São Paulo, BR YouTube ↗ Spotify ↗ Assine Anuncie

Live Nation fatura US$ 7,7 bilhões no trimestre e provisiona US$ 450 milhões pela condenação antitruste

Live Nation fatura US$ 7,7 bilhões no trimestre e provisiona US$ 450 milhões pela condenação antitruste
Foto: Cesvieira/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Live Nation vendeu 90 milhões de ingressos pela Ticketmaster entre abril e junho e faturou US$ 7,67 bilhões, 9% mais que um ano antes. Nunca a maior empresa de shows do mundo levou tanta gente aos eventos num segundo trimestre: 49 milhões de pessoas, cinco milhões a mais que um ano atrás. No mesmo balanço, apresentado na quinta-feira, 30 de julho, está a conta da derrota na Justiça americana. São US$ 450 milhões provisionados no semestre, dinheiro reservado no balanço para cobrir a indenização fixada por um júri e os acordos fechados com estados americanos numa ação civil de concorrência.

Os dois números moram na mesma página.

No trimestre, o lucro operacional foi de US$ 521,9 milhões, 7% acima do ano passado. Junte os seis meses e o quadro vira: de US$ 601,4 milhões para US$ 151,4 milhões. A queda cabe numa linha do balanço. As despesas corporativas do semestre pularam de US$ 234 milhões para US$ 666,1 milhões, e quem empurrou esse número foi a provisão do processo, lançada no primeiro trimestre.

O processo que virou conta

Em maio de 2024, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e os procuradores-gerais de 29 estados mais o Distrito de Columbia entraram com uma ação civil contra a Live Nation e a Ticketmaster por violação de leis de concorrência, práticas desleais e restrição de comércio. Entre os pedidos estava a venda forçada da Ticketmaster. Dez estados se juntaram depois.

O julgamento começou em março de 2026. Logo no início, a empresa assinou com o governo federal um termo de acordo, tornado público em 9 de março: um fundo inicial de US$ 280 milhões para as indenizações e as multas pedidas pelos estados, mais medidas estruturais. Seis estados aderiram em seguida, e as fatias deles no fundo somam cerca de US$ 18,6 milhões.

Esse acordo virou proposta de sentença, entregue ao juiz em 12 de junho. Proposta é a palavra certa: pela lei americana, o acordo só vale depois que o juiz aprovar. Os demais estados e o Distrito de Columbia seguiram no julgamento.

Em 15 de abril de 2026, o júri deu ganho de causa a esses estados em todos os pontos que restavam. A indenização foi calculada por ingresso vendido, e o total de ingressos não foi apurado.

Nada disso é definitivo. Falta a fase de remédios, em que os estados propõem e o juiz decide o que a empresa terá de mudar, além de multas de leis estaduais. Os pedidos que a Live Nation apresentou depois do veredicto estavam marcados para debate em 31 de julho, e ela pretende apelar ao tribunal federal do Segundo Circuito. Tudo isso está no formulário 10-Q entregue à SEC, a comissão de valores mobiliários americana.

Há outra frente aberta. Em setembro de 2025, a FTC, agência de defesa do consumidor americana, processou as duas empresas ao lado de sete estados: a acusação é de mostrar um preço menor do que o cobrado no fechamento da compra e de facilitar a vida dos cambistas. A Live Nation pediu o arquivamento em janeiro.

O Brasil está dentro disso

Em maio de 2018, a Live Nation assinou contrato para subscrever ações da Rock City S.A., que então detinha 80% da Rock World S.A., operadora do Rock in Rio no Rio de Janeiro e em Lisboa. Pagou US$ 34,8 milhões por metade do capital, uma participação sem controle, e mais US$ 200 mil pelo direito de comprar 1% adicional, que lhe daria o controle. Os termos estão no formulário entregue à SEC naquele ano.

De lá para cá o assunto sumiu dos documentos: o relatório anual de 2025 não cita Rock City, Rock World nem Rock in Rio, e a companhia não informa qual participação mantém hoje.

A Live Nation Brasil anuncia shows em site próprio e manda o comprador para a ticketmaster.com.br. O mesmo grupo que um júri condenou nos Estados Unidos vende ingresso de Kid Abelha e de Grupo Revelação & Xande de Pilares por aqui.

E o crescimento está vindo do lado de cá. O balanço afirma que o aumento de público veio dos mercados internacionais, "particularmente Europa continental e América do Sul". Na bilheteria, esses mercados venderam 39 milhões de ingressos, 12% a mais, e o valor bruto transacionado, o total de dinheiro que passou pela venda, subiu 20%. O movimento, diz a empresa, vem do "forte crescimento na América do Sul".

Os números do trimestre

O braço de shows faturou US$ 6,4 bilhões, alta de 8%, em cerca de 15,3 mil eventos, com Bruno Mars, BTS, Bad Bunny e Harry Styles na estrada. Um ano antes, o público tinha sido de 44,2 milhões.

Sozinha, a Ticketmaster fez US$ 852 milhões, 15% acima. O patrocínio rendeu US$ 383 milhões. E há o dinheiro de show que ainda nem aconteceu: US$ 6,4 bilhões já vendidos, 25% a mais que um ano atrás.

"Num mundo de telas infinitas e de tudo gerado por inteligência artificial, a única coisa que não dá para copiar é estar lá", escreveu Michael Rapino, presidente e CEO, no comunicado de resultados.

Na mesma nota, Rapino tratou da conta judicial.

"A provisão legal do primeiro trimestre vai pesar no lucro operacional reportado, mas seguimos no rumo de um crescimento de dois dígitos no lucro operacional ajustado neste ano", afirmou o executivo.

Por que isso interessa a quem compra ingresso aqui

A ação que virou provisão mirava o desenho da empresa. O pedido central do Departamento de Justiça era obrigar a venda da Ticketmaster, separando quem vende o ingresso de quem produz a turnê e opera a casa de show. Esse desenho é o mesmo em qualquer país onde a companhia atua, e ele cresce: no balanço aparecem casas recém-adquiridas na Itália, no Chile e na Argentina, e mais de 25 espaços grandes na fila para abrir até o fim de 2027.

No audiovisual brasileiro a discussão sobre concentração corre em paralelo: o Cade acabou de liberar a fusão de Paramount e Warner, e o setor discute há anos quem paga e para onde vai o dinheiro do streaming. No preço do ingresso, o desconto que o brasileiro tem vem de lei: é a meia-entrada. E o calendário de estádio segue cheio, de Liniker na despedida da turnê Caju para baixo.

A demanda, por enquanto, não cedeu: foram 143 milhões de ingressos vendidos até meados de julho, 14 milhões à frente do ritmo do ano passado, e a empresa projeta público 10% maior em 2026. Os US$ 450 milhões cabem no caixa: a companhia diz ter fechado o trimestre com cerca de US$ 2 bilhões livres. O que ainda não está decidido é a parte capaz de chegar ao preço do ingresso que você compra, a fase de remédios. É nela que vale ficar de olho.

ShowPedro Amaral

Leia também

Mais de Show