Clarice Lispector levou este conto a um simpósio de bruxaria em 1975, e os relatos não batem
"O Ovo e a Galinha", com direção de Joana Medeiros e Ana Hartmann em cena, estreiou em São Paulo no Teatro Oficina em 19 de outubro.
São 16 apresentações, às segundas e terças, até 8 de dezembro.
Em 1975, Clarice Lispector participou do 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, e levou para ler justamente “O Ovo e a Galinha”. Há versões diferentes sobre o que aconteceu naquela ocasião, e é essa zona de incerteza que a montagem dirigida por Joana Medeiros toma como ponto de partida para imaginar a escritora diante do público.
O espetáculo que teve sua estreia em São Paulo em 19 de outubro, no Teatro Oficina, no Bixiga, com 16 apresentações às segundas e terças-feiras, às 20h, até 8 de dezembro. Os ingressos custam R$ 100 e R$ 50 (meia).
Em cena, Ana Hartmann interpreta Clarice no momento em que ela lê o próprio conto. A partir daí a cena se transforma, e a escritora passa a experimentar no corpo as ideias, imagens e estados provocados pelo texto. O que começa com um ovo sobre uma mesa conduz a personagem por associações sobre existência, Deus, cotidiano, amor, trabalho e a tentativa de apreender aquilo que escapa à explicação.
Nove anos de processo
A ideia surgiu em 2017, a partir de uma proposta de Joana Medeiros, e passou por diferentes formatos ao longo dos anos, com longo período de pesquisa, leituras e ensaios abertos. Parte do processo foi desenvolvida no próprio Teatro Oficina, onde aconteceram ensaios abertos antes da temporada carioca.
A estreia paulistana acontece no espaço que também integra a trajetória da atriz. Ana Hartmann começou a trabalhar ali em 2012 e integrou montagens da companhia, entre elas “As Bacantes” e “Cacilda!!!”, sob direção de Zé Celso Martinez Corrêa.
Para a diretora, a arquitetura do Oficina é parte da dramaturgia, porque já estabelece uma relação particular entre cena e público, com diferentes planos e pontos de observação. A montagem incorpora essa característica ao percurso da personagem e à movimentação dos elementos cênicos.
O público é recebido pelo mar
Antes de o espetáculo começar, imagens e sons de praia tomam a sala. “É para eles já irem entrando num outro estado mesmo, mais meditativo ali, ao mesmo tempo que já chega e já tem alguma coisa acontecendo”, conta Ciça Lucchesi, responsável pela concepção audiovisual e artista ligada ao Oficina.
Na abertura, o vídeo assume função informativa e mostra a participação de Clarice no congresso de bruxaria. “Isso aparece assim meio no meio de uma fumaça. Então tem um pouco também esse universo da bruxaria, da magia presente nas imagens, ainda que de forma meio oculta”, diz. “As imagens têm um pouco dessa função de situar, trazer essa informação concreta, mas têm várias outras camadas para viver a presença da Clarice através dessa projeção.”
As projeções partem de uma pesquisa sobre o ovo, sua geometria e sua presença em diferentes mitologias e culturas. O mar, imagens de Clarice e referências religiosas também compõem a construção visual.
Uma atriz só, acompanhada da máquina teatral
Ana Hartmann é a única em cena, mas atua em diálogo permanente com uma equipe técnica que participa da ação. Luz, som, projeções, figurinos e objetos interferem no percurso da personagem e são também manipulados por ela.
A montagem trabalha ainda com o kino-atuador, função de Luz Barbosa, que opera câmera ao vivo com transmissão direta para o telão, criando uma camada de cinema em tempo real. A cena reúne vidro, espelho, fumaça e objetos cotidianos, entre eles uma mala associada à escritora, uma folha em branco e grandes objetos de limpeza, em que ações corriqueiras ganham outra dimensão. Há também o contraste entre o preto e o branco do ovo e diferentes possibilidades de luz e sombra.
Além do teatro, Ana Hartmann atuou em “Killer Joe”, de Mário Bortolotto, no Cemitério de Automóveis, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Quem Revelação. Na televisão, participou de “Onde Nascem os Fortes”, “Feras” e “Rio Connection”, e protagonizou a série “Reality Z”, da Netflix. No cinema, esteve em “Barba Ensopada de Sangue”, de Aly Muritiba, e “O Pastor e o Guerrilheiro”, de José Eduardo Belmonte.
Serviço
O Ovo e a Galinha Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo
Até 8 de dezembro de 2026, às segundas e terças, às 20h Total de 16 apresentações
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), pelo Sympla
Duração: 60 minutos.
Classificação: 14 anos
Dramaturgia: Clarice Lispector, Joana Medeiros e Ana Hartmann
Direção: Joana Medeiros.
Atuação: Ana Hartmann
Direção de arte: Marília Pirajú e Marcelo X.
Iluminação: Victoria Pedrosa
Projeções e concepção audiovisual: Ciça Lucchesi.
Kino-atuador: Luz Barbosa
Direção de som e músico em cena: Adriano Salhab.
Figurino: Felipe Samorano
Direção de produção: Carolina Henriques
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