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Quarenta horas de fitas esquecidas por 30 anos viraram o documentário de "Da Lata"

Quarenta horas de fitas esquecidas por 30 anos viraram o documentário de ”Da Lata”
Foto: Mateus Rubim/Divulgação.

Dirigido por Paulo Severo a partir de um arquivo em Super VHS redescoberto três décadas depois, "Fernanda Abreu: Da Lata 30 Anos" é exibido no FESTin, em Lisboa, em 10 de outubro, às 21h, com presença da cantora. Na passagem por Portugal, ela afirmou que preconceito com funk é racismo.

Paulo Severo, amigo de Fernanda Abreu e responsável por registros audiovisuais do período, encontrou no próprio arquivo cerca de 40 horas de fitas Super VHS gravadas durante a produção de "Da Lata", álbum que a cantora lançou em 1995. Uma pequena parte do material havia sido usada na época. O resto ficou guardado por três décadas.

É desse acervo que nasceu "Fernanda Abreu: Da Lata 30 Anos", exibido no FESTin, Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, em 10 de outubro, às 21h, no Fórum Lisboa. A cantora e o diretor participam da sessão.

As imagens acompanham sessões de gravação no Brasil e na Inglaterra, bastidores de videoclipes, o ensaio fotográfico da capa com Walter Carvalho e registros da primeira turnê. O documentário acrescenta depoimentos atuais de Herbert Vianna, Lenine, Liminha, Deborah Colker, Hermano Vianna, Marcos Suzano, Pedro Luís e do próprio Walter Carvalho. A direção e a montagem são de Paulo Severo, e o roteiro é dele com Fernanda.

"Preconceito com funk é racismo"

Na passagem por Portugal, a artista voltou a tratar da resistência histórica enfrentada pelo funk carioca e resumiu a leitura em uma frase: "Preconceito com funk é racismo." A afirmação dá sequência a uma discussão que ela já vinha fazendo no Brasil, relacionando a criminalização do gênero à sua origem negra, periférica e suburbana.

O argumento encontra eco no próprio disco. "Da Lata" juntou batidas eletrônicas, samba e funk carioca num período em que o gênero movimentava multidões nos bailes do Rio, mas ainda era tratado fora das periferias como problema social, e não como produção cultural da cidade.

Três décadas depois, o funk ampliou a presença comercial e se tornou uma das linguagens brasileiras de maior circulação internacional, o que não eliminou o preconceito. A retomada do álbum recoloca a pergunta sobre qual música é reconhecida como cultura e quais sons seguem associados à marginalidade.

O terceiro disco e o nome que brinca com 1987

"Da Lata" foi o terceiro álbum solo de Fernanda Abreu e partiu da proposta de fazer pop eletrônico com identidade brasileira. Foi produzido principalmente por Liminha e Will Mowat, com participações de Chico Neves e DJ Memê, gravado no Rio de Janeiro e mixado no estúdio do Soul II Soul, em Londres. Entre as faixas estão "Garota Sangue Bom", "Veneno da Lata", "Tudo Vale a Pena" e "Brasil É o País do Suingue". O disco recebeu certificado de ouro no Brasil e saiu também no mercado europeu.

A lata do título carregava duas camadas. Para a cantora, o objeto remetia à sucata transformada em instrumento e ao universo das ruas e periferias, em oposição ao que já estava estabelecido como representação oficial da música brasileira. O nome brincava ainda com o Verão da Lata, episódio de 1987 em que latas de maconha lançadas ao mar chegaram às praias brasileiras e entraram no imaginário popular.

A celebração dos 30 anos do álbum inclui, além do documentário, reedição em vinil, livro, um remix de "Garota Sangue Bom" e nova turnê.

Serviço

Fernanda Abreu: Da Lata 30 Anos FESTin, Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, 17ª edição Fórum Lisboa, Lisboa,
Portugal 10 de outubro de 2026, às 21h, com presença de Fernanda Abreu e Paulo Severo
Direção e montagem: Paulo Severo.
Roteiro: Paulo Severo e Fernanda Abreu
O festival acontece de 1º a 11 de outubro de 2026

Fontes

Declarações de Fernanda Abreu durante a passagem por Portugal e material de divulgação do FESTin.

Quem aparece nesta matériaHerbert ViannaWalter Carvalho
CinemaIsabel Branquinha

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