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Morre Luiz Carlos Barreto, o produtor que fez o cinema brasileiro brigar por bilheteria

Morre Luiz Carlos Barreto, o produtor que fez o cinema brasileiro brigar por bilheteria
Foto: Produção Cultural no Brasil/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Luiz Carlos Barreto morreu na madrugada de quarta-feira, 22 de julho, aos 98 anos, no Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma infecção pulmonar agravada por pneumonia. O velório foi na manhã seguinte, no Palácio da Cidade, em Botafogo, e a cremação, restrita à família, no Memorial do Carmo, no Caju.

Barretão, como o meio o chamava, fez quase todos os ofícios do cinema brasileiro: fotografia, roteiro, produção, distribuição e articulação política. Mas a linha que atravessa as seis décadas de trabalho dele é o dinheiro. Barreto passou a vida defendendo uma tese teimosa: filme brasileiro pode ocupar a própria tela e voltar com bilheteria.

Do fotojornalismo para o set

Nascido em Sobral, no interior do Ceará, em 20 de maio de 1928, chegou ao cinema pela porta do jornalismo. Foi repórter fotográfico da revista O Cruzeiro, onde se tornou um dos nomes fortes do fotojornalismo brasileiro. Em 1961, cobrindo para a revista as filmagens de Barravento, primeiro longa de Glauber Rocha, no litoral baiano, decidiu trocar de lado da câmera.

A entrada efetiva veio como roteirista, ao lado de Roberto Farias, em O Assalto ao Trem Pagador (1962). No ano seguinte assinou a fotografia de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, que levou o prêmio da crítica no Festival de Cannes de 1964. Segundo o Tela Viva, Barreto eliminou os filtros que a produção brasileira herdara dos estúdios Vera Cruz e registrou a luz dura do sertão, num método que resumia na frase "sombra é sombra, luz é luz". O filme rodou com orçamento de 18 milhões de cruzeiros.

Em 15 de julho de 1963 nascia a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, aberta com a mulher e sócia Lucy Barreto, conforme registra o site da própria produtora. Barreto também fundou a Difilm, distribuidora que juntou diretores do Cinema Novo sob a mesma estrutura. Quem controla a distribuição decide em quantas salas o filme entra.

Dona Flor e 34 anos de recorde

O salto de escala veio em 1976, com Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido pelo filho Bruno Barreto a partir do romance de Jorge Amado. O filme vendeu 10,735 milhões de ingressos e foi, durante 34 anos, a maior bilheteria do cinema brasileiro, segundo a L.C. Barreto. Para chegar lá, a produtora comprou anúncios na Rede Globo, decisão de marketing incomum para um título nacional naquela altura.

Barreto gostava de contar o resultado pelo placar.

"Dona Flor e seus dois maridos (1976) foi um filme revolucionário no mercado. Batemos Tubarão, do Spielberg", afirmou em entrevista ao Correio Braziliense, em 2023.

Para ele, aquilo era argumento de negociação: mostrava a exibidores e distribuidores que o filme brasileiro ganhava do estrangeiro dentro de casa, desde que tivesse tela e campanha.

De onde vinha o dinheiro

Nos anos 1970 e 1980, quem bancava o setor era a Embrafilme, a estatal que centralizava o financiamento do cinema no país. Barreto influenciou diretamente as decisões da empresa, negociando recursos públicos enquanto se posicionava como opositor do regime militar, conta o Tela Viva. Dali saíram coproduções como Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, e Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos. Naquele período, o cinema brasileiro chegou a 42% da receita total de bilheterias do país.

Em 1990, a Embrafilme foi extinta. As linhas de fomento pararam, os estúdios pararam junto e a L.C. Barreto passou a distribuir títulos estrangeiros para se manter de pé. Barreto mudou de endereço: virou presença fixa no Congresso Nacional, negociando com parlamentares de partidos diferentes.

Dessa articulação saiu a Lei do Audiovisual, de 1993, que permitiu abater imposto de renda de quem investisse em produção de cinema. É prima da Lei Rouanet na engrenagem da renúncia fiscal, e foi o mecanismo que destravou a Retomada. Os dois primeiros certificados de captação emitidos pela nova lei foram da produtora dele.

A conta que nem sempre fechou

Com dinheiro privado incentivado, os orçamentos subiram. Vieram as duas indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro, com dois dos filhos na direção: O Quatrilho, de Fábio Barreto, e O Que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto. Vieram também Bossa Nova e Flores Raras.

O retorno de bilheteria, porém, oscilou feio. Entre 1995 e 2008, a empresa captou R$ 52 milhões em verbas de renúncia fiscal para rodar doze filmes, segundo o Tela Viva. Os doze somaram cerca de 4 milhões de espectadores no total, e o produtor teve de recorrer a empréstimos bancários para segurar a estrutura. É uma média de pouco mais de 330 mil espectadores por filme, com custo fixo de produtora grande em cima.

Em Lula, o Filho do Brasil (2009), Barreto colocou R$ 4 milhões do próprio bolso num orçamento planejado de R$ 13 milhões e impôs a estreia em mais de 500 salas simultâneas, negociando pacotes de mídia com exibidores e distribuidores. O lançamento coincidiu com o acidente de carro que deixou o diretor, Fábio Barreto, em coma até a morte, em 2019.

O número que ele repetia

Nos últimos anos, Barreto participou dos debates de consolidação do Fundo Setorial do Audiovisual e fundou a Amazônika, voltada a animação em 3D. Seu acervo fotográfico foi destinado ao Instituto Moreira Salles. E ele continuou martelando a mesma conta.

"A luta toda do cinema brasileiro foi o de conquistar o seu próprio mercado. Isso foi conseguido na época da Embrafilme. Chegamos a alcançar 42% do mercado", disse ao Correio Braziliense em 2023, antes de completar: "Hoje, não temos nem 1%. Isto é um escândalo."

O "nem 1%" era força de expressão. Naquele mesmo 2023, o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, ligado à Ancine, registrou 3,3% do público para filmes brasileiros. Os números não medem a mesma coisa: os 42% da era Embrafilme se referem à receita das bilheterias, e o índice de hoje mede fatia de público. O diagnóstico de fundo, esse, continua de pé. Em 2026, já com a Cota de Tela em vigor, a participação nacional no público é de 6,5%, contra 10,1% em 2024 e 9,9% em 2025, segundo a Ancine.

Na nota que divulgou sobre a morte, publicada na íntegra pela CNN Brasil, a família definiu o que o setor perdeu.

"O país perdeu Barretão. É o mesmo que dizer: o cinema brasileiro perdeu um de seus arquitetos, o mais apaixonado de todos", diz o texto.

Arquiteto é a palavra certa. Barreto entendeu cedo que estética sem distribuição não vira mercado e que mercado sem política pública não se sustenta. Ele morreu com essa conta aberta: mesmo com cota de tela e fundo setorial, o filme brasileiro não chega a um décimo do público que compra ingresso no país.

CinemaPedro Amaral

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