Teatro independente de quem?
Coluna de OpiniãoPedro Amaral · Editor-chefe do FOYERA peça acaba. As luzes sobem. O elenco agradece, a plateia aplaude, e alguém dá um passo à frente para falar. Pode ser o diretor, a produtora, uma atriz. E quase sempre vem a frase. "Somos uma produção independente."
Eu já ouvi essa frase dezenas de vezes. Já disse também. E nunca tinha parado para pensar no que ela quer dizer.
Independente de quem?
Do Estado, porque a peça não foi contemplada em nenhum edital? De uma marca, porque não tem patrocínio? Ou independente no sentido de liberdade, de poder dizer o que quer, do jeito que quer? Desconfio que, na maioria das vezes, não é nenhuma dessas coisas. Quando a gente diz independente no fim de uma peça, a gente quer dizer outra coisa. A gente quer dizer que não teve dinheiro.
Em outras áreas a palavra tem outro peso. No cinema e na música, independente fala de quem controla a obra e de como ela chega ao público. Um disco independente é aquele que não passou por uma grande gravadora. Tem a ver com autonomia. No teatro, a palavra foi encolhendo. Virou quase sinônimo de "não passou no edital".
E é aqui que está o que me incomoda. Não existe peça sem dinheiro.
Pense na equipe de um espetáculo sem apoio. São semanas, às vezes meses, de ensaio. Cada pessoa sai de casa, pega metrô, ônibus, come alguma coisa na rua. Dez reais por dia, vinte, trinta. Some isso ao longo de um processo inteiro. Some o figurino que alguém comprou, a sala que alguém alugou, o material gráfico que alguém pagou do próprio bolso. Esse dinheiro não volta. Ninguém devolve.
Então essa peça foi financiada. Só que por quem fez.
Quando a gente chama isso de independente, a gente apaga esse financiamento. Ele some do discurso. E junto com ele some o trabalho de quem ensaiou sem receber, de quem pagou para estar ali. A palavra parece neutra, mas não é. Ela esconde a conta.
Tem mais uma coisa. Repare no tom. Quase sempre essa frase vem como pedido de desculpa. Como se dissesse "releve, a gente fez com o que tinha". Como se a peça fosse menor por não ter o logo de um patrocinador no programa. Será que é? Quantas vezes uma obra feita assim tem mais força do que muita coisa financiada? E por que a gente se apresenta como menor antes mesmo de o público decidir?
Não estou dizendo que o discurso no fim da peça deveria acabar. Ele tem uma função. É ali que a gente pede para divulgar, marcar o arroba da peça e indicar para os amigos. É ali que a gente sobrevive. Eu sei disso porque também estou desse lado.
Mas talvez a gente possa mudar a frase.
E se, em vez de "somos uma produção independente", a gente dissesse "esta peça foi financiada pela própria equipe"? A informação é a mesma. O efeito é outro. A primeira frase pede desculpa. A segunda mostra o tamanho do investimento. A primeira faz a plateia sentir pena. A segunda faz a plateia entender que está diante de gente que apostou alto naquilo.
Não se trata de romantizar. Artista não deveria pagar para trabalhar. E dizer isso em voz alta é o primeiro passo para que essa realidade seja vista. Enquanto a gente esconder esse dinheiro atrás de uma palavra bonita, ninguém vai precisar se responsabilizar por ele.
Então eu volto à pergunta. Independente de quem?
Talvez a resposta mais honesta seja simples. De ninguém. Essa peça dependeu de todo mundo que estava ali.


