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Marieta Severo faz 80 anos, e a obra mais duradoura dela não está na TV nem no cinema

A atriz completou 80 anos na segunda, 2 de novembro, com cerca de 90 trabalhos em seis décadas e uma série nova na Netflix.

Marieta Severo faz 80 anos, e a obra mais duradoura dela não está na TV nem no cinema
Foto: Divulgação / Netflix

Mas o que ela construiu de mais permanente é o Teatro Poeira, fundado em 2005 com Andréa Beltrão e Aderbal Freire-Filho, em Botafogo, no Rio.

Para milhões de brasileiros, Marieta Severo é a Dona Nenê, matriarca de “A Grande Família” entre 2001 e 2014. É o papel que a tornou onipresente e também o que esconde o resto da história.

A atriz completou 80 anos na segunda, 2 de novembro, com cerca de 90 trabalhos em teatro, cinema e televisão ao longo de seis décadas. Chegou à data em atividade: dias antes do aniversário, estreou na Netflix a série “Dom de Iludir”, dirigida por Mauro Mendonça Filho.

O que organiza essa trajetória, no entanto, não é a popularidade. É o uso que ela fez da popularidade. Marieta transformou a projeção da televisão em condição para fazer um teatro de risco, fora do circuito comercial, e acabou construindo o endereço onde esse teatro acontece.

Do Tablado a “Roda Viva”

Carioca, Marieta começou no Tablado, a escola de teatro criada por Maria Clara Machado, e estreou profissionalmente nos anos 1960. Em 1968, integrou o elenco de “Roda Viva”, texto de Chico Buarque dirigido por José Celso Martinez Corrêa.

A montagem entrou na história do teatro brasileiro por motivo violento. Em São Paulo, o elenco foi agredido por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas, grupo paramilitar de extrema direita, episódio que transformou o espetáculo em símbolo do enfrentamento à ditadura militar.

O exílio e os fantasmas de uma geração

O período atravessou também a vida pessoal. Casada com Chico Buarque por mais de 30 anos, ela viveu com o compositor o exílio na Itália no fim dos anos 1960.

Essa memória reapareceu décadas depois no palco. Em 2016, ao apresentar “Incêndios”, do dramaturgo libanês-canadense Wajdi Mouawad, Marieta contou que cresceu cercada de mulheres presas e torturadas pelo regime. “Eu quero que através de mim esses fantasmas todos da minha geração falem”, disse na época, dedicando o trabalho à estilista Zuzu Angel.

Em “Incêndios” ela interpretou Nawal, mulher que atravessa a guerra no Oriente Médio e cuja história é reconstruída pelos filhos. Foi um dos trabalhos mais densos da maturidade dela, ao lado de Aderbal Freire-Filho.

Trinta e sete anos ao lado de Andréa Beltrão

Uma das parcerias mais longas do teatro brasileiro começou em 1989, quando as duas dividiram o palco em “A Estrela do Lar”, de Mauro Rasi. São 37 anos de trabalho conjunto.

Em 1998, viveram a mesma personagem, Maria Helena, em idades diferentes, em “A Dona da História”, de João Falcão, que depois virou filme.

O Poeira é teatro e também escola

Em 2005, com Aderbal Freire-Filho, que foi companheiro de Marieta até morrer, em 2023, as duas atrizes criaram o Teatro Poeira, em Botafogo. A casa abriu com “Sonata de Outono”, adaptação do texto de Ingmar Bergman, e se tornou referência para a produção independente no Rio.

O espaço nunca funcionou apenas como palco. Segundo Andréa Beltrão, mais de 5 mil pessoas já estudaram lá, em cursos e oficinas com mais de cem professores. Quando o teatro completou 20 anos, em 2025, Marieta resumiu o período sem retórica: “Muitas coisas boas e muitas peças lindas passaram por lá”.

A televisão que bancou o palco

A popularidade na TV começou de forma hostil. Em “O Sheik de Agadir”, de 1966, sua primeira novela, interpretou uma vilã que escondia a identidade de um assassino em série, e chegou a ser abordada com agressividade nas ruas do Rio por espectadores.

Depois vieram Alma, de “Laços de Família”, e Fanny, de “Verdades Secretas”. No cinema, protagonizou “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de 1995, filme de Carla Camurati que marcou a retomada do cinema brasileiro.

Somadas, essas camadas explicam a carreira: a atriz que o país reconhece na rua é a mesma que garantiu, com esse reconhecimento, que existisse em Botafogo, por duas décadas, uma casa pequena fazendo repertório difícil.

Onde ver

Dom de Iludir, série dirigida por Mauro Mendonça Filho, disponível na Netflix Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro, com programação própria e cursos

NotíciaIsabel Branquinha
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