Georradar revela que o Anfiteatro Romano de Cartagena pode ser maior do que se pensava
As campanhas de georradar realizadas no entorno do Anfiteatro Romano de Cartagena, no sudeste da Espanha, indicam que o monumento pode ter sido maior do que os arqueólogos calculavam. Os primeiros resultados, divulgados no começo de julho pela prefeitura da cidade, reabrem o debate sobre a extensão real do edifício erguido no século I depois de Cristo, com capacidade estimada entre 10 mil e 11 mil espectadores, e sobre sua complexa organização interna.
Os trabalhos foram conduzidos pela prefeitura de Cartagena em parceria com a Universidad de Murcia e o Instituto de Arqueología de Mérida, ligado ao Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), o principal órgão público de pesquisa da Espanha. As prospecções se concentraram no perímetro externo da construção e na localização de acessos, galerias de circulação e sistemas de evacuação, os elementos que explicam como uma multidão entrava e saía da arena.
Como um radar enxerga o que está enterrado
A tecnologia de georradar funciona como uma radiografia do subsolo. O aparelho emite ondas eletromagnéticas que atravessam o terreno e registra os ecos devolvidos por muros, câmaras e vazios soterrados, o que permite desenhar um mapa do que existe sob a superfície sem precisar cavar. Em Cartagena, o método apontou possíveis estruturas ainda ocultas, capazes de ampliar o conhecimento sobre um dos grandes edifícios de espetáculo da antiga Carthago Nova, nome romano da cidade portuária.
O vereador de Patrimônio de Cartagena, Braquehais, avaliou o alcance da descoberta em nota da prefeitura reproduzida pelo site espanhol Cartagena Diario.
"Estas prospecções representam um passo decisivo para conhecer a verdadeira magnitude do anfiteatro romano e planejar com o máximo rigor científico as próximas fases de escavação e musealização", declarou o vereador.
Na mesma nota, ele completou que "cada nova campanha confirma que estamos diante de um monumento excepcional, chamado a se converter em um dos grandes referenciais arqueológicos do Mediterrâneo".
O radar de subsolo já era usado na arqueologia, mas ganhou espaço nos últimos anos como etapa anterior à escavação. Em vez de abrir o terreno às cegas, os pesquisadores primeiro fazem a leitura do que está enterrado, decidem onde vale a pena cavar e preservam o restante. Em um sítio tão sobreposto quanto o de Cartagena, onde camadas romanas e modernas se misturam, essa cautela evita destruir vestígios no caminho.
Um anfiteatro escondido sob a praça de touros
Boa parte do anfiteatro permaneceu invisível por séculos porque uma praça de touros do século XIX foi construída sobre ele, aproveitando o desenho oval do antigo edifício romano. Esse duplo anel, o da arena romana e o da praça oitocentista, transformou o sítio em um quebra-cabeça arqueológico. Segundo a Cartagena Puerto de Culturas, órgão municipal que administra os monumentos da cidade, as escavações já trouxeram à luz os cárceres, onde ficavam gladiadores e feras antes do combate, os vomitórios que despejavam o público nas arquibancadas e a fossa bestiaria, o poço central por onde os animais eram içados até a arena.
O anfiteatro convivia, na mesma cidade, com o Teatro Romano de Cartagena, redescoberto apenas nos anos 1980 e hoje um dos cartões-postais do sudeste espanhol. A soma dos dois equipamentos, o teatro e o anfiteatro, reforça a leitura de Carthago Nova como um polo de entretenimento de peso no Mediterrâneo antigo.
Dois milhões de euros para a próxima fase
O governo municipal aprovou um investimento de dois milhões de euros para completar a escavação da arena do anfiteatro, consolidar o setor nordeste do duplo anel da antiga praça de touros e ampliar o percurso aberto à visitação. A intenção é que as estruturas mapeadas pelo georradar orientem onde cavar em seguida, reduzindo o risco de danificar o que ainda está enterrado.
Por que a notícia interessa ao Brasil
O interesse do caso de Cartagena vai além da arqueologia clássica. Ele mostra como a tecnologia vem mudando a forma de estudar o patrimônio construído. O georradar, os drones e a modelagem em três dimensões permitem inspecionar teatros, arenas e igrejas antigas sem abrir valas, um recurso valioso para países onde a preservação disputa verba com mil outras urgências.
O Brasil não tem anfiteatros romanos, mas guarda casas de espetáculo centenárias que enfrentam o mesmo dilema entre uso e conservação, como conta a reportagem do FOYER sobre a história do Teatro Amazonas, erguido em plena floresta durante o ciclo da borracha. Descobertas como a de Cartagena dialogam ainda com achados recentes no Mediterrâneo, caso do teatro grego à beira-mar encontrado na Líbia, e lembram que o palco, muito antes da luz elétrica, já era uma máquina de reunir plateias. Boa parte das crenças que sobrevivem nos bastidores, como a lâmpada que nunca se apaga nos teatros, nasceu justamente dessa relação antiga entre o público e esses espaços.
Para os pesquisadores de Cartagena, o próximo passo é transformar as anomalias detectadas pelo radar em escavação de verdade. Só então será possível dizer com precisão quantos espectadores cabiam nas arquibancadas e confirmar se o anfiteatro era mesmo maior do que os livros registram até hoje.



