do pai.
Em cena, a atriz parte de uma premissa invertida: ela acaba de morrer e tenta elaborar o luto de si mesma, algo que ninguém consegue fazer empiricamente. O rito cênico mistura filosofia, antropologia e teatro.
Por que paramos de falar sobre morrer
A pesquisa por trás da montagem examina o desaparecimento dos ritos fúnebres nas sociedades capitalistas ocidentais. O processo de morrer foi higienizado e burocratizado: não se morre mais em casa, mas em hospitais, e os ritos ficaram rápidos e padronizados, acompanhando o crescimento das cremações comerciais.
A atriz observa ainda um paradoxo do presente. Guerras, tragédias coletivas e epidemias são noticiadas em tempo real e viram espetáculo na indústria cultural, enquanto a morte cotidiana se tornou assunto velado. Depois de dezenas de conversas com o público ao longo das temporadas, ela chegou a uma conclusão: a necessidade de falar sobre a morte parece estar apenas aguardando um convite.
Em Edimburgo, a crítica destacou a fisicalidade e a presença de palco da atriz. O jornal The Scotsman apontou o rigor da montagem em recusar transformar o luto em uma narrativa linear ou organizada, e o British Theatre Guide descreveu a performance como comovente.
Serviço
Queda de Baleia ou Canto para Dançar com Minha Morte Capela do Cemitério do Redentor, Avenida Doutor Arnaldo, 1105, Sumaré, São Paulo
Até 25 de outubro de 2026 Sábados e domingos, às 19h Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), pela Sympla Duração: 80 minutos.
Classificação: 12 anos
Lotação: 20 lugares por sessão
Direção, dramaturgia, cenografia, figurino e atuação: Bruna Longo
Codireção e provocações dramatúrgicas: Vitor Julian



