São Paulo, BR YouTube ↗ Spotify ↗ Assine Anuncie

Crise no Edinburgh Fringe: custos crescem e um dos maiores operadores critica organização do festival

Crise no Edinburgh Fringe: custos crescem e um dos maiores operadores critica organização do festival
Foto: Dave Shaver / Wikimedia Commons / CC BY 2.0

Cofundador do Underbelly questiona tamanho da Fringe Society enquanto artistas e espaços enfrentam custos crescentes, hospedagem cara e incerteza sobre a bilheteria da segunda metade do festival

O Edinburgh Festival Fringe chegou a 2026 maior do que nunca. São 4.206 espetáculos de 74 países, distribuídos por 299 espaços e mais de 60 mil apresentações ao longo de agosto.

No meio dessa escala gigantesca, uma discussão sobre dinheiro começou a ganhar espaço nos bastidores.

Ed Bartlam, cofundador do Underbelly, um dos principais operadores de espaços do festival, criticou nesta quinta-feira, 13 de agosto, a estrutura da Edinburgh Festival Fringe Society. Para ele, a organização tornou-se “inchada” enquanto artistas e venues enfrentam uma pressão financeira cada vez maior para participar do evento.

A fala chama atenção porque vem de uma empresa que ocupa há 25 anos alguns dos endereços mais conhecidos do Fringe e apresenta uma extensa programação de teatro, comédia, circo, cabaré e música.

A Fringe Society ocupa outra posição nessa engrenagem. A instituição beneficente não escolhe quais espetáculos podem participar nem administra os grandes espaços de apresentação. Entre suas funções estão o registro das produções, a bilheteria central, a divulgação do festival e serviços de suporte para artistas, produtores, imprensa, profissionais do mercado e venues.

O princípio de acesso aberto continua sendo uma das características centrais do Fringe. Não existe uma curadoria artística determinando quem pode participar.

A crítica de Bartlam coloca outra pergunta sobre a mesa: quanto custa sustentar essa estrutura e quanto dessa conta consegue ser absorvida por quem faz o festival acontecer.

Quanto custa chegar ao Fringe

Participar do festival envolve muito mais do que garantir um palco em Edimburgo.

A própria Fringe Society orienta artistas a considerar aluguel de espaço, inscrição, comissão sobre ingressos, equipamentos, transporte, seguros, direitos musicais, divulgação e hospedagem.

Só o registro já envolve algumas centenas de libras. Para uma temporada de seis apresentações ou mais, a tarifa padrão de 2026 chegou a £393,60. Desde 25 de maio, o festival também oferece uma modalidade de verão por £295,20, com divulgação apenas no site oficial do Fringe.

A hospedagem continua sendo um dos pontos mais delicados dessa conta.

Desde 24 de julho, Edimburgo cobra uma taxa turística de 5% sobre o valor de hospedagens elegíveis, limitada às primeiras cinco noites da estadia. A prefeitura estima que a medida possa arrecadar até £50 milhões por ano e afirma que o dinheiro será destinado a infraestrutura, cultura, eventos e à economia turística da cidade.

Para artistas e equipes que permanecem em Edimburgo durante boa parte de agosto, a taxa chega a um orçamento que já vinha sendo pressionado pelo preço das acomodações.

Anthony Alderson, diretor artístico do Pleasance, outro dos maiores operadores do Fringe, também criticou o impacto da cobrança e defendeu que parte do dinheiro arrecadado retorne diretamente para o setor cultural.

A preocupação não está apenas nos custos de produção.

Dirigentes de espaços alertaram nesta semana que, apesar de um início positivo, as vendas de ingressos podem cair fortemente na segunda metade do festival.

Em 2025, mais de 2,6 milhões de ingressos foram emitidos para os 3.893 espetáculos registrados no Fringe. Neste ano, o número de produções subiu para 4.206.

O ingresso médio custa £13. A programação inclui ainda 440 espetáculos gratuitos e outros 813 em modelos nos quais o público pode escolher quanto pagar.

Na tentativa de responder a um mercado cada vez mais disputado, até a forma de cobrar pelo ingresso entrou em teste. O próprio Underbelly adotou nesta edição uma experiência com preço dinâmico em produções de maior procura, fazendo o valor variar de acordo com a demanda.

O cenário reúne interesses difíceis de equilibrar.

Artistas precisam encontrar maneiras de produzir sem assumir prejuízos insustentáveis. Os venues dependem de bilheteria para manter suas estruturas. A Fringe Society precisa financiar os serviços que sustentam um festival de milhares de produções. A cidade, por sua vez, tenta capturar parte do impacto econômico gerado pelo enorme fluxo de visitantes de agosto.

Foi nesse ambiente que a crítica de Bartlam deixou de parecer apenas uma disputa administrativa.

O Fringe nasceu em 1947, quando grupos que não haviam sido convidados para o Edinburgh International Festival decidiram se apresentar na cidade mesmo assim. Dessa origem veio a ideia que ainda define o evento: qualquer artista pode participar.

Quase oito décadas depois, essa porta continua aberta.

A questão que cresce em Edimburgo é quantos artistas ainda conseguem pagar para atravessá-la.

NotíciaPedro Amaral

Leia também

Mais de Notícia