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“Poema Suspenso para uma Cidade em Queda” ganha nova temporada gratuita na Funarte SP

“Poema Suspenso para uma Cidade em Queda” ganha nova temporada gratuita na Funarte SP
Foto: Matheus José Maria

Espetáculo da Cia. Mungunzá, dirigido por Luiz Fernando Marques, volta ao cartaz em meio à indefinição sobre o futuro do Teatro de Contêiner

A Cia. Mungunzá de Teatro volta ao Complexo Cultural Funarte SP com “Poema Suspenso para uma Cidade em Queda”, espetáculo dirigido por Luiz Fernando Marques, o Lubi, integrante do Grupo XIX de Teatro. A nova temporada gratuita começa em 26 de agosto, com sessões às 19h30.

Criado em 2015, o espetáculo acompanha os moradores de um prédio depois que uma pessoa cai do topo da construção, mas nunca chega ao chão. Os anos passam, o corpo permanece suspenso e a vida dentro dos apartamentos fica presa a uma espécie de paralisia coletiva. Cada personagem continua mergulhado em sua própria queda, em uma experiência que não termina.

A imagem é simples e brutal: alguém cai, mas a queda nunca se completa. A partir dela, a Mungunzá constrói uma fábula contemporânea sobre imobilidade, excesso de possibilidades e a sensação de viver em suspensão. Não se trata apenas de um acidente impossível, mas de uma metáfora para um estado de mundo: estamos sempre à beira de algo, esperando uma transformação que não chega.

A montagem tem argumento da Cia. Mungunzá de Teatro, dramaturgia do elenco e da direção, e finalização dramatúrgica de Verônica Gentilin. Em cena estão Verônica Gentilin, Virginia Iglesias, Lucas Beda, Marcos Felipe, Sandra Modesto, Pedro das Oliveiras e Léo Akio.

No palco, os atores ocupam uma estrutura de andaimes que simboliza o prédio. Cada nicho funciona como um apartamento, onde uma história se desenrola sem ligação aparente com as demais. Os personagens não enxergam o todo. O público, sim. É ele quem observa o conjunto, como se estivesse diante de uma fachada aberta ou de um quebra-cabeça em movimento.

Essa escolha espacial é uma das marcas do espetáculo. A estrutura não serve apenas como cenário. Ela organiza a dramaturgia, define a relação entre os intérpretes e constrói uma experiência em que cada espectador precisa decidir para onde olhar. O prédio se torna corpo, engrenagem e cidade ao mesmo tempo.

Segundo Verônica Gentilin, o texto nasceu de histórias reais do elenco. “Construímos o texto em conjunto, com base em histórias reais. Em cada um desses apartamentos, algo acontece. Os atores não têm visão do todo e não sabem o que está acontecendo nos outros nichos. Somente o público consegue enxergar toda essa situação de maneira integrada, como se observasse um prédio de longe ou estivesse montando um quebra-cabeça”, afirma.

A peça fala de imobilidade, mas não como ausência de movimento. Pelo contrário: há excesso, deslocamento, acúmulo de caminhos possíveis. O problema é que nada parece se concluir. Os personagens vivem presos a situações circulares, redutos íntimos e traumas que se repetem. Enquanto o corpo suspenso não toca o chão, todos permanecem de algum modo interrompidos.

“Estamos sempre prestes a mudar, a ter uma revolução, a ver as coisas acontecerem e esse momento nunca chega. Vivemos numa imobilidade, com uma sensação de que algo novo pode surgir a qualquer segundo, mas não damos um passo concreto em busca disso”, diz Verônica.

Uma volta em momento delicado para a companhia

A nova temporada acontece enquanto a Cia. Mungunzá segue sem uma definição pública sobre um novo terreno para o Teatro de Contêiner, espaço que se tornou uma das principais referências culturais independentes da cidade de São Paulo.

Criado em 2017, o Teatro de Contêiner consolidou a presença da companhia na região central, combinando programação artística, formação, convivência e atuação territorial. Depois da interrupção das atividades do espaço, a Funarte passou a receber parte da programação do grupo no Complexo Cultural Funarte SP.

Nesse contexto, a volta de “Poema Suspenso para uma Cidade em Queda” ganha outra camada. Uma peça sobre suspensão, paralisia e corpos impedidos de completar movimentos retorna justamente em um momento em que a própria companhia vive uma situação de deslocamento e espera.

É uma coincidência forte demais para passar despercebida.

A Mungunzá sempre trabalhou com uma ideia de teatro atravessada pela cidade. Seus espetáculos costumam olhar para biografias, territórios, deslocamentos e formas de existência que escapam às narrativas mais confortáveis. Em “Poema Suspenso”, essa pesquisa aparece em uma chave menos documental e mais fabular, mas igualmente ligada a um mal-estar urbano.

A cidade em queda do título não é apenas o cenário. É também uma sensação coletiva. Um lugar em que todos parecem próximos demais e, ao mesmo tempo, incapazes de se ver. Cada morador vive fechado em seu apartamento, preso à própria história, enquanto algo enorme e impossível permanece acontecendo do lado de fora.

Construção coletiva

Luiz Fernando Marques chegou ao projeto depois do reconhecimento de “Luis Antonio-Gabriela”, um dos espetáculos mais premiados da Cia. Mungunzá. Segundo o diretor, o processo começou pela escuta do que os atores e atrizes queriam contar. A dramaturgia foi levantada em workshops, com Lubi atuando como provocador e organizador do material.

A segunda etapa foi transformar esse conjunto de histórias em cena. O diretor trabalhou para dar unidade às narrativas e encontrar uma forma teatral capaz de sustentar a multiplicidade do espetáculo. O resultado é uma montagem em que arquitetura, corpo e dramaturgia funcionam de maneira indissociável.

“Temos um prédio sem tijolos e o público pode enxergar tudo o que acontece ali dentro, se sentindo íntimo daquelas pessoas. Esse espetáculo é de uma poesia enorme. Ao mesmo tempo que as histórias provocam estranhamento na plateia, as pessoas se identificam com aquilo que estão vendo em cena. Percebemos que somos somente uma parte de uma engrenagem”, afirma Lubi.

A trilha sonora composta por Gustavo Sarzi, o desenho de luz de Pedro das Oliveiras, o vídeo de Lucas Beda e a direção de arte e figurinos de Valentina Soares ajudam a construir essa engrenagem. A peça não se apoia em uma narrativa única e linear, mas em fragmentos que se acumulam até formar uma imagem mais ampla sobre o tempo presente.

Desde sua estreia, “Poema Suspenso para uma Cidade em Queda” já passou por diferentes espaços e cidades. Segundo a própria companhia, o espetáculo soma 142 apresentações e foi visto por mais de 9.900 espectadores. Também recebeu indicação ao Prêmio Aplauso Brasil, em 2015, nas categorias Melhor Iluminação e Melhor Arquitetura Cênica.

Dez anos depois, a obra volta a encontrar um mundo que talvez esteja ainda mais parecido com sua imagem central. Entre crises sucessivas, excesso de informação, instabilidade política, precarização da vida e sensação de espera permanente, a queda continua sem chão.

É nesse ponto que a remontagem ganha força. “Poema Suspenso” não fala apenas de pessoas paradas. Fala de um sistema em que todos caem juntos, mas cada um acredita estar sozinho dentro de sua própria janela.

Sinopse

Uma pessoa cai do topo de um prédio e não chega ao chão. Os anos passam e toda a vida dos moradores desse edifício se congela em seus próprios traumas enquanto aquele corpo permanece em suspenso. Após 33 anos, ele continua “sem cair”, e as histórias de cada morador começam a se amarrar de formas inusitadas.

Presos em uma espécie de buraco negro pessoal, os personagens vivem experiências que não terminam, giram em círculos e ignoram o entorno. O espetáculo cria uma fábula contemporânea sobre a sensação de suspensão e paralisia do mundo atual.

Serviço

Poema Suspenso para uma Cidade em Queda
Companhia: Cia. Mungunzá de Teatro
Direção: Luiz Fernando Marques, o Lubi

Temporada: de 26 de agosto a 15 de outubro de 2026
Sessões: sempre às 19h30

Datas:
26, 27 e 28 de agosto
2, 3 e 4 de setembro
8, 9 e 10 de setembro
16, 17 e 18 de setembro
23, 24 e 25 de setembro
30 de setembro, 1 e 2 de outubro
7, 8 e 9 de outubro
13, 14 e 15 de outubro

Local: Complexo Cultural Funarte SP
Endereço: Alameda Nothmann, 1058 — Campos Elíseos, São Paulo — SP

Ingressos: gratuitos
Retirada presencial: 1 hora antes da sessão
Reserva online: Sympla / Teatro de Contêiner
Observação: ao chegar à Funarte, é necessário trocar o ingresso virtual pelo presencial
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

Ficha técnica

Produção: Cia. Mungunzá de Teatro
Argumento: Cia. Mungunzá de Teatro
Direção: Luiz Fernando Marques, o Lubi
Diretor assistente e preparação de elenco: Paulo Arcuri
Dramaturgia: elenco e direção
Finalização dramatúrgica: Verônica Gentilin

Elenco: Verônica Gentilin, Virginia Iglesias, Lucas Beda, Marcos Felipe, Sandra Modesto, Pedro das Oliveiras e Léo Akio

Técnicos performers: Pedro das Oliveiras e Léo Akio
Trilha sonora composta: Gustavo Sarzi
Pianista: Gustavo Sarzi e Natália Nery, substituta
Desenho de luz: Pedro das Oliveiras
Cenário: Cia. Mungunzá de Teatro, Luiz Fernando Marques e Paulo Arcuri
Direção de arte e figurinos: Valentina Soares
Vídeo: Lucas Beda
Registro do processo: Mariana Beda
Apoio e equipe técnica: Paloma Dantas, Giulia Lira, Eduardo Estefano, Mayara Ribeiro e Isabelle Iglesias
Produção executiva: Gustavo Sanna e Cia. Mungunzá de Teatro

TeatroIsabel Branquinha

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