Teatro Guaíra, Curitiba: a casa que virou prisão, o incêndio e as três salas de hoje
O Centro Cultural Teatro Guaíra conta a própria idade a partir de uma casa que não existe mais. O complexo de concreto que ocupa um quarteirão do centro de Curitiba foi entregue em pedaços. O nome é bem mais velho. Veio de um teatro aberto em 28 de setembro de 1884, que serviu de prisão durante a Revolução Federalista e acabou demolido em 1939.
Entre a demolição e o primeiro auditório do complexo novo, Curitiba passou quinze anos sem casa oficial. Depois vieram vinte e três anos de canteiro, do início da obra, em 1952, à entrega do último auditório, em 1975. Com um incêndio no meio.
Hoje são três auditórios sob o mesmo teto, com 2.163, 490 e 68 lugares, conforme as fichas técnicas da instituição. O site oficial descreve o conjunto como um dos maiores complexos culturais da América Latina, com 16,9 mil metros quadrados. Nunca escreve que é o maior.
O teatro que a guerra transformou em cadeia
No século 19, a Assembleia Provincial doou à Sociedade Teatral Beneficente União Curitibana o terreno para erguer o Theatro São Theodoro. O nome homenageava Theodoro Ébano Pereira, que a instituição apresenta como fundador de Curitiba. A casa funcionou cerca de dez anos.
A Revolução Federalista chegou ao Paraná em 1894. As apresentações foram suspensas e as instalações viraram prisão. Só em 1900 o teatro reabriu, batizado de Theatro Guayrá, na grafia com th que o país usava e que várias casas conservam até hoje.
Em 1939 o Guayrá foi demolido. No mesmo ano nasceu a campanha por um teatro oficial na cidade, encabeçada pela Academia Paranaense de Letras. Ela levaria treze anos para virar obra.
Vinte e três anos de canteiro e um incêndio antes da abertura
O trabalho começou em 1952, dentro das obras do centenário da emancipação política do Paraná, no governo Bento Munhoz da Rocha Neto. O projeto é do engenheiro Rubens Meister, autor também da Prefeitura Municipal de Curitiba e da Estação Rodoferroviária.
O primeiro auditório, o Salvador de Ferrante, foi inaugurado em 19 de dezembro de 1954, segundo o registro estadual de tombamento. A primeira peça ali foi Vivendo em Pecado, de Terence Rattigan, com a companhia Dulcina. O histórico da casa situa as primeiras apresentações em 1955.
Em abril de 1970 veio o incêndio. O grande auditório estava previsto para abrir no ano seguinte e ficou substancialmente destruído. O Bento Munhoz da Rocha Neto, o Guairão, só estreou em 12 de dezembro de 1974, com Paraná, Terra de Todas Gentes, de Aderbhal Fortes e Paulo Vítola. O miniauditório Glauco Flores de Sá Brito abriu em 28 de agosto de 1975.
Por que um prédio de concreto virou patrimônio?
O painel em concreto aparente de Poty Lazzarotto está na fachada desde 1969. É o que o pedestre vê da calçada: 4 metros de altura por 27,60 de largura. O inventário estadual registra dois nomes para a obra, Evolução das Artes Cênicas e O Teatro no Mundo. Os painéis e murais de Poty foram tombados pelo Paraná em 25 de março de 2015.
O complexo inteiro é tombado desde 18 de dezembro de 2003, sob a inscrição 147-II. O registro põe o Guaíra entre os exemplares mais importantes da arquitetura moderna paranaense, ao lado da Biblioteca Pública, do Centro Cívico, da Praça Dezenove de Dezembro e do Colégio Estadual.
Concreto aparente e linha reta ficam longe do teatro histórico que o país costuma guardar, o ecletismo do século 19: o Theatro da Paz, de 1878, o Teatro Amazonas, de 1896, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 1909. O Guaíra é tombado justamente por ser moderno.
O que cabe nas três salas
O Guairão tem 2.163 lugares: 1.146 na plateia, 16 deles para cadeira de rodas, 539 no primeiro balcão e 478 no segundo. O Guairinha, apelido do Salvador de Ferrante, tem 490 lugares: 304 na plateia, 176 no balcão e 10 espaços para cadeirantes. O miniauditório tem 68. Fora do prédio principal, o Guaíra ainda administra o Teatro José Maria Santos, na rua Treze de Maio.
Somar as três salas dá 2.721 lugares. A casa não publica esse número: o histórico do próprio site fala em 2.757, e a página institucional, em 2,8 mil pessoas. São dois totais oficiais para o mesmo prédio, e esta reportagem não fecha a conta. Ficam os números sala a sala, que são os das fichas técnicas.
Quatro corpos artísticos respondem pela produção própria: Orquestra Sinfônica do Paraná, Balé Teatro Guaíra, G2 Cia. de Dança e Escola de Dança. A instituição estima o público anual em cerca de 350 mil espectadores. O resto da agenda é pauta cedida a terceiros.
No calendário de agosto de 2026, consultado no dia 6, o miniauditório tinha Ainda Antígona em cartaz até o dia 9. O Guairinha abria Nebulosa de Baco, de 6 a 9. No Guairão estavam marcados O Mercador de Veneza, com Dan Stulbach, no dia 8, e o show Led Zeppelin Legends In Concert, no dia 20. Na página da temporada corrente, o Balé abriu 2026 em março, com Tempo de Movimento e a Orquestra Sinfônica do Paraná, e voltou em junho com GiselleS.
O concreto ficou pronto em 1975. O nome vem de 1884. É a única coisa que passou inteira de um prédio para o outro.
Perguntas rápidas
Quando o Teatro Guaíra foi inaugurado? Depende de qual casa se conta. O Theatro São Theodoro, que deu origem ao nome, abriu em 28 de setembro de 1884. O complexo atual saiu por partes: Salvador de Ferrante em 19 de dezembro de 1954, Guairão em 12 de dezembro de 1974, miniauditório em 28 de agosto de 1975.
Por que o teatro se chama Guaíra? O São Theodoro passou a se chamar Theatro Guayrá em 1900. O prédio foi demolido em 1939, e o nome atravessou para o complexo erguido a partir de 1952.
O Teatro Guaíra é o maior teatro da América Latina? A instituição não usa essa afirmação. O site oficial se descreve como um dos maiores complexos culturais da América Latina, com 16,9 mil metros quadrados e capacidade para 2,8 mil pessoas somando os auditórios.



