São Paulo, BR YouTube ↗ Spotify ↗ Assine Anuncie

Roda Viva: a noite de julho de 1968 em que o CCC invadiu o palco de Chico Buarque

Roda Viva: a noite de julho de 1968 em que o CCC invadiu o palco de Chico Buarque
Foto: Palácio do Planalto/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na noite de 18 de julho de 1968, cerca de vinte homens encapuzados entraram na sala Galpão do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, armados de cassetetes. Em poucos minutos, destruíram o cenário, rasgaram figurinos e espancaram o elenco de Roda Viva, a primeira peça escrita por Chico Buarque. O ataque foi obra do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo paramilitar de ultradireita, e entrou para a memória do país como um dos episódios mais brutais já vividos pelo teatro brasileiro.

Cinquenta e oito anos depois, a data ainda pesa. Vale recontar como uma comédia musical sobre a indústria do disco terminou em sangue, tribunal de censura e uma carreira interrompida à força.

A primeira peça de Chico Buarque

Chico escreveu Roda Viva no fim de 1967, quando já era o compositor celebrado de "A Banda" e um dos rostos mais queridos da MPB. Era sua estreia na dramaturgia. A direção coube a José Celso Martinez Corrêa, que vinha da experiência tropicalista de O Rei da Vela e transformou o texto num embate direto com a plateia.

A peça estreou em janeiro de 1968, no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro, com Marieta Severo, Heleno Prestes e Antônio Pedro nos papéis principais, um coro de doze atores e a expressão corporal orientada pelo coreógrafo Klauss Vianna. No elenco despontavam nomes que marcariam as décadas seguintes, entre eles Zezé Motta, André Valli e Pedro Paulo Rangel. A temporada carioca foi considerada um sucesso.

Um palco em confronto com a plateia

O enredo acompanha um ídolo pop fabricado pela indústria cultural e devorado pela própria fama. Nas mãos de Zé Celso, a sátira ao estrelato ganhou contornos de enfrentamento ao regime militar instalado em 1964. Algumas cenas atiçavam a plateia mais conservadora: um ator fardado de soldado defecava dentro de um capacete, e o coro destroçava um enorme fígado de boi cru, cujo sangue respingava sobre os espectadores das primeiras filas.

O crítico Anatol Rosenfeld batizou o resultado de "teatro agressivo". Parte da crítica e da própria esquerda recebeu a montagem com desconfiança, sem enxergar seu peso político. Nesse vácuo, o ódio da direita golpista cresceu. A provocação artística passou a ser tratada como afronta a ser revidada à força.

A noite do dia 18

Quando Roda Viva desembarcou em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, Marília Pêra havia assumido o papel no lugar de Marieta Severo. Foi ali, na noite de 18 de julho de 1968, que o CCC agiu. Os cerca de vinte invasores depredaram a sala Galpão e partiram para cima do elenco. Houve espancamento e, segundo relatos da época, atos de violência sexual contra as atrizes. André Valli e Marília Pêra estiveram entre os agredidos. No tumulto, parte do elenco conseguiu deter um dos atacantes e entregá-lo à polícia.

A classe teatral reagiu no dia seguinte. Cacilda Becker e a produtora Ruth Escobar lideraram os protestos, cobraram a punição dos responsáveis, garantias de vida ao elenco e a responsabilização do Estado pelos danos ao teatro. A resposta das autoridades foi morna: suspeitos foram liberados e a apuração, esvaziada.

Porto Alegre e a censura

Mesmo depredada, a peça seguiu viagem. Ainda em 1968, no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre, os atores voltaram a ser atacados, agredidos e sequestrados. Depois desse segundo episódio, Roda Viva não voltou mais aos palcos de forma profissional na época.

O golpe final veio da censura, que classificou a montagem de "degradante" e "subversiva". Em parecer, o censor Mário F. Russomano justificou o veto:

"O senhor Chico Buarque criou uma peça que não respeita a formação moral do espectador, ferindo de modo contundente todos os princípios de ensinamento de moral e de religião herdados de nossos antepassados", escreveu o censor Mário F. Russomano.

Em dezembro daquele mesmo ano, no dia 13, o governo militar editaria o Ato Institucional nº 5, o AI-5, que endureceria de vez a repressão e a censura no Brasil e submeteria os espetáculos a um controle prévio ainda mais rígido.

O que restou de Roda Viva

Da peça sobrou, sobretudo, a canção-tema. "Roda Viva" foi regravada muitas vezes e virou um dos clássicos de Chico. Já o espetáculo permaneceu por décadas como uma ferida aberta, quase nunca revisitado. Anos mais tarde, o próprio Chico deu sinal verde para que José Celso o remontasse, retomando a parceria interrompida em 1968.

O ataque de 1968 volta à conversa toda vez que a liberdade artística é ameaçada no país. Antes de Roda Viva, o teatro brasileiro já havia enfrentado a tesoura da censura em textos de Nelson Rodrigues e de muitos outros autores. Depois dele, ficou a certeza de que um palco capaz de incomodar o poder podia virar alvo. Por isso a noite de 18 de julho continua sendo contada.

BastidoresRedação Foyer

Leia também

Mais de Bastidores