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Financiador de “Joker” e “Babylon” é indiciado nos EUA por suposta pirâmide de US$ 100 milhões

Financiador de “Joker” e “Babylon” é indiciado nos EUA por suposta pirâmide de US$ 100 milhões
O Everett McKinley Dirksen United States Courthouse, em Chicago, sede da Justiça Federal onde a denúncia foi aberta. Não há foto de Jason Cloth nesta reportagem. Foto: Ken Lund/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

A ficha técnica de Joker tem um nome que o público nunca decorou: Jason Cloth, produtor executivo. O mesmo nome aparece em Babylon, em Ghostbusters: Afterlife, em Longlegs. Na terça-feira, 28 de julho, Cloth foi preso em Los Angeles.

Ele tem 60 anos, mora em Beverly Hills e responde a sete acusações de fraude eletrônica numa denúncia de 12 páginas. O documento foi assinado por um grande júri federal e aberto na Justiça Federal de Chicago, conforme o Deadline e a Variety. A Procuradoria do Distrito Norte de Illinois sustenta que ele montou uma pirâmide financeira e tirou mais de US$ 100 milhões de investidores que achavam estar bancando filmes e uma plataforma de jogos. Cada acusação tem pena máxima de 20 anos. Denúncia não é condenação: nada ali está provado, ele não foi julgado, e a agência Associated Press registrou que, até a publicação da reportagem dela, os autos não mostravam advogado constituído no caso criminal.

O homem que assina os cheques que ninguém vê

Cloth é canadense e comandava a Creative Wealth Media Finance Corp., sediada em Toronto. A empresa foi a principal financiadora da Bron Studios, produtora também canadense que, segundo o The Hollywood Reporter, acumulou 30 indicações e 6 estatuetas do Oscar em filmes que produziu ou bancou antes de pedir falência, em 2023. A Creative Wealth entrou em falência no Canadá no mesmo ano.

A lista de créditos de Cloth passa por Licorice Pizza, House of Gucci, Judas and the Black Messiah, The Addams Family e a série Kin, entre dezenas de títulos citados pelo Deadline e pelo The Hollywood Reporter. Currículo que abre porta: Joker passou de US$ 1 bilhão de bilheteria, conforme o Deadline.

O que a denúncia diz

Pelo texto da acusação, que o Deadline publicou na íntegra, Cloth ofereceu a clientes, entre abril de 2019 e junho de 2026, a chance de investir em projetos de cinema e entretenimento ou em uma plataforma de jogos. Entre eles estava um consultor de investimentos de Illinois. Desse consultor, dos clientes dele e de outros investidores, diz a Procuradoria, saíram mais de US$ 100 milhões, obtidos com declarações falsas sobre o desempenho e o valor das aplicações.

O destino do dinheiro, segundo os procuradores, foi outro: um empreendimento imobiliário no Canadá e o pagamento de investidores antigos com aporte novo. A denúncia pede o confisco de pelo menos US$ 12,25 milhões, e só em caso de condenação. O escritório do FBI em Chicago abriu um canal para ouvir quem se considere vítima.

Nenhum filme aparece nomeado na denúncia: o documento cita uma produtora identificada só por um número e dois investimentos genéricos, um de cinema e um de jogos. A acusação recai sobre Cloth, e os estúdios que lançaram os filmes do currículo dele não são citados.

Os outros processos, que são casos à parte

O caso criminal de Chicago não é o único contra Cloth, e os outros não se somam a ele: são ações distintas, em jurisdições diferentes.

Em 2025, a Comissão de Valores Mobiliários de Ontário abriu procedimento contra Cloth e a empresa dele, no Canadá, com acusações parecidas. Ao longo da década anterior, sustenta o órgão, foram captados cerca de US$ 500 milhões junto a 500 investidores dos Estados Unidos e do Canadá, mais do que os projetos precisavam, com desvio do excedente. A comissão aponta ainda US$ 50 milhões em empréstimos sem garantia a um incorporador que erguia prédios em Kingston, Ontário, não pagos até a falência. O caso segue em andamento.

Em Chicago, num processo civil separado da denúncia criminal, um grupo de investidores acusa Cloth de ter tomado US$ 80 milhões que iriam financiar Ghostbusters: Afterlife e Monkey Man, entre outros filmes.

"Ele está nisso há muito tempo", disse à Variety o advogado Alexander Loftus, que representa os autores dessa ação civil. "O discurso de venda do Cloth é que ele investiu em Joker e que aquilo foi um sucesso financeiro enorme. Ele não contava a eles que tinha captado muito além do necessário e deixado os investidores na mão. (...) Toda vez, ele usa a coisa nova para pagar a primeira."

Ainda pela Variety, são 137 investidores na ação coletiva, que já fecharam acordo com o consultor que recomendou o negócio e tentam recuperar cerca de US$ 60 milhões junto à seguradora dele.

Num terceiro caso, também civil, um júri de West Palm Beach, na Flórida, condenou Cloth em 2024 a pagar US$ 19,6 milhões a um investidor de um projeto de TV. Foi sentença de indenização, não condenação criminal. Ele não foi ao julgamento: avisou ao juiz que não tinha condições de se defender sozinho e que estaria no Festival de Cannes. O recurso foi rejeitado no ano seguinte.

Nem Cloth nem advogados dele responderam à Variety sobre a denúncia criminal, e a Associated Press registrou o mesmo silêncio dos advogados que o representam em processos na Flórida e na Califórnia. A fala pública que as fontes trazem é anterior ao caso criminal: quando a Creative Wealth ficou com os ativos que sobraram da Bron, Cloth atribuiu o prejuízo dos investidores à falência da produtora.

"Estamos satisfeitos por a Corte ter reconhecido como a Creative Wealth foi afetada pelas ações da Bron e ter decidido nos dar o controle dos ativos remanescentes", declarou Cloth em nota reproduzida pelo The Hollywood Reporter.

Por que esse dinheiro é difícil de rastrear

Nos processos contra Cloth, o desenho é o mesmo: dinheiro privado captado projeto a projeto, com investidor pessoa física atrás de retorno, para bancar filmes que depois chegam ao público pela mão de um grande estúdio. Esse dinheiro não passa por edital, não tem prazo de prestação de contas nem órgão de controle olhando a planilha. A conferência só acontece quando alguém processa.

O contraste com o Brasil é direto: aqui boa parte do dinheiro que sustenta o audiovisual é público, e por isso tem número de protocolo. O edital de R$ 270 milhões da Petrobras publica valor, modalidade e resultado; a Lei Rouanet exige projeto aprovado, captação declarada e prestação de contas aberta à consulta. O sistema apanha pela burocracia, e às vezes com razão. Mas é a burocracia que permite descobrir para onde o dinheiro foi sem esperar por uma denúncia criminal. E esse controle pesa mais num mercado em que o filme nacional costuma ficar fora do Top 10 das salas e a bilheteria raramente devolve o custo sozinha.

Esse arranjo tem história longa no Brasil. Luiz Carlos Barreto, morto neste ano, atravessou seis décadas negociando dinheiro público para o cinema, primeiro na Embrafilme e depois no Congresso, conforme a cobertura desta casa.

Enquanto o processo corre em Chicago, os filmes com o nome de Cloth seguem por aí, com o crédito intacto. O desfecho, condenação ou absolvição, é que vai dizer o que a Justiça americana cobra de quem financia um filme sem nunca aparecer nele.

CinemaPedro Amaral

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