Trainspotting vira musical no West End e estreia sob críticas duras em Londres
Trinta anos depois de o filme de Danny Boyle virar símbolo de uma geração, Trainspotting subiu ao palco em forma de musical. A adaptação assinada pelo próprio Irvine Welsh, autor do romance de 1993, teve sua noite oficial para a imprensa na quarta-feira (22) no Theatre Royal Haymarket, um dos endereços mais tradicionais do West End, e amanheceu nesta quinta (23) sob uma sequência de críticas duras nos principais veículos britânicos.
Trainspotting The Musical está em cartaz em Londres até 5 de setembro, com sessões prévias desde 15 de julho, e já tem turnê marcada pelo Reino Unido a partir de outubro. O texto é de Welsh, que também divide músicas e letras com Stephen McGuinness, produtor de música eletrônica conhecido como Stevie Mac. A direção é de Caroline Jay Ranger, responsável pela versão musical de Only Fools and Horses no mesmo teatro. Lewis Kidd vive Mark Renton, papel que projetou Ewan McGregor no cinema em 1996.
Um clássico dos anos 1990 com trilha de jukebox
A história segue a mesma do romance e do filme: um grupo de jovens de Leith, bairro portuário de Edimburgo, atravessa os anos 1990 entre a heroína, o desemprego e a amizade em ruína. Segundo o site especializado London Theatre, Welsh baseou o roteiro no romance original e também em Skagboys, prequela publicada por ele em 2012, e completam o elenco Sheridan Townsley (Sick Boy), Kieran Andrew (Spud), Frankie O'Connor (Begbie), Finlay Paul (Tommy), Rebecca McKinnis e Gordon Cooper, como os pais de Renton.
As canções inéditas dividem espaço com sucessos da época, caso de "Lust for Life" (Iggy Pop), cantada por Renton logo após o famoso monólogo do "escolha a vida", além de "Perfect Day" (Lou Reed), "Mad World" (Tears for Fears), "Bitter Sweet Symphony" (The Verve) e "Temptation" (Heaven 17), usada no encerramento. A infame cena do banheiro, na qual Renton some dentro do vaso sanitário atrás dos supositórios perdidos, foi refeita com projeções de vídeo de Douglas O'Connell sobre a cenografia de Colin Richmond.
O que escreveu a crítica londrina
A recepção da imprensa, publicada entre a noite de quarta e a manhã desta quinta, pendeu com força para o lado negativo. Na Time Out London, a crítica Holly O'Mahony resumiu o espetáculo como "espantosamente ruim" e escreveu que, em termos de tom, a montagem "é uma bagunça completa", com tanto DNA em comum com o filme de Boyle "quanto The Rocky Horror Show tem com Frankenstein ou Drácula".
No jornal especializado The Stage, a editora de críticas Sam Marlowe descreveu uma produção "domesticada e errante, que rouba do clássico cult noventista de Irvine Welsh todo o seu humor cortante" e que "descamba para a pieguice e para um tédio de novela". Já o site WhatsOnStage, em texto de Alun Hood intitulado "falha de sinal", chamou o resultado de "pacote mal concebido" que reúne "constrangimento e tédio", e apontou um tiro no pé: a presença de canções consagradas da era do filme só deixaria mais evidente, na comparação, a fragilidade das músicas novas.
Elogios pontuais ao elenco
Nem tudo foi demolição. No London Theatre, o crítico Theo Bosanquet falou em "casamento infeliz entre forma e história", mas destacou atuações, com elogios ao Spud "desengonçado" de Kieran Andrew e à Alison de Rosie Dignan, personagem de destino trágico na trama. O site The Upcoming foi na contramão da maioria e avaliou que a adaptação preserva o espírito sujo da história sem abrir mão de ser um musical completo.
Quando o projeto foi anunciado, em março, Welsh vendeu a empreitada como provocação ao gênero: à imprensa britânica, o escritor prometeu o "antimusical definitivo", segundo o The Independent, e defendeu a energia da montagem em entrevista ao The Guardian. A aposta comercial é considerável: a temporada londrina serve de vitrine para a turnê que percorrerá mais de 20 cidades britânicas, do Edinburgh Playhouse, onde a excursão começa em 19 de outubro, até o encerramento, de novo em Edimburgo, em março de 2027. A recomendação etária é de 15 anos.
O que isso diz para o público brasileiro
O caso interessa a quem acompanha a onda de filmes e marcas pop transformados em musical, movimento que há anos abastece os palcos brasileiros. Foi esse filão que trouxe ao país Beetlejuice, O Musical, a versão brasileira de Come From Away, batizada de Vindos de Longe, e mantém no radar dos produtores fenômenos como Wicked, que completou 20 anos em cartaz na Broadway.
Trainspotting testa o limite dessa lógica: nem toda obra cult aceita bem a gramática do teatro musical, e a crítica londrina sugere que o material de Welsh, violento, escatológico e antissentimental por natureza, resistiu à conversão. Por enquanto, não há anúncio de temporada fora do Reino Unido nem de versão em outros idiomas. Se a bilheteria do Haymarket compensar as resenhas, o assunto tende a voltar: no teatro comercial, o veredicto do público costuma ter a palavra final sobre o dos críticos.


