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Teatro de Santa Isabel: a casa do Recife que ardeu em 1869 e reabriu com Verdi

Teatro de Santa Isabel: a casa do Recife que ardeu em 1869 e reabriu com Verdi
Foto: Hans von Manteuffel/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Uma lei provincial assinada em 30 de abril de 1839 autorizou o governo de Pernambuco a erguer um teatro público no Recife. Quem assinou foi Francisco do Rego Barros, presidente da província entre 1837 e 1844 e futuro conde da Boa Vista. O problema seguinte era encontrar quem soubesse construir a casa: o Brasil quase não tinha engenheiros civis formados, e os poucos que havia vinham da carreira militar. Rego Barros foi buscar gente na Europa, e em setembro de 1840 desembarcou no Recife o engenheiro francês Louis Léger Vauthier.

O primeiro projeto de Vauthier, orçado em 400 contos, foi recusado por caro. O segundo, de 240 contos, passou em fevereiro de 1841, e as obras começaram em abril num areal chamado Campo do Erário, hoje Praça da República. Durante todo o canteiro a casa se chamou Teatro de Pernambuco. O nome mudou pouco antes da abertura, para homenagear a princesa Isabel, filha de dom Pedro II.

A inauguração foi em 18 de maio de 1850, com o drama O Pajem d'Aljubarrota, do português Mendes Leal. A ficha da Fundarpe, a fundação estadual de patrimônio de Pernambuco, descreve o Teatro de Santa Isabel como o primeiro e mais expressivo exemplar de arquitetura neoclássica do estado e um dos mais notáveis do país. A construção foi tocada sem mão de obra escravizada, num Brasil que ainda vivia da escravidão, conforme registrou o Diario de Pernambuco na reportagem sobre os 175 anos da casa, em agosto de 2025.

Como a plateia virou tribuna

Nas primeiras décadas o palco foi ocupado por empresários que fechavam contratos de temporada longa e por companhias líricas estrangeiras. Em 1858 a Companhia Lyrica Italiana G. Marinangelli apresentou ali La Traviata. No ano seguinte, em viagem pelas províncias do Norte, dom Pedro II passou o aniversário no Recife e foi homenageado com um espetáculo de gala.

Foi a política, porém, que fixou o Santa Isabel na memória nacional. O prédio abrigou comícios da campanha abolicionista e, depois, da campanha republicana, com discursos de Martins Júnior e Silva Jardim. Castro Alves e Tobias Barreto passaram pela casa, e Rui Barbosa falou ali em campanha para a Presidência. Dois nomes ficaram grudados no teatro: José Mariano e Joaquim Nabuco.

"Joaquim Nabuco discursou aqui. Ele promovia eventos para arrecadar fundos com o objetivo de comprar a liberdade de pessoas escravizadas. No térreo do teatro, temos hoje um espaço de memórias onde uma placa registra esse momento", disse Romildo Moreira, diretor da casa, ao Diario de Pernambuco.

A frase de Nabuco gravada nessa placa aparece em redações diferentes conforme a fonte. O BNDES, que ajudou a financiar o restauro do prédio, registra "Ganhamos aqui a causa da abolição". Na versão que o diretor do teatro deu ao jornal pernambucano, ela diz: "Aqui ganhamos a causa da abolição".

O incêndio de 1869 e a reabertura com Verdi

Dezenove anos depois da inauguração, em 19 de setembro de 1869, um incêndio destruiu quase tudo. Ficaram de pé as paredes laterais, o alpendre e o pórtico. Como substituto provisório, ergueram em madeira o Pavilhão Santa Isabel, no Palácio do Campo das Princesas.

A reconstrução se arrastou por anos. Vauthier já tinha voltado para a França e orientou o trabalho de Paris. Suas recomendações foram seguidas pelo engenheiro pernambucano José Tibúrcio Pereira de Magalhães, o mesmo que desenhou o projeto do Theatro da Paz, em Belém, e a Assembleia Legislativa de Pernambuco. O Santa Isabel reabriu em 16 de dezembro de 1876, sete anos depois do fogo, com Um Baile de Máscaras, de Giuseppe Verdi.

Do fogo nasceu também o repertório de assombração da casa. Segundo a tradição oral recolhida pelo site de folclore urbano Sombras do Recife, a peça em cartaz na véspera do incêndio era Fausto, e o estrago teria começado num aparelho de efeitos de fogo esquecido no camarim da prima-dona. A lenda diz ainda que funcionários do turno da noite ouvem aplausos de uma plateia invisível e veem uma bailarina dançar no palco vazio. Nada disso está documentado.

O que ainda funciona, 176 anos depois

As intervenções seguintes atravessaram o século 20. Em 1916, no governo de Manuel Borba, o teatro ganhou luz elétrica, teve a canalização de gás refeita e recebeu um pano de boca importado da Inglaterra. Vieram reformas em 1936, outras no centenário, em 1950, e obras de restauração nos anos 1970 e entre 1983 e 1985. A partir de 2000, um novo restauro devolveu feições originais e melhorou a segurança do prédio, com participação do laboratório de conservação e restauração da Fundação Joaquim Nabuco.

O tombamento federal saiu em 31 de outubro de 1949, no processo 401-T-1949, com inscrição no Livro do Tombo Histórico, e desde então a casa é patrimônio sob a guarda da Prefeitura do Recife. O Santa Isabel integra o grupo dos 14 teatros-monumento do país e tem capacidade para 850 pessoas.

A agenda segue cheia. O teatro é a sede da Orquestra Sinfônica do Recife, criada em 30 de julho de 1930 por Vicente Fittipaldi. O primeiro concerto do grupo foi no palco do Santa Isabel, e o Diario de Pernambuco trata a orquestra como a mais antiga do Brasil em atividade ininterrupta. Em julho de 2026 ela chegou aos 96 anos. Boa parte da programação é gratuita, uma das formas de acesso ao teatro que o FOYER já detalhou ao explicar como funciona a meia-entrada no teatro.

"Fazemos, todos os anos, uma manutenção geral em fevereiro, quando não há apresentações. Em 2026, vamos restaurar parte do Salão Nobre, mas sempre respeitando os critérios técnicos, já que se trata de um prédio tombado", explicou Romildo Moreira ao Diario de Pernambuco.

Em 18 de maio de 2026 a casa completou 176 anos. Continua no mesmo endereço da Praça da República, de frente para o Palácio do Campo das Princesas, mais velha que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e que o Teatro Amazonas.

TeatroRedação Foyer

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