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Chão de Estrelas: Orestes Barbosa morreu com a própria vida em cartaz, há 60 anos

Chão de Estrelas: Orestes Barbosa morreu com a própria vida em cartaz, há 60 anos
Foto: Autor não identificado/Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (domínio público)

Orestes Dias Barbosa morreu em casa, no Rio de Janeiro, às 15 horas de 15 de agosto de 1966. Tinha 73 anos. A causa foi uma trombose cerebral. Naquela semana, um espetáculo contava a vida dele num anfiteatro do centro da cidade, com o nome da canção que o tornara conhecido. O obituário publicado por O Globo no dia seguinte começou por aí.

"O compositor Orestes Barbosa, de 73 anos, cuja vida artística está sendo contada num espetáculo do Teatro da Arena da Guanabara", escreveu O Globo em 16 de agosto de 1966, em trecho transcrito pelo verbete do Dicionário Cravo Albin.

A nota seguia com o nome do espetáculo, Chão de Estrelas, e a causa da morte. Depois informava o velório na Assembleia Legislativa e o enterro no cemitério de São Francisco Xavier, no Caju. O jornal noticiava a morte de alguém que tinha trabalhado na própria redação.

Barbosa entrou para a história como letrista, e chegou lá tarde. Antes de escrever samba passou duas décadas dentro de jornal, como revisor, repórter de polícia, secretário e cronista. Publicou poesia, crônica e um dos primeiros livros sobre o samba urbano carioca. A canção só veio quando ele já beirava os quarenta anos.

Aprendeu a ler no letreiro do bonde

Filho caçula de um major, cresceu com a família em dificuldade e ficou fora da escola. Aprendeu a ler sozinho, na rua, olhando letreiro de bonde e manchete de jornal. Teve a ajuda de um vizinho, Clodoaldo de Moraes, que era pai de Vinicius de Moraes, homenageado em musical no Sesc Santo Amaro. Foi o mesmo vizinho que lhe deu as primeiras lições de violão, aos dez anos.

Entrou na escola aos 12. Passou pelo Liceu de Artes e Ofícios, onde aprendeu o ofício de revisor, e ainda menino venceu um concurso literário da revista infantil Tico-Tico. Depois disso não saiu mais de redação. Foi revisor, repórter, secretário e cronista, e o Dicionário Cravo Albin registra que exerceu todas essas funções dentro de um jornal.

A crônica policial foi a escola dele, e a Enciclopédia Itaú Cultural diz que começar por ali deixou marca nos escritos e nas canções que vieram depois. Uma manchete que assinou ficou célebre: "Cortou o mal pela raiz", sobre um caso em que a mulher mutilou o marido que a traíra. Passou pelo Diário de Notícias, por A Noite, A Notícia, O Dia e O Globo. O que escrevia lhe custou caro. Foi preso mais de uma vez por artigos contra figuras públicas.

Antes da letra vieram os livros

Penumbra Sagrada, de 1917, foi o primeiro, e era poesia. Vieram depois Água-Marinha, de 1921, e Na Prisão, livro de crônicas escrito a partir das próprias detenções. Em 1923 saiu Ban-Ban-Ban!, outro livro de crônica e prosa. A folha de rosto digitalizada no Wikimedia Commons traz o ano e o prefácio de José do Patrocínio Filho.

Em 1922 ele se candidatou à Academia Brasileira de Letras, na vaga aberta pela morte de João do Rio. Não recebeu nenhum voto. Onze anos depois publicou Samba: Sua História, Seus Poetas, Seus Músicos e Seus Cantores, que a Enciclopédia Itaú Cultural descreve como livro precursor da história da música popular carioca. Em 1932 tinha sido jurado do concurso de escolas de samba na Praça Onze.

Fundou com o amigo e parceiro Nássara um jornal de vida curta, A Jornada, que discutia a língua falada no Brasil e brigava com a companhia de energia elétrica. A epígrafe do jornal era esta: "Não quero saber quem descobriu o Brasil; quero saber quem é que bota água no leite." Segundo o Dicionário Cravo Albin, foi de uma crítica publicada ali que Noel Rosa tirou o samba Não Tem Tradução. Nos anos 1930 Barbosa também manteve coluna de rádio em jornal, no tempo que o teatro de revista revisita até hoje.

O palco chegou antes da morte

Nos anos 1960 ele vivia recluso. Sofrera derrames entre 1958 e 1959 e se aposentou em 1963 da Câmara Municipal do Rio, onde entrara como redator e chegou a vice-diretor. Foi justamente nesse período que o samba subiu ao palco carioca em série. Opinião estava em cartaz em 1964, Rosa de Ouro em 1965, e o espetáculo sobre a vida dele veio em 1966. O caminho não se fechou ali e continua rendendo montagem.

Chão de Estrelas foi escrito por Walmir Ayala em parceria com Elton Medeiros, sambista que na mesma época frequentava o Zicartola e integrava A Voz do Morro. A direção era de Álvaro Guimarães, conforme o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural. Contar a vida de um nome da música em cena virou fórmula corrente depois, mas em 1966 o retratado ainda estava vivo.

A casa era o Teatro da Arena da Guanabara. O Dicionário Cravo Albin o descreve como um anfiteatro em forma de circo, levantado no Largo da Carioca, na área do Morro de Santo Antônio, que acabara de ser desmontado. A Enciclopédia Itaú Cultural data a construção em 1963, no verbete do cenógrafo Pernambuco de Oliveira, que integrou o grupo responsável pela obra. Era o terreno do Tabuleiro da Baiana, a estação de bondes aberta em 1937 e derrubada em 1968, junto com o que restava do morro. Quem trabalhou ali deixou registro: o jornalista Ricardo Viveiros, que entrou na casa ainda adolescente, conta na própria biografia ter sido iluminador, ator e assistente de direção em montagens do teatro, Chão de Estrelas entre elas. Quanto tempo durou a temporada, nenhuma das fontes abertas para esta reportagem diz.

O verso que sobreviveu ao repórter

Chão de Estrelas é de 1937, parceria com Sílvio Caldas, que a gravou. A letra descreve um palco: "Minha vida / Era um palco iluminado / E eu vivia / Vestido de doirado / Palhaço das perdidas ilusões". O homem que passou a vida em redação escolheu o teatro como imagem para falar de si.

"As melhores canções parecem roteiros cinematográficos, e o conjunto de todas elas é o script do Rio", afirma o cronista Paulo Mendes Campos, em trecho reproduzido pela Enciclopédia Itaú Cultural.

A canção foi regravada dezenas de vezes, por Elizeth Cardoso, Maysa, Maria Bethânia, Jacob do Bandolim e Os Mutantes. Em 2005 saiu a biografia escrita por Carlos Didier, e o subtítulo põe as coisas na ordem em que aconteceram: repórter, cronista e poeta.

Sessenta anos se fecham em 15 de agosto de 2026, e a ordem do obituário continua de pé. Primeiro veio a redação. O palco chegou por último, e chegou a tempo.

Perguntas rápidas

Quando morreu Orestes Barbosa? Em 15 de agosto de 1966, no Rio de Janeiro, aos 73 anos, de trombose cerebral. O Dicionário Cravo Albin e a Rádio Nacional registram a mesma data; a Enciclopédia Itaú Cultural registra só o ano.

Quem escreveu Chão de Estrelas? A letra é de Orestes Barbosa e a música de Sílvio Caldas, que gravou a canção em 1937. O mesmo título batiza o espetáculo de 1966 sobre a vida do letrista, escrito por Walmir Ayala e Elton Medeiros.

Orestes Barbosa era jornalista? Era. Trabalhou como revisor, repórter, secretário e cronista em jornais do Rio, começou pela crônica policial e publicou livros antes de escrever para o disco.

MemóriaRedação Foyer

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