Rádio Eldorado volta ao ar em 107,9 FM depois de protesto na Paulista e 11 mil assinaturas
A emissora fundada em 1958 reestreou na quarta, 7 de outubro, quase cinco meses depois de deixar o ar, agora em frequência comercial e com apoio da Porto.
Cerca de 90% da programação foi preservada, e a principal novidade é um programa diário com Juliana Wallauer, do Mamilos.
A Rádio Eldorado voltou ao ar na quarta-feira, 7 de outubro, na frequência 107,9 FM, quase cinco meses depois de encerrar as transmissões. O retorno veio depois de uma mobilização de ouvintes que incluiu um protesto com cerca de 400 pessoas em frente ao Masp, na Avenida Paulista, outro ato na Casa de Francisca, no centro, e um abaixo-assinado com mais de 11 mil assinaturas.
A reestreia foi marcada por um evento na Casa Natura Musical, em São Paulo. A cantora Tulipa Ruiz se apresentou com o irmão, Gustavo Ruiz, e uma transmissão especial reuniu Emanuel Bomfim, diretor artístico da rádio, Roberta Martinelli e Paula Lima.
Fundada em 1958 pela família Mesquita e pertencente ao Grupo Estado, a Eldorado construiu sua identidade na curadoria musical, no jornalismo e na valorização da produção cultural brasileira. Passaram por ela nomes como Jô Soares, Fernanda Young e Rita Lobo.
Por que a emissora havia saído do ar
A Eldorado deixou a frequência 107,3 FM em 14 de maio de 2026, hoje ocupada pela Rádio Bandeirantes. A saída teve origem no fim da parceria entre o Grupo Estado e a Fundação Brasil 2000, depois denominada Fundação Gamaro, detentora da concessão usada pela emissora. A fundação negociou uma nova configuração do canal envolvendo o Grupo Bandeirantes.
Na época, o Estadão anunciou o encerramento da operação radiofônica apontando as transformações do mercado de áudio, o crescimento do streaming, a mudança nos hábitos de consumo e a ampliação dos investimentos do grupo em conteúdos digitais.
Havia também uma questão financeira. A Eldorado operava em frequência educativa, que tem restrições comerciais, mas custos menores. Migrar para outra frequência exigiria investimentos considerados elevados pela direção naquele momento. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em abril mostrou que funcionários questionavam a ausência de alternativas comerciais para preservar a operação, como a aproximação com patrocinadores e a negociação de direitos de associação da marca.
Como a volta foi viabilizada
A solução veio de uma parceria entre o Grupo Estado e a Porto, que passou a apoiar comercialmente a operação. A aproximação foi intermediada pela Editora Trip, ligada à emissora há mais de duas décadas pelo programa Trip FM. Paulo Lima, fundador da editora e apresentador da atração, participou das articulações.
O acordo tem duração inicial de três anos, com possibilidade de renovação. A Porto entra como parceira comercial e poderá desenvolver projetos de conteúdo associados à programação, enquanto o Estadão permanece responsável pela operação e pela linha editorial. Embora a negociação envolva direitos de associação de marca, a empresa optou por preservar o nome Eldorado.
A nova frequência tem uma diferença decisiva em relação à anterior: é uma operação comercial, o que permite maior flexibilidade publicitária. A emissora anunciou a criação de um núcleo comercial próprio e a ampliação da equipe, de 52 para cerca de 60 profissionais.
O que volta e o que ficou de fora
Segundo a direção, cerca de 90% da programação anterior foi preservada. Entre os retornos estão "Som a Pino", com Roberta Martinelli, "Fim de Tarde Eldorado", com Emanuel Bomfim e Leandro Cacossi, "Trip FM", de Paulo Lima, "Música Falada", de Maurício Pereira, e "Chocolate Quente", com Paula Lima. A grade prevê ainda "Clube do Livro", "Minha Canção", com Sarah Oliveira, "Navega", de Baba Vacaro, e "Edição Limitada", de Lupa Santiago, que passa a ter uma hora de duração.
No jornalismo, o "Jornal Eldorado" volta de segunda a sexta, das 6h às 9h, com Haisem Abaki e Michelle Trombelli. A jornalista assume também a gerência de jornalismo, com a proposta de ampliar a integração com a redação do Estadão.
A principal novidade é "Relaxa e Prosa", comandado por Juliana Wallauer, uma das criadoras do podcast Mamilos, de segunda a sexta, das 19h às 20h, com coapresentadores rotativos, entre eles Cris Bartis. Diferentemente de boa parte da grade, o programa não tem proposta musical, privilegiando conversas sobre comportamento e atualidades. O horário das 19h só ficou livre por causa da mudança de categoria da frequência: como emissora educativa, a Eldorado era obrigada a transmitir A Voz do Brasil nesse horário, e agora pode exibir o programa às 21h.
Outro retorno é o "Bike Repórter", projeto de cobertura da mobilidade urbana criado nos anos 2000 pela jornalista Renata Falzoni, hoje vereadora de São Paulo.
Não todos voltaram. "A Hora da Vitrola", apresentado por André Góis desde 2017 e dedicado a rock, pop e soul, ficou fora da nova grade por decisão da direção. O programa recebeu reconhecimento da APCA em 2019.
Rádio para ver, e um acervo sem destino
A expansão audiovisual é uma das apostas da nova fase. O "Jornal Eldorado" e o "Relaxa e Prosa" terão transmissão ao vivo pelo YouTube, somando pelo menos quatro horas diárias de programação em vídeo, e parte do "Fim de Tarde Eldorado" também ficará disponível em imagem. A programação pode ser acompanhada pela frequência 107,9 FM em São Paulo e região metropolitana, pelo site da rádio, pelo aplicativo do Estadão e por dispositivos com assistentes virtuais.
Já o acervo físico, formado por vinis e CDs reunidos ao longo de décadas, segue sem destino definido. A direção informou que estuda venda ou doação, porque a nova operação usa arquivos musicais digitais.
A volta custou a programação da Tropical FM
A chegada da Eldorado ao 107,9 teve uma consequência pouco comentada. A frequência abrigava a Tropical FM, fundada pelo cantor Cyro Aguiar em 1987, que construiu sua identidade em torno da música popular, do samba, do pagode e da participação dos ouvintes. Depois de 39 anos, sua programação regular terminou em 30 de setembro.
O acordo não envolveu a venda da concessão da Tropical, mas a cessão da exploração de sua programação para o novo projeto do Grupo Estado. A mudança celebrada pelos ouvintes de uma emissora significou, portanto, a despedida de outra marca conhecida do rádio paulistano.
Serviço
Rádio Eldorado
107,9 FM, em São Paulo e região metropolitana
Também pelo site da emissora, pelo aplicativo do Estadão e por dispositivos com assistentes virtuais
Reestreia em 7 de outubro de 2026
Direção artística: Emanuel Bomfim. Gerência de jornalismo: Michelle Trombelli
Parceria comercial com a Porto, com duração inicial de três anos


