Fusão de Paramount e Warner é liberada no Brasil: o que muda no cinema e no streaming
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica arquivou em definitivo, na quarta-feira, 29 de julho, o processo da compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance no Brasil. A Superintendência-Geral do Cade havia aprovado a operação sem restrições em 8 de julho, e o prazo regimental correu sem recurso de terceiros e sem pedido de revisão do tribunal do órgão. A decisão transitou em julgado. Do lado brasileiro, o negócio, avaliado em cerca de US$ 110 bilhões, está liberado.
Liberado não quer dizer feito. A operação junta, numa companhia só, estúdios de cinema, canais lineares de televisão e plataformas de vídeo sob demanda, e continua travada nos Estados Unidos por decisão judicial. Se fechar, o público vê um nome a menos na abertura dos filmes, e quem vende ingresso ou produz no Brasil fica com um interlocutor a menos para negociar.
O que o Cade foi olhar
O parecer da Superintendência-Geral analisou distribuição de filmes para cinemas, streaming por assinatura, publicidade e propriedades intelectuais. A área técnica entendeu que a operação não apresenta probabilidade de exercício de poder de mercado nas sobreposições analisadas, e que a união não traz riscos à livre concorrência no Brasil.
Do lado da Warner vem um catálogo de peso: o universo DC, as sagas de Harry Potter e de O Senhor dos Anéis, as animações da Looney Tunes e do Cartoon Network, o acervo da HBO, canais como Discovery Channel e HGTV e o serviço de streaming HBO Max.
Os donos das salas pediram para falar
A parte da análise que mais interessa a quem vende ingresso no Brasil foi a distribuição de filmes para cinema. Duas entidades do setor, a Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Feneec) e a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), tentaram entrar no processo como terceiras interessadas.
Elas alertaram para dois riscos: um conglomerado desse tamanho poderia impor venda casada de longas-metragens, obrigando a sala a levar o pacote inteiro para ficar com o título que realmente vende, e reduzir o poder de barganha das salas.
O Cade indeferiu o pedido de habilitação das duas entidades, mas absorveu os questionamentos na análise técnica. O parecer final apontou que a disputa por datas de estreia e espaço nas salas mantém um ambiente de forte rivalidade, impulsionado por concorrentes como Disney e Sony e por distribuidoras nacionais, entre elas a Paris Filmes.
Se um estúdio a menos na mesa muda o que aparece na tela, quem for ao cinema nos próximos anos vai descobrir.
No streaming, a conta passou longe do limite
No vídeo por assinatura, o Cade avaliou que a participação conjunta de HBO Max e Paramount+ segue abaixo de 20%, patamar a partir do qual a autoridade presume posição dominante. A empresa resultante da fusão projeta uma base global próxima de 300 milhões de assinantes, mas a autarquia entendeu que a liderança da Netflix e a presença de Disney+, Globoplay, Amazon Prime Video e Apple TV+ garantem pressão competitiva por aqui.
Esse parecer mede fatia de mercado. Não mede quanto de conteúdo brasileiro sobra nesses catálogos, e esse número existe: o Panorama do mercado de vídeo por demanda de 2025, da Ancine, identificou 106 plataformas com oferta qualificada no Brasil, reunindo mais de 138 mil obras. Dessas, 5.664 são brasileiras, sendo 3.931 independentes. A participação nacional é de 5,3% no conjunto das plataformas que oferecem obras brasileiras e cai para 2,7% nas quatro plataformas estrangeiras de maior audiência.
Na Europa saiu com condição, nos Estados Unidos travou
O Brasil não foi o único a olhar o negócio, e não olhou do mesmo jeito. Em 22 de julho, a Comissão Europeia aprovou a aquisição com contrapartidas: a Paramount se comprometeu a deixar a United International Pictures, distribuidora que mantém com a Universal no Espaço Econômico Europeu, e a não fechar novos acordos de distribuição conjunta com a Universal por dez anos, sob acompanhamento de um administrador independente. Bruxelas cobrou preço; o Cade liberou sem exigir nada.
Nos Estados Unidos, a compra parou. O Departamento de Justiça aprovou a operação em 12 de junho, mas doze estados, liderados pela Califórnia, entraram com ação na Justiça federal alegando que a combinação extinguiria a concorrência em Hollywood e reduziria as opções do consumidor, em especial de quem vai ao cinema e de quem assina TV por cabo. A juíza distrital Araceli Martínez-Olguín concedeu liminar congelando a transação, ao considerar que os estados levantaram questões sérias sobre a capacidade de a fusão reduzir substancialmente a concorrência.
Em 24 de julho, a Paramount informou em petição que não fecha a compra antes de uma decisão de mérito na ação dos estados ou de 1º de junho de 2027, o que vier primeiro. A conta do atraso é salgada: passado 30 de setembro, o preço do negócio sobe 25 centavos de dólar por ação a cada trimestre, algo como US$ 650 milhões a cada três meses. Se a espera for até junho de 2027, o acréscimo pode chegar a US$ 1,7 bilhão.
O sindicato dos atores também se mexeu. Em resolução aprovada pela diretoria nacional no fim de semana de 25 de julho, o SAG-AFTRA se declarou contrário à compra e apoiou as ações antitruste dos procuradores dos doze estados e do sindicato dos roteiristas, o Writers Guild of America.
O que muda para o filme brasileiro
As salas brasileiras fecharam 2025 em número recorde, 3.554 em operação, pelos dados da Ancine. A bilheteria de 2026 vai bem: R$ 1,35 bilhão arrecadados entre janeiro e junho, alta de 9,4% sobre o mesmo período de 2025, e 62,4 milhões de ingressos vendidos, avanço de 1,6%, pelos números da Rentrak.
O filme nacional é que não pegou carona nessa alta. Em 2025 foram 367 títulos brasileiros lançados, 11,12 milhões de espectadores e R$ 214,99 milhões de renda. Em 2026, a participação do cinema brasileiro no público recuou para 6,5%, segundo a própria Ancine, ante cerca de 10% no biênio anterior. No fim de julho, nenhum longa brasileiro apareceu no Top 10 por dois fins de semana seguidos, num mês puxado por A Odisseia, de Christopher Nolan.
Nesse tabuleiro, o filme brasileiro disputa tela com quem tem calendário e verba de marketing globais. Os instrumentos que tentam segurá-lo em cartaz são públicos: a cota de tela, cuja regra a Ancine endureceu em maio para premiar sessão a partir das 17h e permanência, os editais federais e ações de preço como a Semana do Cinema.
O Cade cumpriu o papel que a lei lhe dá, que é olhar concorrência. Quanto de tela sobra para o cinema brasileiro depois de mais uma fusão é pergunta de política audiovisual, e ela vence bem antes de junho de 2027. Vale ficar de olho em quem vai respondê-la.


