70 anos sem Bertolt Brecht: a censura proibiu o ator de falar com a plateia, e o Oficina respondeu com samba
Bertolt Brecht morreu em 14 de agosto de 1956, em Berlim Oriental. Vivia desde outubro de 1953 num apartamento da Chausseestraße, hoje museu da Akademie der Künste, a academia berlinense que administra o arquivo com o nome dele. Em 14 de agosto de 2026, a morte completa 70 anos.
O teatro que ele formulou chegou ao Brasil sem ele. E o gesto que está no centro desse teatro, o ator que fala com quem assiste, foi proibido aqui pela censura, numa montagem paulistana de 1968. A proibição não derrubou o espetáculo. Obrigou o diretor a inventar outra coisa no lugar.
O que exatamente foi proibido
A Enciclopédia Itaú Cultural define o teatro épico como uma linguagem cênica organizada a partir de textos que tratam de conflitos sociais sob leitura marxista, encenados pelo método do distanciamento. O verbete lista os instrumentos dessa linguagem. O primeiro deles é a comunicação direta entre ator e público.
Vêm depois a música como comentário da ação, a ruptura de tempo e espaço entre as cenas, a exposição do urdimento e das coxias, e o ator posicionado como crítico do personagem que interpreta. Nada disso serve à ilusão. A Britannica resume o princípio: o palco não deve fazer a plateia acreditar na presença dos personagens, e sim levá-la a perceber que assiste ao relato de fatos passados.
Brecht formulou a teoria do teatro épico ainda nos anos de Berlim, antes de 1933. Naquele ano partiu para o exílio, primeiro na Escandinávia e depois nos Estados Unidos, de onde saiu em 1947. Voltou a Berlim em 1949 para ajudar a montar Mãe Coragem, e dali nasceu a companhia dele, o Berliner Ensemble. Morreu sete anos depois disso.
O Brasil leu antes de ver
A primeira tradução de um poema de Brecht por aqui saiu com o nome do autor errado. Ela apareceu na Revista Acadêmica número 62, em novembro de 1942, assinada por José Fernando Carneiro. O texto era atribuído a "um tal Berthold Brecht (sic)", conforme o pesquisador Raul Antelo, citado no artigo de Eduarda Mota sobre a recepção brasileira do autor.
O palco profissional demorou mais dezesseis anos. Em 1958, o Teatro Maria Della Costa apresentou A Alma Boa de Setsuan em São Paulo, sob direção do italiano Flaminio Bollini Cerri. Mota e a Itaú Cultural registram a montagem do mesmo jeito: é a primeira encenação profissional de Brecht no país. Geir de Campos e Antônio Bulhões assinaram a tradução publicada em 1959.
O repertório se espalhou depressa. A Ópera dos Três Vinténs foi montada por Martim Gonçalves com o grupo A Barca, em Salvador, em 1960, e voltou aos palcos brasileiros em 1964. Nesse mesmo ano o golpe militar mexeu na conta: o levantamento reproduzido por Mota mostra uma quebra nas montagens em 1964, com a censura limitando tanto a escolha das peças quanto os subsídios.
Um episódio de 1966 dá a medida da confusão. No dia 16 de agosto daquele ano, num evento chamado Encontro com a Civilização, no Teatro Jovem, em São Paulo, a polícia foi procurar o próprio Brecht. Ele estava morto havia dez anos.
1968: proibido falar com a plateia
Naquele ano o Teatro Oficina levou Galileu Galilei ao palco paulistano. A censura proibiu os atores de se dirigirem ao público, impedindo o efeito de estranhamento que Brecht usava para acordar a plateia. É o registro literal do artigo de Eduarda Mota.
José Celso Martinez Corrêa dirigia o grupo e não abandonou o dispositivo. Trocou o portador. Segundo o mesmo artigo, ele introduziu dançarinos de samba, feiticeiros de macumba e elementos do culto afro de candomblé para interromper a ação e jogar fatores inesperados na vida do físico italiano.
A Itaú Cultural descreve o resultado por outro ângulo: a montagem alterna cenas ao estilo brechtiano mais ortodoxo com a cena do carnaval em Veneza, em que os recursos tropicalistas aparecem com desenvoltura. Dois anos antes, o diretor já tinha dito o que enxergava ali.
"O teatro épico, tendo um caráter demonstrativo, usa muitos elementos visuais e não só literários, o que o torna mais comunicativo para o público moderno, acostumado ao cinema e à tevê. O teatro épico é gostoso como um filme", declarou José Celso Martinez Corrêa ao jornal O Estado de S. Paulo, em depoimento de 22 de janeiro de 1966 registrado pela Enciclopédia Itaú Cultural.
O ano foi pesado para o diretor por mais de um motivo. O FOYER reconstituiu a noite de julho de 1968 em que um grupo paramilitar invadiu o palco de Roda Viva e espancou o elenco. Em 1969 o Oficina montou Na Selva das Cidades e transpôs a ação para São Paulo.
A saída virou método
O que o Oficina fez sob proibição, o Teatro de Arena fez por escolha. Augusto Boal desenvolveu ali o sistema coringa, inaugurado em Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes. A Itaú Cultural resume o procedimento: nesses espetáculos "as soluções brechtianas são aclimatadas e empregadas em indisfarçável chave brasileira".
No sistema coringa nenhum ator é dono de um personagem. Todos fazem todos, e um narrador distanciado, o coringa, maneja a cena, explica e apresenta alternativas. Boal descreveu o efeito que buscava.
"Então isto permitia a nosso ver, naquela época, que o ator se emocionasse plenamente, verificasse todo o personagem e ao mesmo tempo o fato de na cena seguinte já não era mais ele, era um outro, produziria um certo efeito de estranhamento", disse Augusto Boal em depoimento publicado no livro Brecht no Brasil, Experiências e Influências, de 1987.
Quem estava em cena no Galileu de 1968 levou o trabalho adiante no papel. Fernando Peixoto, nascido em Porto Alegre em 1937 e morto em São Paulo em 2012, era ator do Oficina naquela montagem e na de 1969. Depois traduziu Na Selva das Cidades e foi um dos organizadores da edição brasileira do Teatro Completo de Brecht, para a qual verteu diversas peças. A trajetória de Zé Celso, que dirigiu as duas montagens, virou documentário sobre o diretor e o Teatro Oficina.
Brecht morreu doze anos antes da proibição que impediu seus atores de falar com a plateia em São Paulo. Nunca soube da proibição, nem da saída que ela obrigou a inventar. Essa parte da obra dele foi escrita no Brasil, sem ele.



