Filme de “Hadestown” tira de “Hamilton” o recorde de maior estreia de uma captação de teatro nos cinemas
A gravação em vídeo da montagem de Hadestown feita no West End londrino arrecadou US$ 10,2 milhões no fim de semana de estreia nos cinemas da América do Norte. É a maior abertura já registrada por um filme de captação de espetáculo teatral, marca que até então pertencia ao registro de Hamilton. Os números saíram na segunda-feira, 27 de julho, na Deadline, e foram reproduzidos no mesmo dia pela Playbill e pelo Broadway News.
Batizado de Hadestown: The Musical, o filme entrou em cartaz em 24 de julho em 1.949 salas dos Estados Unidos e do Canadá. A projeção inicial era de US$ 9,69 milhões, informou a Playbill, mas o boca a boca e o público que voltou para uma segunda sessão empurraram o resultado acima dos US$ 10 milhões. A Deadline fechou a conta em US$ 10,243 milhões.
Uma marca que pertencia a "Hamilton" desde setembro
O recorde anterior de abertura era do registro de Hamilton, que rendeu US$ 10,1 milhões em 1.825 salas norte-americanas entre 5 e 7 de setembro de 2025, segundo o Broadway News. Aquela temporada nos cinemas aconteceu mais de cinco anos depois de o filme do musical de Lin-Manuel Miranda estrear no Disney+, em 2020, plataforma onde continua disponível.
O recorde vale para o fim de semana de estreia e só para ele. Na arrecadação total, o registro de Hamilton segue à frente: somou US$ 16,9 milhões no mercado doméstico ao longo de sua temporada nos cinemas, número que o filme de Hadestown ainda persegue, observou a IndieWire.
O fim de semana também virou recorde interno da Bleecker Street, distribuidora independente que mantém uma divisão de cinema de evento chamada Crosswalk. A Deadline apontou que os US$ 10,243 milhões superam a melhor estreia da empresa até aqui, os US$ 7,6 milhões de Logan Lucky, filme de Steven Soderbergh lançado em 2017.
O plano comercial mudou no meio do caminho. A temporada nos cinemas estava limitada a cinco dias; diante da procura, os distribuidores anunciaram a extensão, informou o Broadway News, e a Playbill registrou que os produtores passaram a esperar o filme em cartaz "indefinidamente".
Três apresentações no Lyric Theatre viraram um longa
O material não foi rodado em Nova York. O elenco principal original da Broadway voltou aos papéis em 2025 para uma temporada limitada no Lyric Theatre, no West End londrino, e três apresentações foram filmadas, de acordo com a Playbill. Reeve Carney aparece como Orfeu, André De Shields retoma o Hermes que lhe deu o Tony, Amber Gray faz Perséfone, Eva Noblezada é Eurídice e Patrick Page assume Hades. A direção da captação é de Brett Sullivan, da produtora Steam Motion and Sound. O filme foi exibido pela primeira vez em 8 de junho, no Festival de Cinema de Tribeca.
A produtora Mara Isaacs assina o espetáculo na Broadway ao lado de Dale Franzen, Hunter Arnold e Tom Kirdahy.
“Estamos muito orgulhosos deste filme. Ele é fruto de uma parceria criativa rara entre a equipe da Steam Motion and Sound, liderada por Brett Sullivan, e o coração criativo do próprio Hadestown, Rachel Chavkin, cuja direção original e contribuição ao filme são indeléveis, ao lado de Anaïs Mitchell e de mim mesma”, afirmou Mara Isaacs em comunicado citado pela Playbill
Escrito e composto por Anaïs Mitchell e dirigido por Rachel Chavkin, Hadestown cruza o mito de Orfeu e Eurídice com o de Hades e Perséfone em um submundo industrial. A montagem venceu oito prêmios Tony em 2019, entre eles os de melhor musical, melhor direção e melhor trilha original, e está no sétimo ano em cartaz no Walter Kerr Theatre, na Broadway.
O que a crítica viu na tela
O crítico-chefe de cinema da Variety, Owen Gleiberman, publicou sua análise em 25 de julho e tratou a captação como porta de entrada para quem nunca viu o espetáculo.
"Hadestown: The Musical", uma versão em filme que registra e apresenta uma apresentação ao vivo do espetáculo, realizada em fevereiro de 2025 em Londres (assim como o filme de "Hamilton", de 2020, apresentou uma produção ao vivo daquele espetáculo), oferece uma esplêndida oportunidade para qualquer pessoa que não tenha visto "Hadestown" no palco de experimentá-lo, escreveu o crítico na Variety
Gleiberman observou que a plateia captada no Lyric parecia conhecer a obra de cor e descreveu o espetáculo como algo próximo de um acontecimento coletivo, com músicos e dançarinos circulando pelo palco. A Playbill mantém uma lista, atualizada conforme as críticas saem, com os textos de Variety, TheaterMania, IndieWire, The New York Times, Awards Daily e The Nerds of Color.
Por que a conta interessa ao mercado brasileiro
Captação de teatro sempre foi assunto sensível para produtor: filmar um musical custa caro, envolve renegociar direitos com autores, elenco e sindicatos, e por muito tempo pareceu concorrer com a bilheteria do palco. O desempenho de Hadestown reforça o argumento contrário, o de que a versão filmada funciona como vitrine do palco. Quem acompanha quanto custa montar um musical no Brasil sabe que o registro em vídeo raramente cabe no orçamento por aqui.
Este é o primeiro de uma série de captações da Broadway que a Crosswalk e a LD Entertainment pretendem lançar juntas, segundo a Playbill. A Bleecker Street já havia colocado nos cinemas, em dezembro de 2023, o registro de Waitress, também dirigido por Brett Sullivan, que depois chegou às plataformas de streaming.
Há um brasileiro no meio dessa história. O barítono Paulo Szot, vencedor do Tony por South Pacific, entrou como Hades no elenco da Broadway em 2 de setembro de 2025, conforme anunciou a Playbill, e seguia no papel em janeiro de 2026, quando a mesma publicação divulgou um vídeo dele cantando "His Kiss, the Riot" no Walter Kerr. Szot não aparece no filme, gravado com o elenco original, mas sua temporada em Nova York o colocou à frente de um dos papéis centrais da partitura de Mitchell.
E a versão brasileira?
O musical também está a caminho dos palcos do país. A CNN Brasil informou, em setembro de 2025, que Hadestown ganharia montagem brasileira em 2026, em produção da T4F com a Caradiboi, e que as audições já estavam abertas. O site especializado A Broadway é Aqui, citando informação exclusiva do Valor Econômico, apontou temporada no Teatro Renault, em São Paulo, a partir do segundo semestre. Produção e teatro não haviam divulgado data de estreia nem venda de ingressos até a publicação desta reportagem.
Já o filme não tem lançamento previsto por aqui. A Crosswalk e a LD Entertainment compraram os direitos para a América do Norte e para todos os territórios de língua inglesa, segundo a Playbill, o que deixa o Brasil de fora do acordo atual. O caminho de musicais estrangeiros até a tela brasileira costuma passar por versões hollywoodianas, como aconteceu quando Wicked estreou nos cinemas, ou por temporadas nacionais, e não pela captação do espetáculo original. Por ora, o público daqui acompanha de longe o que Londres monta, do sucesso de Hadestown no West End à recepção espinhosa de Trainspotting como musical.


