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Do rádio aos dois Prêmios Shell: a carreira de Laura Cardoso antes e além das novelas

Do rádio aos dois Prêmios Shell: a carreira de Laura Cardoso antes e além das novelas
Crédito: Acervo Arquivo Nacional / Domínio público

Atriz, que morreu aos 98 anos, começou no rádio em 1942, atravessou a era do teleteatro ao vivo e conquistou no palco dois dos principais prêmios de sua carreira

Laura Cardoso morreu aos 98 anos deixando uma trajetória tão ligada à televisão brasileira que é fácil esquecer onde tudo começou: diante de um microfone. Antes das novelas, antes da TV Tupi e décadas antes das personagens que a transformariam em presença familiar para milhões de brasileiros, havia uma adolescente de São Paulo tentando entrar no rádio contra a resistência da própria família.

A atriz morreu na noite de segunda-feira, 17 de agosto, em casa, em São Paulo. O velório acontece nesta terça (18), das 8h às 14h, no Funeral Home, na Bela Vista. A cerimônia é restrita à família.

A história profissional de Laura, no entanto, começa em 1942.

O rádio antes de tudo

Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu na Bela Vista, em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, filha de imigrantes portugueses. Aos 15 anos, entrou para a Rádio Cosmos. Foi no rádio que adotou o nome artístico Laura Cardoso, aquele pelo qual seria conhecida pelo restante da vida.

Antes disso, chegou a ser aprovada em um teste feito por Oduvaldo Vianna na Rádio São Paulo, mas desistiu diante do receio da reação dos pais. Naquele momento, trabalhar como atriz ainda enfrentava forte resistência dentro de famílias como a sua.

A própria Laura resumiria essa barreira anos depois, no livro Laura Cardoso: Contadora de Histórias, de Julia Laks: a profissão “simplesmente não estava na lista de empregos para moças direitas”.

A resistência não a impediu de seguir. Vieram outras emissoras e experiências no rádio, enquanto Laura construía uma formação essencialmente prática. Ela própria dizia que aprendera em grande parte observando colegas, errando, acertando e estudando sozinha.

“A minha formação foi baseada num estudo muitas vezes solitário, em erros e acertos. Nunca tive um mentor”, afirmou no depoimento recuperado pela Ocupação Laura Cardoso, do Itaú Cultural.

Quando o teatro entrou pela televisão

A televisão brasileira ainda dava seus primeiros passos quando Laura chegou ao novo veículo. O Memória Globo registra sua estreia em 1952, em Tribunal do Coração, na TV Tupi. Vieram então programas como TV de Vanguarda, TV de Comédia e Grande Teatro Tupi, numa época em que boa parte da dramaturgia era transmitida ao vivo.

O repertório frequentemente vinha diretamente do teatro.

Em 1956, Laura esteve em O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams, com direção de Wanda Kosmo. Em 1959, apareceu em A Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. Em 1963, participou de O Profundo Mar Azul, de Terence Rattigan. Registros dessas montagens permanecem no acervo do Museu Pró-TV e integram a documentação reunida pelo Itaú Cultural.

Antes que sua carreira teatral se consolidasse num palco, portanto, Laura já lidava diante das câmeras com dramaturgia concebida originalmente para ele. O teleteatro funcionou como um dos grandes laboratórios de uma atriz que não havia passado por uma escola formal de interpretação.

Aos 32 anos, a estreia profissional no palco

Laura Cardoso já era uma atriz estabelecida no rádio e na televisão quando fez sua estreia profissional no teatro, aos 32 anos.

Foi em 1959, com Plantão 21, texto do norte-americano Sidney Kingsley montado pelo Pequeno Teatro de Comédia sob direção de Antunes Filho. Laura interpretava Mary McLeod. A produção tornou-se também um trabalho importante na trajetória do próprio Antunes.

A partir dali, o palco colocou Laura diante de alguns dos principais encenadores do país. Em 1968, integrou As Criadas, de Jean Genet, em montagem codirigida por Antônio Abujamra e Alberto D'Aversa. Em 1977, Abujamra voltou a dirigi-la em Volpone, de Ben Jonson. Três anos depois, Flávio Rangel a escalou em A Nonna, de Roberto Cossa.

Mas seriam dois trabalhos dos anos 1990 que dariam a Laura os dois Prêmios Shell de Melhor Atriz de sua carreira.

O primeiro veio em 1990, por Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, de Carlos Alberto Soffredini, com direção de Gabriel Villela. Laura interpretava Aleluia Simões, a Mãezinha, dona de uma companhia de circo-teatro.

Três anos depois, chegou o segundo Shell. Em Vereda da Salvação, tragédia de Jorge Andrade remontada por Antunes Filho, Laura viveu Dolor.

O trabalho exigia uma rotina que ajuda a dimensionar sua relação com o palco. “Passávamos 10, 12 horas dentro do teatro, onde ensaiávamos, ouvíamos palestras e exercitávamos nossa expressão corporal”, recordou Laura sobre o processo conduzido por Antunes.

Os dois Shell vieram do teatro, embora tenha sido a televisão que transformou seu rosto em parte da memória afetiva do país.

Quase 80 trabalhos numa televisão que ainda estava sendo inventada

A trajetória televisiva de Laura acompanhou a própria transformação do veículo no Brasil.

Nos anos 1950, fez teleteatros e novelas ainda não diárias. Segundo levantamento do pesquisador Nilson Xavier publicado pelo Itaú Cultural, sua primeira novela diária foi Quando o Amor É Mais Forte, exibida pela Tupi em 1964. Ela permaneceu na emissora até 1967, passou pela Record, voltou à Tupi e esteve lá até o fechamento do canal, em 1980.

Em 1981, Daniel Filho a convidou para Brilhante, de Gilberto Braga, sua estreia na Globo. Dois anos depois, voltou à emissora para viver Donana em Pão-Pão, Beijo-Beijo.

Vieram então Isaura, mãe de Ruth e Raquel em Mulheres de Areia; Guiomar, de A Viagem; Carmem, de Chocolate com Pimenta; Laksmi, de Caminho das Índias; Dona Sinhá, de Sol Nascente, além de dezenas de outras personagens.

O levantamento de Nilson Xavier chegava, ainda em 2017, a quase 80 títulos de televisão quando somados novelas, minisséries, séries e teleteatros. É uma das razões pelas quais os números atribuídos à carreira de Laura variam tanto: algumas contagens consideram apenas novelas, outras reúnem todos os formatos televisivos.

Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019.

Dois Shell, cinema e uma ligação que voltou a aparecer na tela

O encontro entre teatro e cinema reapareceria de forma curiosa na carreira de Laura.

Em 1995, ela interpretou Manuela em Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas. Cinco anos depois, protagonizou Através da Janela, de Tata Amaral, como Selma.

O roteiro de Através da Janela teve como ponto de partida justamente uma cena de Vereda da Salvação, a montagem teatral pela qual Laura havia recebido seu segundo Shell. Na peça de Jorge Andrade, a relação entre a personagem de Laura e o filho vivido por Luís Melo inspirou a construção que mais tarde chegaria ao cinema.

Por Através da Janela, Laura recebeu prêmios de melhor atriz em festivais brasileiros e no Brazilian Film Festival of Miami.

Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural. Em 2023, recebeu o Troféu Oscarito do Festival de Cinema de Gramado. Naquele ano, o festival anunciou dois Oscaritos individuais na mesma edição pela primeira vez, para Laura Cardoso e Léa Garcia. Léa morreu em Gramado no dia em que receberia a homenagem, e a cerimônia de Laura acabou transferida para alguns dias depois.

O palco até onde foi possível

Entre 2014 e 2015, Laura esteve presencialmente em cena em A Última Sessão, escrita e dirigida por Odilon Wagner. Segundo o diretor, ela era a primeira integrante do elenco a chegar ao teatro e a última a sair.

Quando Wagner perguntava por quê, a resposta era curta: “Porque sempre dá para ficar melhor”.

Aquela foi sua última atuação presencial nos palcos, mas não o último vínculo com uma montagem teatral. Em 2023, Laura ainda fez uma participação em off no espetáculo E o Zé, Quem É?, escrito e dirigido por Marcello Airoldi.

Seu último trabalho no cinema viria depois.

Aos 97 anos, Laura interpretou a protagonista do curta-metragem Dona Rosinha, com roteiro de KK Araújo e Marcelo Gomes. A produção, sobre o abandono de idosos, teve lançamento no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, em fevereiro de 2025. Laura esteve lá para assistir ao filme e conversar com o público.

Do microfone da Rádio Cosmos em 1942 ao curta exibido em 2025, foram mais de oito décadas atravessando formas muito diferentes de fazer dramaturgia. Rádio, teleteatro ao vivo, novela, cinema e palco.

E foi justamente no palco, onde chegou depois de já ser conhecida pelo público, que Laura Cardoso conquistou os dois Prêmios Shell que ficaram entre os principais reconhecimentos de sua carreira.

MemóriaPedro Amaral

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