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Teatro Foyer

Texto inédito de Plínio Marcos sobre Rolando Boldrin ganha leitura dramatizada no CCSP

Texto inédito de Plínio Marcos sobre Rolando Boldrin ganha leitura dramatizada no CCSP
Foto: De Divulgação

“Longe de Casa – A História de Rolando Boldrin” terá quatro sessões gratuitas em agosto, antes da estreia do espetáculo completo no dia em que o artista completaria 90 anos

Existe um texto de Plínio Marcos sobre Rolando Boldrin que nunca foi ouvido em voz alta em um palco. Escrito à mão pelo dramaturgo na década de 1980 especialmente para o amigo, o material permaneceu guardado por décadas e agora chega ao público em forma de leitura dramatizada.

Entre os dias 27 e 30 de agosto, o Centro Cultural São Paulo recebe quatro sessões gratuitas de “Longe de Casa – A História de Rolando Boldrin”, na Sala Ademar Guerra. A leitura funciona como uma primeira apresentação pública do projeto, que deve estrear como espetáculo completo em 22 de outubro, data em que Boldrin completaria 90 anos.

A história por trás da montagem já carrega uma força própria. Plínio Marcos escreveu o texto para que Boldrin contasse a própria vida em cena, mas o projeto nunca chegou a ser realizado. O material foi preservado por Patricia Maia Boldrin, viúva do artista, que guardava as páginas havia décadas.

Coube a Rodrigo Mangal adaptar o texto para os dias de hoje, preservando ao máximo a escrita original de Plínio. Quando a nova versão foi apresentada à família de Boldrin, a reação abriu caminho para o projeto seguir. Mais do que uma autorização, a montagem carrega a sensação de uma memória que finalmente encontrou o momento de voltar à cena.

A amizade entre Plínio Marcos e Rolando Boldrin começou nos corredores da TV Tupi, onde os dois trabalharam como figurantes no início da carreira. A relação atravessou décadas de convivência, parceria e boemia. Foi Plínio, segundo o próprio Boldrin relatou em entrevista, quem o provocou a abandonar o repertório de canção francesa e assumir em cena a força de sua fala interiorana, dos causos e da cultura popular brasileira.

Essa virada é central para entender “Longe de Casa”. A peça não trata apenas da trajetória de um artista conhecido como o Senhor Brasil. Ela olha para o momento em que Boldrin começa a reconhecer o valor artístico daquilo que já carregava no corpo e na voz: a oralidade caipira, a música brasileira, as histórias do interior, os personagens anônimos e a memória de um país que ele ajudou a colocar diante das câmeras.

O texto se divide em dois atos. O primeiro se passa em São Joaquim da Barra, cidade do interior paulista onde Boldrin nasceu. Ali aparecem a infância, a formação e o desejo de partir em busca da vida artística. O segundo acompanha a chegada a São Paulo, os primeiros trabalhos como figurante na TV Tupi, as dificuldades de adaptação à capital e o caminho até a consagração como apresentador, ator, cantor, compositor e contador de histórias.

A leitura dramatizada será interpretada por Rodrigo Mangal, com direção de Tairone Vale. A música ao vivo fica a cargo de Fred Fonseca e Roger Resende, que revezam instrumentos como violão, viola, cavaquinho, banjo, acordeom e percussão. Entre as canções que atravessam a narrativa estão “Luar do Sertão”, “Chão de Estrelas”, “Cabocla Tereza” e composições do próprio Boldrin, como “Eu, a Viola e Deus” e “Vide Vida Marvada”.

A presença da música é fundamental para o projeto. Ela não entra como ilustração biográfica, mas como linguagem. Boldrin construiu sua carreira misturando canção, causo, memória e comentário social. Ao colocar músicos em cena, “Longe de Casa” tenta recuperar esse modo de narrar em que palavra falada e palavra cantada pertencem ao mesmo gesto.

Rodrigo Mangal não pretende fazer uma imitação de Boldrin. A proposta é outra: evocar sua energia, sua origem e sua forma de habitar a fala. “A gente é contra imitação. Então eu não pretendo nesse espetáculo fazer o Boldrin, sabe? A cara do Boldrin, o rosto do Boldrin parecer o Boldrin encarnado, não tem essa pretensão. O que eu procuro é você sentir o caboclo, é sentir aquele tom de voz, aquela energia do homem do interior”, afirma o ator.

Essa escolha aproxima a trajetória de Boldrin da própria biografia de Mangal. O ator também deixou o interior para tentar a vida em São Paulo e reconhece nessa travessia uma experiência comum a muitos artistas e migrantes brasileiros. A história de Boldrin, nesse sentido, ultrapassa a biografia individual. Torna-se também uma narrativa sobre deslocamento, solidão, adaptação e desejo de pertencimento.

“É a história, como é a coisa do Plínio, é história de, no final das contas, de todo migrante brasileiro. É uma história que tem muita identificação com todas aquelas pessoas que têm que sair, como diz o Plínio, de suas aldeias em busca de um lugar com mais dignidade”, diz Mangal.

A direção de Tairone Vale parte justamente desse encontro entre documento, memória e presença. Convidado por Mangal depois que o ator assistiu a “Doce Árido”, espetáculo dirigido por Vale, o diretor reconheceu no texto inédito um material raro: uma obra escrita por Plínio Marcos para um amigo que se tornaria uma das figuras mais importantes da difusão da cultura popular brasileira.

Para as sessões de agosto, a proposta é apresentar ao público a estrutura dramatúrgica, a relação entre texto e música e a atmosfera do projeto. O espetáculo completo, previsto para outubro, deve ampliar a encenação com movimentação cênica e cenário dinâmico. A leitura, portanto, funciona como primeira escuta pública de uma obra que atravessou décadas em silêncio.

Rolando Boldrin nasceu em 22 de outubro de 1936, em São Joaquim da Barra, e morreu em 9 de novembro de 2022, aos 86 anos. Ao longo da carreira, atuou em novelas, filmes, peças e programas de televisão, mas ficou especialmente associado à defesa da cultura popular brasileira. À frente de programas como “Som Brasil” e “Sr. Brasil”, tornou-se uma espécie de guardião televisivo de violeiros, poetas, cantadores, causos e artistas que muitas vezes ficavam fora do circuito mais visível da indústria cultural.

Plínio Marcos, por sua vez, foi um dos dramaturgos mais contundentes do teatro brasileiro, autor de obras como “Dois Perdidos numa Noite Suja” e “Navalha na Carne”. Sua escrita costuma ser lembrada pela crueza, pela atenção a personagens marginalizados e pela força oral. O encontro entre os dois, agora levado à cena, aproxima duas formas de olhar para o Brasil: a do dramaturgo que escutava as bordas e a do contador que fazia da televisão uma roda de histórias.

“Longe de Casa” nasce justamente desse cruzamento. É texto inédito, documento afetivo, memória artística e gesto de reparação. Um material escrito para ser dito por Boldrin, que ficou guardado durante décadas, agora encontra outro corpo, outra voz e outro tempo para chegar ao público.

Antes da estreia completa em outubro, as quatro sessões no Centro Cultural São Paulo oferecem a primeira oportunidade de escutar esse texto em cena. É uma abertura de caminho para um espetáculo que parece menos interessado em transformar Boldrin em estátua e mais em devolver ao palco aquilo que ele sempre soube fazer: contar o Brasil como quem proseia perto da gente.

Serviço

Longe de Casa – A História de Rolando Boldrin
Formato: leitura dramatizada
Texto: Plínio Marcos
Adaptação e atuação: Rodrigo Mangal
Direção: Tairone Vale
Direção musical: Fred Fonseca
Músicos: Fred Fonseca e Roger Resende

Datas: 27, 28, 29 e 30 de agosto de 2026
Horários: quinta, sexta e sábado, às 19h30; domingo, às 18h30

Local: Centro Cultural São Paulo — Espaço Ademar Guerra
Endereço: Rua Vergueiro, 1000 — Liberdade, São Paulo — SP
Capacidade: 100 lugares
Entrada: gratuita, por ordem de chegada, sujeita à lotação
Classificação indicativa: 12 anos

Estreia do espetáculo completo: prevista para 22 de outubro de 2026, data em que Rolando Boldrin completaria 90 anos

Ficha técnica

Texto: Plínio Marcos
Adaptação e atuação: Rodrigo Mangal
Direção: Tairone Vale
Direção musical e músico: Fred Fonseca
Instrumentos: violão, viola, acordeom, banjo e percussão
Músico: Roger Resende
Instrumentos: violão, cavaquinho e percussão
Cenografia: Cris Bourgeaiseau, com colaboração de Patricia Maia Boldrin
Produção: Rodrigo Mangal e Gisele Tressi
Assessoria de imprensa: Arteplural — M. Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira

TeatroIsabel Branquinha

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