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Solo que parte do colapso de Nietzsche diante de um cavalo fica em cartaz no Sesc Ipiranga até 11 de outubro

Solo que parte do colapso de Nietzsche diante de um cavalo fica em cartaz no Sesc Ipiranga até 11 de outubro
Foto: Maurizio Mancioli

Concebido e interpretado por João Paulo Lorenzon, com direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, o espetáculo passou pelo Festival de Avignon e transforma o episódio de Turim em uma reflexão sobre violência e angústia climática.

Em 3 de janeiro de 1889, na Piazza Carlo Alberto, em Turim, Friedrich Nietzsche viu um cocheiro espancando um cavalo, atirou-se ao pescoço do animal para protegê-lo e chorou. A partir daquele momento, entrou em colapso mental definitivo. É dessa cena que parte "Do Cavalo Nada Sabemos", solo de teatro físico concebido e interpretado por João Paulo Lorenzon, em cartaz no Sesc Ipiranga até 11 de outubro.

As sessões acontecem às sextas-feiras, às 21h, e aos sábados e domingos, às 18h30, com sessão extra na quinta-feira 1º de outubro, às 21h. Não há apresentação no dia 4 de outubro. A direção é de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini, e a codramaturgia é da psicanalista Renata Zambonelli.

Primeiro brasileiro a atuar e dirigir na mesma edição de Avignon

Em julho deste ano, Lorenzon voltou ao Festival de Avignon, na França, e se tornou o primeiro artista brasileiro a assinar, numa mesma edição do evento, o protagonismo de um espetáculo e a direção de outro. Atuou em "Do Cavalo Nada Sabemos" e dirigiu "Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma", com Julia Setubal, inspirado no universo de Sarah Kane. Dez anos antes, ele já havia se apresentado no festival com "Nijinsky: Minha Loucura é o Amor da Humanidade".

A crítica francesa recebeu bem a montagem no Théâtre LaScierie. O site Classique en Provence descreveu a performance como enigmática e fascinante, destacando o solilóquio em que a distinção entre homem e cavalo se dissolve. O Journal La Terrasse apontou a potência da fisicalidade e a experiência sensorial que dilui a fronteira entre o animal e o humano.

Da culpa neurótica à ansiedade climática

A parceria com Renata Zambonelli expandiu o episódio de 1889 para uma reflexão sobre o Antropoceno, a era geológica marcada pelo impacto humano sobre o planeta.

"Transpusemos essa cena para o presente para abordar a travessia do niilismo. Atualmente, muitos jovens vivenciam uma completa impotência diante da ameaça de extinção", explica a psicanalista. "A proposta da peça é indicar uma alternativa para que o ser humano saia da culpa neurótica e do papel de dominador, enxergando o outro e reconhecendo-se integrado a tudo o que existe."

A principal matriz teórica é o pensamento da bióloga e filósofa Donna Haraway, para quem humanos e não humanos precisam aprender a coabitar um planeta ferido. Daí veio o elemento cenográfico central, concebido por Dominic Kiessling: uma estrutura inflável e amorfa, próxima de formas orgânicas e águas-vivas primordiais, que produz em cena um jogo de fusão e separação entre o corpo do ator e o espaço. A pesquisa incorporou ainda referências como o filme "O Cavalo de Turim", de Béla Tarr, o longa polonês "Eo" e o conceito de homem do subsolo, de Dostoiévski.

O corpo que bate e se horroriza ao mesmo tempo

A tensão central da peça se traduz no que o ator chama de corpo cindido. "Um braço bate enquanto o outro implora que pare. Um lado executa a força, o outro se horroriza com essa ação. As costas ardem com o golpe, mas o ombro de quem bate também se contunde", descreve Lorenzon. A técnica expõe a violência como algo que atravessa o próprio indivíduo que tenta contê-la.

A estrutura dramatúrgica partiu de um material elaborado por Denise Stoklos sobre manifestações históricas de opressão, que o ator optou por abstrair. "Retirei palavras que fixavam sentidos específicos porque pretendo que cada pessoa imagine o cavalo que quiser", afirma.

A encenação cruza o Teatro Essencial de Stoklos com a pesquisa vocal de Alessandra Maestrini. "O público é posicionado no centro dessa arena. Quando o ator se golpeia, a plateia testemunha uma entrega física que expõe suas próprias questões internas", descreve Maestrini.

Serviço

Do Cavalo Nada Sabemos Sesc Ipiranga, Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo. Telefone (11) 3340-2000
Até 11 de outubro de 2026 Sextas às 21h, sábados e domingos às 18h30. Sessão extra em 1º de outubro, quinta, às 21h
Não haverá sessão em 4 de outubro Informações e ingressos em sescsp.org.br/ipiranga
Duração: 50 minutos.
Classificação: 16 anos
Concepção, dramaturgia e atuação: João Paulo Lorenzon
Direção: Denise Stoklos e Alessandra Maestrini.
Codramaturgia: Renata Zambonelli

TeatroIsabel Branquinha

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