Missão francesa revela teatro à beira-mar e hipódromo grego raro nas ruínas de Apollonia, na Líbia
A costa da Cirenaica, no leste da Líbia, guardava mais do que colunas tombadas e basílicas cristãs à beira da água. A Missão Arqueológica Francesa na Líbia anunciou em 17 de julho um conjunto de descobertas na antiga cidade de Apollonia, hoje conhecida como Susa: um teatro voltado para o Mediterrâneo, um hipódromo grego que os pesquisadores dizem não ter equivalente conhecido e vários complexos sagrados. O balanço, apresentado ao lado da Autoridade de Antiguidades de Cirene, recoloca no noticiário uma das cidades mais escavadas do norte da África e devolve à arqueologia do teatro um capítulo que raramente chega ao leitor brasileiro.
Fundada por colonos gregos no século 7 a.C., Apollonia foi o porto de Cirene, a grande cidade grega que ficava cerca de 20 quilômetros terra adentro. Pela sua orla passavam as trocas que sustentavam a região, e o povoado cresceu a ponto de se tornar, séculos depois, uma das cinco cidades da chamada Pentápole líbia e, no século 6, capital de uma província romana. Boa parte de sua planta antiga afundou com terremotos e hoje repousa sob a água, enquanto o casario dos períodos grego, romano e bizantino se espalha pela faixa de terra que sobrou.
Três achados de uma vez
O anúncio reúne três frentes. A primeira é um teatro debruçado sobre o mar, apontado pela missão em meio ao tecido urbano da cidade. A segunda, tratada como a mais notável, é um hipódromo grego, a pista onde disputavam as corridas de bigas puxadas por cavalos. A terceira traz complexos sagrados, os santuários ligados à vida religiosa da colônia.
Diretor da missão francesa desde 2011, o professor Vincent Michel afirmou que o hipódromo é único, sem estrutura comparável conhecida em toda a Cirenaica ou no restante do Mediterrâneo, segundo o site grego ProtoThema e o portal Libya Review. Michel descreveu o achado como de importância científica e arqueológica excepcional, que pode levar os pesquisadores a rever a história de Apollonia e o seu lugar no mundo antigo. Outro integrante da equipe, o arqueólogo Jean-Sylvain Cailliau, disse ao Libya Review que as descobertas representam um marco científico importante, capaz de levar a uma releitura da história de Apollonia e de revelar novos aspectos de seu papel cultural e histórico nos períodos grego e romano.
Por que um hipódromo grego chama tanta atenção
Corridas de carros e de cavalos estavam no centro da vida cívica e religiosa dos gregos, ligadas aos grandes jogos e a festivais em honra dos deuses. No mundo romano, esse tipo de arena ganhou forma monumental no circo, bem documentado por toda a bacia do Mediterrâneo. Já os hipódromos gregos preservados são poucos, e é essa escassez que a missão sublinha ao dizer que a pista de Apollonia não tem paralelo conhecido na região.
O teatro entra nessa conta como o edifício onde a comunidade se via e se ouvia. Foi na arquitetura do teatro grego, a céu aberto e encaixada no relevo, que nasceram a tragédia e a comédia que ainda sustentam boa parte do repertório mundial. A plateia em semicírculo, a orquestra circular no centro e a relação direta entre a cena e a cidade viraram gramática do teatro ocidental. É essa linhagem que reaparece nos palcos brasileiros sempre que uma companhia encena Édipo, Mulheres de Troia ou a Medeia de Sêneca. Um teatro reencontrado à beira do Mediterrâneo é mais uma peça para entender de onde vem a forma.
Um patrimônio sob anos de tensão
A Líbia guarda alguns dos sítios greco-romanos mais bem preservados do Mediterrâneo, entre eles Cirene, Leptis Magna e Sabratha. Anos de instabilidade política e de conflito armado, porém, dificultaram a preservação desse acervo e o trabalho de campo. Missões estrangeiras deixaram o país por mais de uma década a partir de 2011 e só recentemente voltaram à Cirenaica, o que dá peso ao novo balanço apresentado pela equipe francesa, presente na região desde os anos 1970.
As instituições que participaram do anúncio afirmaram que as descobertas reforçam o estatuto de Apollonia como uma das cidades antigas mais importantes da Líbia e devem abrir novos caminhos de pesquisa sobre o desenvolvimento da cidade e a história da Cirenaica. O anúncio reuniu representantes do Departamento de Antiguidades da Líbia, do Ministério do Turismo e Antiguidades, da polícia de turismo e da organização local de patrimônio de Apollonia.
O que ainda falta saber
O comunicado é um ponto de partida. Datação exata, dimensões, estado de conservação e função de cada estrutura dependem das próximas campanhas e do estudo do material recolhido. A missão informou que os trabalhos continuam e que os novos sítios serão documentados segundo normas científicas reconhecidas internacionalmente.
Enquanto os relatórios técnicos não saem, fica a imagem: numa faixa de costa líbia batida pelo vento, arqueólogos voltaram a distinguir o desenho de um teatro e de uma pista de corridas onde, há mais de dois mil anos, uma cidade grega se reunia para assistir. Para quem faz e estuda teatro, é o reencontro com uma de suas casas mais antigas.


