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Rudolph Valentino dançava em cabarés como Signor Rodolfo antes de chegar ao cinema mudo

Rudolph Valentino dançava em cabarés como Signor Rodolfo antes de chegar ao cinema mudo
Foto: Rudolph Valentino em negativo de vidro da Bain News Service/Library of Congress, Prints and Photographs Division (domínio público, sem restrições conhecidas de publicação)

Rudolph Valentino morreu às 12h10 de 23 de agosto de 1926, no Polyclinic Hospital, em Nova York. Tinha 31 anos. A United Press abriu com a notícia a primeira página do The Washington Daily News daquele mesmo dia, com o boletim lido pelo produtor Joseph M. Schenck, a transfusão de sangue doada por um engenheiro do próprio hospital e o registro de que a única visita autorizada ao quarto fora um padre da cidade natal do ator.

O rosto que sobrou dele é o do cinema mudo. A carreira profissional começou longe de qualquer câmera, num salão de baile de Nova York, diante de gente que chegava depois que os teatros fechavam.

Isso está escrito na imprensa da época. Em 27 de agosto de 1926, quatro dias depois da morte, o Evening Star, de Washington, publicou o terceiro capítulo de uma biografia em série assinada por George Buchanan Fife. O texto chama o cabaré Maxim's de berço de Valentino como artista profissional e conta que o gerente da casa contratou um jovem italiano que ainda se chamava Rodolfo Guglielmi.

O nome de cartaz era Signor Rodolfo

A estreia foi de salão, paga por noite. O Evening Star nomeia duas casas, o Maxim's e o Beaux Arts, e diz que virou hábito passar no primeiro depois do teatro só para ver "aquele jovem italiano" dançar. Uma terceira aparece na edição de 29 de agosto do mesmo jornal: o restaurante de Jacques Bustanoby, na rua 39 Oeste.

As parceiras tinham cartaz próprio. Foram Bonnie Glass e Joan Sawyer, e os dois nomes aparecem em quatro jornais americanos da semana da morte. O próprio Valentino os escreveu. O relato saiu num texto assinado por ele e distribuído pelo serviço NEA, no South Bend News-Times de 24 de agosto de 1926. O emprego conseguido com o maître do Maxim's aparece ali como o início da carreira profissional. Dele vieram os contratos com as duas dançarinas.

O anúncio de uma dessas temporadas está impresso e pode ser lido. Em 10 de dezembro de 1915, na página 2, o The Sun de Nova York vendia o Chez Fysher, cabaré parisiense recém-instalado na cidade. Sessão toda noite, depois do teatro. No cartaz, Bonnie Glass, assistida por Signor Rodolfo.

"Ele explicou que era o 'Signor Rodolfo' que havia dançado no Maxim's e depois no Beaux Arts, e que ainda dançava, mas podia fazer o que fosse preciso numa comédia musical", escreveu George Buchanan Fife no Evening Star, em tradução da redação.

A companhia que quebrou em San Francisco

Foi assim que ele saiu do salão para a estrada. Montava-se em Nova York uma companhia de comédia musical para excursionar até a costa do Pacífico, e o dançarino procurou o empresário. Fife descreve a rotina: saltos curtos entre cidades, apresentação em um número incontável delas, temporada esticada o quanto desse. A companhia quebrou em San Francisco.

Na entrada dessa turnê o nome mudou, registra o Evening Star. Rodolfo Guglielmi passou a assinar Rudolph Valentino, adotando Valentina, um dos nomes de batismo. O cinema veio depois, no começo de 1917, por sugestão do ator Norman Kerry.

Aquele ofício continua em cartaz por aqui, com outros nomes. A casa cobriu montagens paulistanas de teatro de revista, de cabaré e de tango de espetáculo.

Os obituários não fecham entre si

O básico diverge de jornal para jornal. O nome de batismo sai como Rodolfo Guglielmi, como Rodolfo Guglielmo e, na versão longa que ele mesmo assinou, como Rodolpho Alfonso Raffaelo Pierre Filibert Guglielmi di Valentina d'Antonguolla. O nascimento é 6 de maio de 1895, em Castellaneta, na Itália, tanto no texto dele quanto no Milwaukee Leader de 25 de agosto.

A chegada aos Estados Unidos tem duas datas. É 23 de dezembro de 1913 nessas duas versões e 23 de novembro de 1913 no The Washington Times do dia da morte.

A causa da morte também não fecha. O Washington Daily News descreve uma sequência: colapso no hotel, cirurgia dupla de apendicite e úlcera gástrica cinco horas depois, peritonite, pleurisia e, no raio X final, envenenamento da parede do coração. O Washington Times, da mesma data, fala em inflamação da membrana que reveste o coração. A reportagem não localizou o atestado de óbito.

Três meses depois, o Estadão ganha um poeta

Cem mil pessoas passaram diante do caixão, informou o Evening Star de 29 de agosto de 1926. O mesmo texto põe um homem na janela de um hotel do outro lado da rua, olhando a fila. Era Jacques Bustanoby, antigo dono do restaurante da rua 39. Ele lembrava do tempo em que Signor Rodolfo dançava ali pelo preço de uma refeição. A sala do velório já havia recebido Olive Thomas, Anna Held, Vernon Castle, Oscar Hammerstein, Nat Goodwin e Lillian Russell.

Em São Paulo, a notícia chegou depressa. A coluna "Cinematographos" de O Estado de S. Paulo publicava notas sobre a internação em 22 de agosto e trouxe a matéria longa da morte no dia 24. Naquele mesmo dia 24, o Cine Santa Helena recolocou em cartaz Monsieur Beaucaire, de 1924, em homenagem. Vieram junto os telegramas duvidosos. Em 25 de agosto saiu o boato de envenenamento. Em 27, o suicídio de uma "conhecida atriz cinematográfica" chamada Peggy Scott, de cuja existência não se achou prova. O levantamento é de Donny Correia, coordenador de programação cultural da Casa Guilherme de Almeida, museu do Estado de São Paulo, em artigo da revista da instituição.

A coluna mudou de mão em 9 de novembro de 1926. Assumiu o poeta e tradutor Guilherme de Almeida (1890-1969). Dois dias depois ele escreveu a primeira crônica sobre a morte, e a abertura chamava aquilo de "o fim de uma mocidade linda".

Uma semana adiante veio o texto mais duro. Em "Rei morto, rei posto", de 18 de novembro, o poeta recusa o ditado popular do próprio título.

"Nem sempre. Pois não se explicaria o trono ainda vago pelo doloroso desaparecimento de Rudolph Valentino", escreveu Guilherme de Almeida em O Estado de S. Paulo.

Ele nomeia os substitutos que os estúdios anunciavam, diz que nenhum pegou e conclui que no "Reino de Celuloide" a coroa não é hereditária. Em 3 de dezembro voltou ao assunto pelo custo da conta: "O preço da fama é alto... como o dólar".

Cem anos depois, o trono de que o poeta falava segue na condição em que ele o deixou. O que tem documento é o começo: um dançarino contratado pelo preço de uma refeição numa casa da rua 39 Oeste, sob um nome de cartaz que ele abandonaria a caminho da Califórnia.

MemóriaRedação Foyer

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