Sandra Oh leva Molière ao presente em “The Misanthrope”, do National Theatre
Estrelada pela atriz de “Killing Eve”, montagem ganhou registro filmado pelo National Theatre Live e pode ser acompanhada por brasileiros no circuito digital da instituição
A sinceridade absoluta talvez seja uma virtude. Mas, em sociedade, ela também pode ser uma forma de guerra. É essa tensão que move “The Misanthrope”, nova leitura do clássico de Molière apresentada pelo National Theatre, em Londres, com Sandra Oh no papel principal.
A montagem ficou em cartaz no Lyttelton Theatre, uma das salas do National Theatre, entre 16 de junho e 1º de agosto de 2026, e marcou a estreia de Sandra Oh na instituição. Conhecida por trabalhos como “Killing Eve” e “Grey’s Anatomy”, a atriz interpreta Alice, uma romancista brilhante que despreza as mentiras cuidadosamente construídas da vida pública e privada.
A peça é uma nova versão de Martin Crimp, a partir de Molière, com direção de Indhu Rubasingham, atual diretora do National Theatre. Escrita em versos contemporâneos, a adaptação desloca o misantropo original, Alceste, para uma protagonista mulher. A mudança não é apenas de gênero: ela reorganiza a pergunta central da obra. O que acontece quando uma mulher decide falar tudo o que pensa, sem suavizar, negociar ou performar simpatia?
Na versão de Crimp, Alice desafia os discursos prontos de gentileza, respeito e virtude que circulam no mundo contemporâneo. Quanto mais ela insiste em dizer a verdade, mais seus colegas se afastam e mais suas relações pessoais começam a se desfazer. A montagem observa o preço de sustentar uma posição pública quando a sociedade prefere o conforto de uma mentira bem apresentada.
O interesse de “The Misanthrope” está justamente nesse atrito. Molière escreveu sua comédia em 1666, mas a figura de alguém que denuncia hipocrisias sociais continua bastante reconhecível. No século XVII, a sátira mirava os jogos de reputação, vaidade e conveniência da sociedade francesa. Em 2026, a peça encontra novos alvos: discursos morais performáticos, bolhas de opinião, relações mediadas por imagem pública e a punição social de quem se recusa a jogar conforme o combinado.
Sandra Oh é o centro dessa operação. Em entrevistas de divulgação da montagem, a atriz falou sobre o desafio de trabalhar com uma linguagem moderna, mas ainda em verso, e sobre o prazer técnico de lidar com uma escrita que exige outro tipo de musculatura emocional. A escolha de Oh também cria um ponto de leitura importante: Alice não é apenas alguém “difícil”. É uma mulher pública, inteligente e articulada sendo atacada por se recusar a permanecer agradável.
Ao redor dela, o elenco reúne Paul Chahidi como John, Abigail Cruttenden como Claire, Tom Mison como Stefan, Jemima Rooper como Elaine, Rina Fatania como Indira, Imogen Elliott como Esmée e Freddie MacBruce como Allen. A equipe criativa tem cenografia e figurinos de Robert Jones, iluminação de Tim Lutkin, música de Anna Meredith, desenho de som de Alexander Caplen e direção de movimento de Lucy Hind.
A produção também chama atenção por estar dentro do primeiro grande ciclo de programação de Indhu Rubasingham à frente do National Theatre. Primeira mulher e primeira pessoa não branca a assumir a direção da instituição, Rubasingham vem desenhando uma temporada marcada por nomes de grande projeção internacional, releituras de clássicos e uma aposta clara em circulação para além dos palcos londrinos.
É aí que “The Misanthrope” interessa especialmente ao público brasileiro. Encerrada a temporada presencial em Londres, a montagem ganhou uma versão filmada para o National Theatre Live, braço da instituição dedicado a registrar espetáculos e levá-los a cinemas ao redor do mundo. A produção já aparece em programações internacionais de cinema, com exibições previstas a partir de setembro de 2026.
Ainda não há, até a checagem desta matéria, uma data oficial de entrada de “The Misanthrope” no National Theatre at Home, plataforma de streaming da instituição. Mas o registro filmado coloca a montagem dentro do circuito audiovisual do National Theatre, o mesmo ecossistema que permite que parte de seus espetáculos chegue depois ao catálogo digital.
Para brasileiros, esse é o ponto mais interessante. O National Theatre at Home funciona como um serviço de streaming dedicado a teatro filmado. O catálogo reúne mais de 100 produções e pode ser acessado pelo navegador, por aplicativo de celular, tablet ou TV, com assinatura mensal ou anual. A plataforma informa disponibilidade mundial, embora títulos específicos possam variar de acordo com direitos de exibição.
Na prática, isso significa que não é preciso estar em Londres para acompanhar parte da produção recente do National Theatre. O acesso digital não substitui a experiência presencial, claro. Mas abre uma janela rara para quem pesquisa teatro, acompanha atores internacionais ou quer observar de perto como grandes instituições registram e distribuem suas montagens.
No caso de “The Misanthrope”, essa janela ainda deve ser acompanhada. Por enquanto, a forma oficialmente anunciada de circulação da gravação é pelo National Theatre Live, em sessões de cinema. A possível chegada ao National Theatre at Home deve ser verificada diretamente na plataforma.
Mesmo assim, a montagem já merece atenção. Ao transformar Alceste em Alice, Martin Crimp e Indhu Rubasingham não apenas atualizam Molière: recolocam sua comédia no centro de uma discussão muito atual sobre verdade, reputação, linguagem pública e punição social. Em tempos em que todo mundo parece ter uma opinião pronta sobre tudo, “The Misanthrope” pergunta algo um pouco mais incômodo: quem, de fato, aguenta ouvir uma verdade quando ela deixa de ser conveniente?
Como assistir do Brasil
The Misanthrope foi filmado para o circuito National Theatre Live, com exibições internacionais anunciadas a partir de setembro de 2026. Até o momento, não há confirmação oficial de data de estreia no National Theatre at Home.
O National Theatre at Home pode ser acessado no Brasil pelo site oficial ou por aplicativo. A plataforma funciona por assinatura mensal ou anual e reúne espetáculos gravados do National Theatre e de outras produções britânicas. A disponibilidade de cada título pode variar por território e direitos de exibição.
Ficha artística
The Misanthrope
Texto: Martin Crimp, a partir de Molière
Direção: Indhu Rubasingham
Elenco: Sandra Oh, Paul Chahidi, Abigail Cruttenden, Imogen Elliott, Rina Fatania, Freddie MacBruce, Tom Mison e Jemima Rooper
Personagem principal: Alice, versão contemporânea e feminina do misantropo de Molière
Local da temporada presencial: Lyttelton Theatre, National Theatre, Londres
Temporada presencial: de 16 de junho a 1º de agosto de 2026
Registro audiovisual: National Theatre Live
Duração da versão filmada: aproximadamente 150 minutos
Idioma: inglês



