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Teatro Foyer

Ave Lola segue em cartaz com “Lucrécia”, espetáculo sobre memória, envelhecimento e identidade

Ave Lola segue em cartaz com “Lucrécia”, espetáculo sobre memória, envelhecimento e identidade
Foto: André Tezza

Nova montagem da companhia curitibana coloca uma marionete híbrida no centro da narrativa e fica em cartaz até 6 de setembro

A Ave Lola segue em cartaz em Curitiba com “Lucrécia”, espetáculo inédito que marca um novo capítulo da pesquisa artística da companhia. A montagem pode ser vista até 6 de setembro, no Ave Lola Espaço de Criação, com ingressos no sistema Pague o Quanto Vale.

Resultado de dois anos de pesquisa, a peça acompanha uma mulher que, momentos antes de ser levada para um lar de idosos por determinação judicial, decide se esconder dentro do próprio guarda-roupa. Nesse espaço íntimo e simbólico, Lucrécia atravessa memórias, delírios, desejos e fragmentos de sua existência.

A história parte de uma situação concreta, mas se desloca rapidamente para um território poético. O guarda-roupa deixa de ser apenas esconderijo e se transforma em passagem. Ali, objetos ganham vida, lembranças retornam e realidade e ficção passam a conviver. O que poderia ser apenas uma narrativa sobre envelhecimento se torna uma investigação sobre casa, autonomia, finitude e permanência da identidade.

Com poucos diálogos, “Lucrécia” aposta em imagens, movimento e música executada ao vivo para conduzir o público. A dramaturgia não explica demais. Ela cria uma travessia sensorial em torno da personagem e de tudo aquilo que uma vida acumula: rituais cotidianos, afetos, objetos guardados, pequenas manias, ausências e formas de pertencimento.

A protagonista é interpretada por uma marionete híbrida, que integra o boneco ao corpo da atriz Helena Tezza. É a primeira vez que a Ave Lola coloca uma figura desse tipo no centro de uma narrativa. A escolha amplia as possibilidades de representação da personagem, especialmente em uma história que se move entre corpo, memória e imaginação.

“A marionete consegue fazer coisas que um corpo humano não faz. Ela voa, ganha amplitude e desaparece se quiser. Essa liberdade amplia a experiência poética do espetáculo e nos permite entrar no universo interior de Lucrécia”, afirma a diretora e dramaturga Ana Rosa Genari Tezza.

Enquanto Helena Tezza dá vida à protagonista, Wenry Bueno interpreta os diferentes personagens que atravessam suas memórias. A música ao vivo é conduzida por Arthur Jaime e Breno Monte Serrat, que também assinam a direção musical. Mais do que acompanhar a cena, a trilha constrói uma dramaturgia sonora própria, ajudando a desenhar os deslocamentos internos da personagem.

A linguagem das marionetes acompanha a trajetória da Ave Lola desde sua fundação e já esteve presente em espetáculos como “Sozinho com Romeu e Julieta” e “Cão Vadio”. Em “Lucrécia”, no entanto, essa pesquisa assume outro lugar. A marionete não aparece como recurso pontual ou elemento de composição: ela carrega o centro emocional da montagem.

Parte do processo de criação foi desenvolvida em residências artísticas na Bélgica, com as marionetistas Tita Iacobelli e Natacha Belova, e em Curitiba, com o chileno Jaime Lorca, referências internacionais no teatro de animação. Esses encontros aprofundaram uma investigação que a companhia já vinha desenvolvendo de forma continuada.

O espetáculo chega em um momento importante para a Ave Lola. Fundada em Curitiba em 2010 por Ana Rosa Genari Tezza, a trupe completa 15 anos de trajetória com reconhecimento nacional, circulação por diferentes cidades e uma pesquisa marcada pela criação autoral, pela música ao vivo, pelo teatro popular e pela construção imagética. Em 2026, a companhia também recebeu duas indicações ao 37º Prêmio Shell por “Sonho de Uma Noite de Verão”, nas categorias Direção, para Ana Rosa Tezza, e Figurino, para Ana Rosa Tezza e Helena Tezza.

Mais do que falar sobre a velhice como tema, “Lucrécia” olha para o envelhecimento como experiência de deslocamento. A personagem é confrontada com a possibilidade de perder sua casa, seus objetos e a autonomia sobre o próprio cotidiano. A pergunta que atravessa a obra é simples e difícil: quando tudo aquilo que organizava uma vida é retirado, o que ainda permanece?

“Lucrécia fala sobre o momento em que uma vida começa a se transformar em memória. Escolhemos olhar para aquilo que nos torna únicos: a casa onde vivemos, os rituais que construímos, os objetos que escolhemos guardar, as pessoas que amamos. Quando tudo isso nos é retirado, o que permanece da nossa identidade?”, reflete Ana Rosa.

A montagem também reafirma a importância de espaços independentes de criação. Ao apresentar a obra em sua própria sede, no centro de Curitiba, a Ave Lola reforça uma forma de trabalho que depende de continuidade, pesquisa e convivência. “Lucrécia” nasce desse tempo longo: dois anos de investigação, intercâmbios, construção de linguagem e amadurecimento coletivo.

Em cena, a finitude não aparece apenas como encerramento. Ela também abre perguntas sobre aquilo que uma vida deixa como vestígio. O espetáculo observa a passagem do tempo sem transformar a velhice em perda absoluta. Há fragilidade, mas também invenção. Há medo, mas também fabulação. Há despedida, mas também imaginação.

Por isso, “Lucrécia” encontra sua força naquilo que não diz diretamente. A personagem se esconde para não ser levada embora, mas o gesto de fuga se transforma em mergulho. Dentro do guarda-roupa, ela não desaparece. Ao contrário: encontra um último espaço para existir em seus próprios termos.

Serviço

Lucrécia
Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Dramaturgia: Ana Rosa Genari Tezza e equipe criativa
Elenco: Helena Tezza e Wenry Bueno
Direção musical e músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Realização: Ministério da Cultura e Ave Lola, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura

Temporada: até 6 de setembro de 2026
Local: Ave Lola Espaço de Criação
Endereço: Rua Marechal Deodoro, 1227 — Centro, Curitiba — PR

Próximas sessões, a partir de 24 de agosto:
26 de agosto, quarta-feira, às 20h
27 de agosto, quinta-feira, às 20h — sessão com Libras e audiodescrição
28 de agosto, sexta-feira, às 20h
29 de agosto, sábado, às 16h e às 20h
30 de agosto, domingo, às 18h
2 de setembro, quarta-feira, às 20h
3 de setembro, quinta-feira, às 20h — sessão com Libras e audiodescrição
4 de setembro, sexta-feira, às 20h
5 de setembro, sábado, às 16h e às 20h
6 de setembro, domingo, às 18h

Ingressos: Pague o Quanto Vale
Distribuição: por ordem de chegada, a partir de 1 hora antes de cada apresentação
Duração: 1h30
Classificação indicativa: 12 anos
Instagram: @ave_lola

Ficha técnica

Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Dramaturgia: Ana Rosa Genari Tezza e equipe criativa
Assistência de direção: Cesar Matheus
Elenco: Helena Tezza e Wenry Bueno
Direção musical e músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Criação e construção de bonecos: Eduardo Santos
Cenário: Daniel Pinha
Figurino: Eduardo Giacomini
Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski
Preparação corporal e coreografia: Ane Adade
Fotografias: André Tezza
Direção executiva: Entre Mundos Produções Artísticas
Direção de produção: Dara van Doorn, Elza Forte da Silva Carneiro e Laura Tezza

TeatroIsabel Branquinha

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